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Três anos depois dos brutais ataques terroristas do Hamas contra Israel, em 7 de outubro de 2023, a América Latina assiste a uma mudança de direção. Enquanto parte da região apostou no isolamento diplomático em relação a Israel, uma nova frente de governos conservadores começa a reconstruir essas relações. José Antonio Kast e Abelardo de la Espriella encabeçam essa aproximação. Flávio Bolsonaro poderá ampliar o grupo caso vença o segundo turno da eleição brasileira, em 25 de outubro.
A mudança mais recente ocorreu na Colômbia. Desde que assumiu a presidência, em agosto, Abelardo de la Espriella começou a desmontar a política de hostilidade a Israel adotada por Gustavo Petro. Seu governo acertou a restauração das relações diplomáticas plenas, anunciou a transferência da embaixada para Jerusalém, comprometeu-se a retomar as exportações e a retirar o país tanto do processo movido pela África do Sul contra Israel na Corte Internacional de Justiça quanto do Grupo de Haia, articulação internacional pela adoção de medidas contra o Estado israelense. Petro havia rompido relações diplomáticas com Israel em 2024, durante a guerra em Gaza.
A guinada colombiana não é um episódio isolado. Na Argentina, Javier Milei transformou o apoio a Israel em uma das marcas de sua política externa. Em abril, ao lado de Benjamin Netanyahu, lançou os Acordos de Isaac, uma iniciativa para aproximar Israel de países latino-americanos dispostos a cooperar em segurança, tecnologia e combate ao terrorismo, ao antissemitismo e ao narcotráfico. O acordo também identifica a expansão das redes iranianas no Hemisfério Ocidental como uma preocupação estratégica.
No Chile, José Antonio Kast começou a reconstruir as pontes danificadas durante o governo de Gabriel Boric. Em maio, encontrou-se com o presidente israelense Isaac Herzog. No mês seguinte, nomeou Gabriel Zaliasnik embaixador em Israel. Em julho, representantes dos dois países já discutiam cooperação em defesa, inteligência, segurança e inovação tecnológica. A aproximação marca uma mudança em relação ao governo anterior, que havia retirado seu embaixador para consultas e suspendido a participação israelense em eventos militares.
Embora caminhem na mesma direção, esses governos chegam a Israel por caminhos distintos. Para Milei, o vínculo envolve convicções ideológicas, afinidade pessoal com o judaísmo e uma visão de política externa que associa Israel à defesa da civilização ocidental. Kast combina valores conservadores com interesses concretos de segurança e cooperação tecnológica. Na Colômbia, a relação sempre teve um componente pragmático, especialmente nas áreas de defesa, inteligência e tecnologia agrícola. De la Espriella acrescentou a essa parceria uma dimensão ideológica e religiosa que a aproxima do movimento conservador regional.
No Brasil, Jair Bolsonaro fez da relação com Israel uma peça importante de sua identidade política, fortalecida pelo apoio das igrejas evangélicas. Seu filho Flávio herdou essa base eleitoral e, caso chegue à Presidência, terá condições políticas de retomar a aproximação interrompida pelo governo Lula. Mas há uma fragilidade nessa aliança que os governos parecem subestimar: boa parte do apoio popular a Israel vem de comunidades religiosas que também se tornaram terreno fértil para a circulação de narrativas antijudaicas.
A dimensão religiosa ajuda a explicar por que Israel conquistou um lugar tão particular na política latino-americana. Para milhões de evangélicos, o Estado judeu representa muito mais do que um parceiro diplomático. Israel ocupa um lugar central em sua interpretação das Escrituras e da história bíblica. O apoio ao país, portanto, não depende necessariamente de acordos comerciais, alianças militares ou simpatia por um governante israelense.
As igrejas conseguiram fazer o que décadas de diplomacia não seriam capazes de realizar sozinhas: transformar uma questão distante de política externa em assunto presente nos cultos, nas conversas familiares e na identidade religiosa de milhões de eleitores. Essa ligação pode sobreviver às mudanças de governo e influenciar decisões eleitorais muito além da política para o Oriente Médio. É justamente aí que se encontra a vulnerabilidade dessa nova aliança.
Nos Estados Unidos, o apoio a Israel já enfrenta desgaste entre segmentos tradicionalmente favoráveis ao país. Pesquisas do Pew Research Center mostram que, entre os evangélicos brancos americanos, a opinião favorável sobre o povo israelense caiu de 84% em 2024 para 74% em 2026.
A avaliação positiva do governo israelense recuou de 71% para 57% no mesmo período. Parte desse desgaste acompanha a reação à guerra em Gaza e às decisões do governo Netanyahu.
Outra parte se manifesta em discursos nacionalistas contrários ao financiamento de Israel com recursos dos contribuintes americanos e ao envolvimento dos Estados Unidos em conflitos externos. Essas posições, por si só, não constituem antissemitismo. O problema surge quando o debate político passa a incorporar acusações coletivas contra os judeus, teorias conspiratórias ou a ideia de que Israel controla as decisões de Washington.
Na América Latina, onde o apoio dos governos a Israel não envolve compromissos financeiros comparáveis aos americanos, o debate assume características diferentes.
O terreno religioso é particularmente sensível. Antigos preconceitos cristãos contra os judeus, que atravessaram séculos, encontram nas redes sociais novas oportunidades de circulação. Entre eles estão a acusação de responsabilidade coletiva dos judeus pela morte de Cristo, a ideia de que o judaísmo representa uma ameaça à fé cristã e as teorias sobre um suposto poder judaico oculto que controlaria governos, instituições financeiras ou lideranças religiosas.
São preconceitos antigos, agora difundidos em vídeos, podcasts, grupos de mensagens e publicações que podem alcançar comunidades religiosas sem passar pelos filtros tradicionais das instituições
Um levantamento divulgado em 2026 pelo Web Observatory, em colaboração com o Congresso Judaico Latino-Americano e outras organizações judaicas, examinou mais de 118 milhões de publicações e comentários em sete plataformas digitais. O estudo identificou a persistência de níveis de antissemitismo em língua espanhola muito superiores aos registrados antes dos ataques de 7 de outubro de 2023.
O material analisado revela um ambiente no qual referências religiosas hostis aos judeus convivem com teorias da conspiração, negação ou distorção do Holocausto e acusações que responsabilizam indistintamente a população judaica pelas ações do Estado de Israel. Mensagens originadas em diferentes campos políticos podem terminar reproduzindo os mesmos estereótipos.
Para os governos que agora se aproximam de Israel, esse é um problema que vai muito além da diplomacia. A força dessa relação depende de sua capacidade de resistir às disputas eleitorais e às mudanças de orientação política. Quando a aproximação fica restrita à vontade de um presidente, basta uma eleição para revertê-la. O caso de Lula é exemplar sobre esse giro político.
Uma relação sustentada também pela confiança entre comunidades religiosas possui raízes mais profundas. Mas essas raízes não são imunes à corrosão. Se o antissemitismo conseguir transformar a solidariedade aos judeus em motivo de suspeita dentro de parcelas do mundo cristão, a aproximação diplomática perderá parte importante de sua sustentação social.
O mapa político da América Latina pode estar se movendo em direção a Israel. Mas a disputa mais importante acontece longe das chancelarias. A batalha está nas igrejas, nos grupos de WhatsApp, nos podcasts e nas redes sociais. A confiança entre comunidades religiosas leva gerações para ser construída e pode desaparecer muito antes que os governos percebam o estrago.
Preservá-la deixou de ser apenas uma questão de diálogo entre religiões. Por isso, inimigos de Israel estão alimentando esse incêndio. Disseminam ódio, intolerância com o objetivo de gerar divisão. Defender essa confiança já não é apenas uma responsabilidade inter-religiosa. É uma imperativa necessidade estratégica.

Leonardo Coutinho é diretor-executivo do Center for a Secure Free Society, o principal think tank de segurança nacional dos EUA em combate às ameaças transnacionais e transregionais no Hemisfério Ocidental. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




