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Há uma palavra que a diplomacia latino-americana passou a tratar como pecado: erradicação. Durante anos, governos, ONGs, organismos internacionais e boa parte da imprensa empurraram o debate para um terreno confortável, quase terapêutico. Fala-se de substituição voluntária, desenvolvimento alternativo, redução de danos, inclusão produtiva, diálogo com comunidades e respeito às tradições locais. Tudo isso é necessário. Nada disso, isoladamente, resolve o problema. O que falta dizer, com a seriedade que a realidade exige, é que a América Latina não enfrentará a indústria da cocaína sem retomar a erradicação forçada dos cultivos ilícitos de coca nos três países produtores: Colômbia, Peru e Bolívia.
A coca não é apenas uma planta. Nas zonas controladas pelo narcotráfico, ela é uma forma de soberania paralela. Onde a coca entra como economia dominante, o Estado sai como autoridade. Em seu lugar, aparecem grupos armados, cartéis, dissidências guerrilheiras, milícias locais, laboratórios, pistas clandestinas, corredores fluviais, portos capturados, redes de lavagem de dinheiro e políticos domesticados pelo medo ou pelo dinheiro.
O cultivo é o primeiro elo visível de uma cadeia que termina em homicídios, corrupção, contaminação ambiental, colapso penitenciário e desintegração institucional
A Colômbia é o exemplo mais claro. Sob Gustavo Petro, o país chegou aos maiores níveis históricos de cultivo de coca e produção potencial de cocaína. Em 2023, a área cultivada alcançou 253 mil hectares, e a produção potencial subiu 53%, para cerca de 2.664 toneladas, segundo dados da UNODC reportados pela Reuters. Em 2024, a cifra de produção potencial passou a ser objeto de disputa política, mas o número revelado pelo El País (3.001 toneladas) mostra a dimensão do problema, mesmo que a metodologia seja contestada. O essencial não muda: a Colômbia produz cocaína em escala industrial e já não consegue esconder o fracasso de uma política que substituiu a coerção estatal por esperança retórica.
Esse fracasso não fica dentro das fronteiras colombianas. A violência que quase implodiu o Equador não nasceu no vácuo. O país não é grande produtor de coca, mas tornou-se plataforma logística, portuária e financeira de uma cadeia abastecida pela produção andina.
Em 2025, o Equador registrou 9.216 homicídios, segundo dados citados em análise regional; em 2024, apreendeu 278 toneladas de drogas. A equação é simples: quando a produção explode na Colômbia, a disputa por rotas, portos, prisões e estruturas de corrupção se espalha. A cocaína exporta violência antes mesmo de ser exportada como droga.
A Bolívia, por sua vez, tornou-se o teste imediato da coragem política. Rodrigo Paz herdou um país economicamente quebrado, socialmente tensionado e politicamente cercado por estruturas cocaleiras que, por quase duas décadas, foram tratadas como base social de poder. Seu governo reabriu a porta para a cooperação com a DEA depois de quase 18 anos, mas isso não basta.
A ONU informou que a Bolívia chegou a aproximadamente 34 mil hectares de coca em 2024, alta de 10% sobre o ano anterior. O país reconhece usos tradicionais da folha, e eles devem ser respeitados. Mas a tradição não pode servir de escudo para o excedente destinado ao mercado ilegal. O Chapare, reduto de Evo Morales, não pode continuar sendo tratado como um santuário político intocável.
No Peru, a situação é menos ruidosa, mas igualmente estratégica. O país reportou 89.755 hectares de coca em 2024, uma queda em relação a 2023, segundo as Nações Unidas. A redução é relevante, mas insuficiente diante da escala do problema e da capacidade das redes criminosas de migrar, replantar e ocupar áreas remotas, especialmente quando encontram fronteiras frágeis, economias ilegais complementares e pouca presença permanente do Estado. O Peru vive em crise política constante, e a instabilidade é exatamente o ambiente em que o crime organizado aprende a operar melhor do que as instituições.
Por isso, um novo Plan Colombia não pode ser apenas colombiano. A eventual vitória de Abelardo de la Espriella abre uma oportunidade para reancorar Bogotá na cooperação estratégica com Washington e recuperar uma política de segurança baseada em resultados, não em slogans.
De la Espriella liderou o primeiro turno e prometeu uma linha dura contra o narcotráfico, incluindo a erradicação da coca e o bloqueio do fluxo de drogas para os Estados Unidos. Mas a oportunidade real não está em copiar mecanicamente o passado. Está em construir uma arquitetura andina de erradicação, interdição, controle territorial e desenvolvimento condicionado, exportável para a Bolívia e o Peru.
A nova estratégia precisa partir de uma verdade incômoda: substituição voluntária sem coerção vira subsídio indireto ao narcotráfico. Erradicação sem presença estatal vira replantio. Operação militar sem justiça vira espetáculo. Desenvolvimento alternativo sem segurança vira extorsão com assistência técnica. O que funcionou parcialmente no passado não foi uma medida isolada, mas a combinação de pressão estatal, inteligência, cooperação internacional, fortalecimento institucional e disputa real pelo território.
A América Latina não está diante de um problema agrícola. Está diante de uma disputa de soberania. Quem controla a coca controla a economia local, a segurança, o voto, o silêncio e a fronteira
Fingir que a erradicação é uma palavra impronunciável é aceitar que os cartéis decidam onde o Estado pode entrar. E, quando o Estado pede licença ao crime para governar, ele já deixou de governar.
O novo Plan Colombia deve nascer na Colômbia, mas não pode morrer ali. Ele precisa ser andino, regional e hemisférico. A cocaína é produzida em três países, refinada por redes transnacionais, escoada por portos capturados, financiada por lavagem global e consumida em mercados ricos. A resposta também precisa ser transnacional. Sem erradicação, todo o resto será contenção de danos. Com erradicação, segurança e desenvolvimento juntos, ainda há chance de interromper a cadeia na origem.





