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O Banco Master comprou meio mundo no Brasil. Do jagunço, com salário mensal de um milhão de reais para fazer o que jagunço sabe fazer, às mais altas autoridades do país. Vou ser genérico aqui não por zelo, mas por precisão.
Quando um sistema inteiro se une para se blindar, a lista completa dos envolvidos nunca aparece com nitidez. Mas a complexidade e a desfaçatez da operação, tal como vêm sendo descritas, deixam uma coisa inequívoca: não é obra de um só homem, nem de meia dúzia.
As notícias desta semana mostram que o escândalo associado ao banco (ou seria bando?) dirigido por Daniel Vorcaro não cabe nas páginas de economia, nem nas de política, nem mesmo nas de polícia.
O que está em jogo, ao que tudo indica, é um esquema multidimensional que ultrapassa o crime financeiro, a corrupção política e a interface com estruturas do crime organizado. E o ponto mais grave é o seguinte: Vorcaro não é a doença. É o sintoma.
Nenhum ecossistema dessa natureza prospera se o Estado e suas instituições já não tiverem ruído ou estiverem perigosamente perto de desabar. Não é de hoje que os brasileiros acordam com “mais um caso de corrupção”. São tantos que ora se somam, ora se anulam, ora empurram os anteriores para o esquecimento. Mas a “máfia” que orbita este caso aponta para algo mais sombrio: um estágio pré-falimentar da institucionalidade brasileira.
Vamos, por ora, deixar de lado a fraude bilionária, as alegações de vínculos com redes de lavagem associadas ao PCC, os contratos opacos com familiares e figuras de altas cortes, os métodos heterodoxos de defesa, as histórias de orgias e supostos registros comprometores, as decisões judiciais excêntricas que deram tempo e proteção, o travamento de investigações, a amplitude ideológica do círculo de influência, os relatos sobre planos de intimidação de jornalistas de um lado e cooptação de jornalistas de outro. Vamos ignorar tudo isso não porque seja pequeno, mas porque, diante do essencial, torna-se quase secundário.
A pergunta central é outra: como alguém como Vorcaro surge e se converte no operador capaz de chefiar uma engrenagem dessa magnitude? Em que país o Brasil se transformou para que esse tipo de personagem não apenas exista, mas prospere com tamanha facilidade e eficiência? O que aconteceu com a percepção de risco, de vergonha, de limite, de decoro? Como políticos, juízes, altos funcionários e formadores de opinião passam a ver como normal o cochichar de Vorcaro ao seu pé do ouvido, voos em seus jatos privados, favores, jantares, patrocínios, afagos e, segundo versões picantes, até atravessar fronteiras de intimidade sexual?
E por que ninguém se incomoda com o “modo de operação” e a generosidade de certos sujeitos que aparecem, de repente, com o coração transbordando de amor, distribuindo vinhos caros, viagens, prêmios e presentes? A esquisitice não é um detalhe folclórico: é um indicador. Em ambientes saudáveis, esse tipo de comportamento acende alarmes. Em ambientes doentes, vira etiqueta social.
O ambiente de anomia que permitiu a ascensão de Vorcaro é o que deveria nos preocupar de verdade. Seu gangsterismo é subproduto da falta de filtros institucionais ou, no português popular, da absoluta falta de vergonha na cara de quem manda e de quem se alimenta nas bordas do poder. Mas também é consequência da erosão dos freios, do “compliance” nas instituições do Estado, em parte da imprensa e em empresas que preferem fingir que não veem para não perder acesso.
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Tendo a crer que o clima de “liberou geral” tem data de fundação: 9 de junho de 2019. Por quê? Porque naquele dia começou a divulgação do conjunto de mensagens que ficou conhecido como “Vaza Jato”
Um amontoado de material que, independentemente do debate jurídico, teve um efeito político concreto e devastador: serviu como pretexto para implodir investigações inteiras, incluindo casos robustamente documentados e, em alguns episódios, até confessados, com dinheiro devolvido e delações cheias de provas.
O objetivo imediato era tirar Luiz Inácio Lula da Silva da cadeia. Mas não foi só isso. Para produzir a justificativa política desse movimento, era preciso mais do que “recontar” narrativas: era preciso reconfigurar o ambiente operacional. Uma consequência foi o fim da ideia de responsabilização.
A partir dali, o recado ao sistema foi cruelmente simples: o crime pode ser relativizado; a punição pode ser reescrita; a vergonha na cara pode ser abolida.
O Brasil que emergiu das cinzas da Lava Jato se parece, cada vez mais, com um Estado mafioso em consolidação, onde a impunidade não é acidente, mas arquitetura, onde Carecas do INSS e Vorcaros são apenas alguns parasitas que foram detectados. Não são os únicos, os últimos nem os maiores.









