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Leonardo Coutinho

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Narrativa

Conservadorismo de fachada: Putin usa cristãos como arma

O “conservadorismo” de Putin é um verniz que serve para justificar autoritarismo. O objetivo, na verdade, é conservar poder, e capturar a direita para enfraquecê-la por dentro. (Foto: Sergei Ilnitsky/EFE/EPA)

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No mês que vem, a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia completará quatro anos. Como todo agressor dissimulado, Vladimir Putin jamais assumiu a guerra como aquilo que ela é: imperialismo armado. Primeiro, empacotou o ataque como “reação” à OTAN — um truque retórico no qual o invasor se descreve como cercado para justificar o cerco que ele próprio impõe.

Depois, fabricou a narrativa “antifascista”, chamando de nazista um governo eleito e um povo que apenas queria escolher seu próprio destino. E, quando essas versões começaram a saturar fora do círculo de sempre, veio a fase mais útil para Moscou: a guerra reembalada como luta existencial pelos “valores conservadores” contra a “ideologia woke”.

É aqui que a propaganda russa se torna mais eficaz. Ela encontrou, no ressentimento de parte da direita ocidental, a porta de entrada para transformar indignação moral em munição geopolítica.

O “conservadorismo” de Putin é um verniz que serve para justificar autoritarismo, messianismo e antiocidentalismo com ares de teologia política. O objetivo não é conservar a tradição; é conservar o poder. E, no caminho, capturar a direita democrática para enfraquecê-la por dentro.

A isca funciona porque oferece uma fantasia conveniente: um líder forte que diz em voz alta o que muitos gostariam de ouvir e culpa um inimigo externo por tudo. Nessa fantasia, a Ucrânia vira vilã, a OTAN vira agressora, e o Ocidente vira um projeto decadente que precisa ser “corrigido” contra a influência do globalismo.

O passo seguinte é ainda mais calculado e nocivo: a importação do velho antissemitismo em embalagem nova. Não faltam papagaios de Moscou para disseminar e amplificar, diante de plateias previamente seduzidas, a ideia de que Putin seria a antítese das “heresias” dos judeus. Ressuscitam a acusação medieval de deicídio, repetem caricaturas sobre ganância e conspiração e chegam ao absurdo de preferir radicais islâmicos por eles “respeitarem” a origem divina de Jesus.

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É uma inversão moral perfeita: o agressor vira guardião; aliados históricos viram inimigos ideológicos. E, para completar o pacote, o ódio é disseminado como instrumento de radicalização e divisão

Enquanto isso, no mundo real, Putin continua matando cristãos e destruindo seus templos. A UNESCO verificou danos a centenas de sítios culturais na Ucrânia, incluindo 153 locais religiosos.

Quando propagandistas acusam Israel de matar cristãos e bombardear uma igreja, ignoram que quem assopra essa mensagem em seus ouvidos está há quatro anos dizimando famílias cristãs, suas casas, comunidades e igrejas.

Putin não faz isso porque o alvo dele sejam os cristãos. Não há motivação religiosa alguma. Mata ucranianos porque simplesmente resistem ao seu domínio. Para Putin, a religião é também uma arma. E ele está estimulando uma nova cruzada, com notas de jihad, não para salvar o cristianismo ou o Ocidente. Seus objetivos são diametralmente distintos. Quanto mais radical e dividido, melhor.

O que está em disputa aqui não é uma briga sobre “woke” ou “anti-woke”. É uma operação de guerra informacional que usa símbolos religiosos para reorganizar lealdades políticas no Ocidente. Putin entendeu que não precisa convencer a todos; basta confundir o suficiente e dividir o bastante.

Quando conservadores passam a desconfiar mais de democracias imperfeitas do que de autocracias declaradas; quando a indignação seletiva escolhe um alvo conveniente e fecha os olhos para o agressor; quando se normaliza um antissemitismo disfarçado de zelo religioso, a direita deixa de ser oposição responsável e vira matéria-prima de uma estratégia de guerra.

Conservadorismo, no sentido clássico, é apego a instituições, limites ao poder e prudência diante de aventuras revolucionárias. O “conservadorismo putinesco” é o oposto: é a glorificação do Estado como fé, da força como moral, da mentira como método. Ele não quer salvar o Ocidente. Quer vê-lo brigando consigo mesmo, moralmente confuso e estrategicamente paralisado.

Quatro anos depois do início da invasão, a pergunta não é se a propaganda russa é absurda. Ela é. A pergunta é por que tanta gente, especialmente em setores que se orgulham de desconfiar de narrativas oficiais, escolheu acreditar justamente na narrativa de um regime construído sobre manipulação.

A conta chega depois em forma de fragmentação, cinismo e perda de bússola moral. E, nessa conta, quem paga primeiro serão os cristãos e conservadores que se deixam capturar pela própria indignação.

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