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O presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, foi recebido esta semana na Casa Branca pelo homólogo americano, Joe Biden
O presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, foi recebido esta semana na Casa Branca pelo homólogo americano, Joe Biden| Foto: EFE/EPA/CHRIS KLEPONIS / SIPA USA

Assim que chegou à capital dos Estados Unidos, o presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, debruçou-se no parapeito de uma das janelas do hotel no qual ficou hospedado para receber as vibrações positivas dos fãs da diáspora mexicana. Desde a calçada, eles mandavam saludos e bendiciones para o líder populista. AMLO desembarcou em Washington um mês depois de esnobar o presidente Joe Biden, negando-se a atender ao convite para Cúpula das Américas, em solidariedade às ditaduras de Cuba e Nicarágua que tiveram acesso vetado ao evento continental.

No dia seguinte, sentado ao lado de Biden, diante da lareira do Salão Oval da Casa Branca, AMLO, como é chamado, abusou daquele momento em que os dois presidentes trocam algumas palavras diante da imprensa. O mexicano falou por quase 30 minutos. Olhando para seu público dos dois lados da fronteira, de certa maneira, AMLO comportou-se como se continuasse trepado em uma sacada animando sua claque.

O presidente mexicano tripudiou sobre a crise energética americana dizendo que estava feliz e satisfeito em saber que o México estava ajudando os Estados Unidos, pois seu país se transformou em opção para os americanos que vivem perto da fronteira, que recorrem ao país vizinho para abastecer seus carros com combustível mais barato. “Enquanto você espera o preço da gasolina cair, nós permitimos que os americanos encham o tanque de carros no lado mexicano”, disse AMLO.

Um bananismo típico de quem se compraz em dizer para os americanos o quanto a vida abaixo do Rio Grande está melhor que nos Estados Unidos. Mas...

O teatro de AMLO ignora a tragédia que é o seu país – como fonte e como rota – no quesito tráfico de drogas e imigração ilegal. Atividades que caminham juntas e que são algumas das maiores fontes de instabilidade nos Estados Unidos. Seu trunfo é ainda mais patético se considerado o fato de que, se ele fechasse a fronteira para os americanos que buscam economizar um dólar por galão (3,78 litros) de gasolina, não mudaria drasticamente a vida de quem recorre ao combustível mexicano.

O México é um caso simbólico da tragédia latino-americana. O país é o segundo maior exportador para os Estados Unidos, perde apenas para a China. No ano passado, os americanos compraram do México US$ 388,4 bilhões. Para se ter uma ideia do tamanho da fortuna que os Estados Unidos transferem para a economia mexicana, em 2021 a soma de todas as exportações brasileiras, para todos os destinos somados, foi de US$ 280,4 bilhões.

Ou seja, o que faz os Estados Unidos serem os Estados Unidos e o México ser o México não é a posição em relação às suas fronteiras. O que define o que cada nação foi, o que é, e o que será é a atitude de quem vive nela. O dado do comércio exterior com os Estados Unidos é apenas um fator que mostra que os mexicanos padecem em um país subdesenvolvido e com parcelas enormes de seu território controladas por forças paraestatais e cartéis de tráfico, enquanto poderia ser um país desenvolvido.

Por outro lado, as levas de imigrantes com pouca ou nenhuma qualificação profissional que chegam à fronteira (importante ressaltar aqui que não só os mexicanos, mas também imigrantes dos demais países centro-americanos) arriscam a vida na mão de traficantes e coiotes para chegar aos Estados Unidos e quase sempre reproduzir ao máximo possível a vida que eles tanto quiseram abandonar. Vá entender.

Enrolada pela sua política ambiental irresponsável e pela redução da oferta de petróleo em decorrência da invasão russa à Ucrânia, a administração Biden está topando toda e qualquer estripulia em troca de alguns barris. Deu palanque para as bobagens de AMLO, trocou afagos com os sauditas que Biden, durante a campanha de 2020, havia prometido punir pelo assassinato de Jamal Khashoggi e afrouxou as pressões no regime de Nicolás Maduro.

Os Estados Unidos estão esquisitos. O país está enrolado em meio às agendas mais estúpidas e vem torrando dinheiro e relevância para agir com fofura em nome dos apelos de políticos e ativistas mimados recém-saídos da quinta série. Mas achar que o simples fato de que alguns gatos pingados vão ao México encher o tanque de seus carros é um bom motivo para mostrar ao mundo mais uma evidência irrefutável do declínio do “império” é coisa de fanfarrão. AMLO é um deles. E ele não está só.

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