
Ouça este conteúdo
Chamar o que está acontecendo no Irã de “uma guerra que está se tornando longa” é um erro de conceito. O conflito atual não nasceu agora. O que existe é uma guerra de 47 anos, iniciada em 1979, quando a Revolução Islâmica transformou a confrontação contra os Estados Unidos, Israel e a ordem ocidental em política de Estado.
A tomada da embaixada americana em Teerã e os 444 dias de sequestro de diplomatas não foram um excesso de juventude revolucionária. Foi a inauguração de um regime que escolheu a hostilidade permanente como instrumento de poder.
O Ocidente, porém, insiste em cometer o mesmo erro, que é tratar como sendo guerra apenas o momento em que mísseis cruzam o céu e bombas atingem alvos visíveis. Guerras de longo curso não se manifestam apenas por divisões blindadas, invasões convencionais ou bombardeiros, como vemos agora.
Muitas vezes, elas se apresentam por meio de terrorismo, sabotagem, chantagem nuclear, milícias terceirizadas, operações de inteligência e redes clandestinas de financiamento e logística. No caso iraniano, essa sempre foi a lógica.
O regime não alterna entre paz e guerra. Ele alterna entre formas diferentes de conduzir a mesma guerra
Essa é, em essência, a chave interpretativa para entender o que está acontecendo agora. É por isso que a pergunta correta não é se houve escalada nas últimas semanas. Claro que houve. A pergunta é: escalada dentro de quê? E a resposta é simples: dentro de um conflito contínuo que o Ocidente, por conveniência ou covardia, muitas vezes fingiu não enxergar.
O Irã construiu, ao longo de décadas, um modelo de projeção de poder relativamente barato, resiliente e difícil de desmontar por completo: Hezbollah no Líbano, houthis no Iêmen, células e operadores em diferentes continentes (inclusive no Brasil), além da simbiose entre aparato estatal, Guarda Revolucionária, crime, contrabando e ideologia.
Não se trata apenas de influência regional. Trata-se de uma arquitetura internacional de guerra assimétrica. Por isso, quando se fala em “evitar a guerra”, muitas vezes o que se quer dizer, na prática, é permitir que essa guerra continue existindo em sua forma mais conveniente para Teerã: invisível para o grande público, fragmentada o suficiente para não gerar resposta decisiva e letal o bastante para corroer adversários com baixo custo político.
A América Latina conhece bem essa dinâmica. Os atentados contra a embaixada de Israel em Buenos Aires, em 1992, e contra a AMIA, em 1994, mostraram há muito tempo que a guerra iraniana não respeita geografia. Em 2024, a mais alta corte criminal da Argentina voltou a responsabilizar o Irã pelo atentado contra a AMIA, executado pelo Hezbollah dentro de um desenho estratégico iraniano.
VEJA TAMBÉM:
Ataque global
Na semana passada, o governo argentino designou a Guarda Revolucionária Islâmica como organização terrorista, reforçando uma leitura que, em boa parte da região, ainda é tratada com a conveniência de que “o melhor é não mexer”.
Os iranianos já lideram ataques contra a embaixada americana em Beirute e contra instalações militares americanas e já tentaram superar o impacto que Osama Bin Laden causou com sua onda de atentados de 11 de setembro de 2001. Como o atentado não deu certo, pouca gente se lembra. Mas o Irã liderou um complô para atacar a infraestrutura de combustível do aeroporto JFK, que tinha o potencial de alastrar explosões por toda a região em um efeito em cadeia brutal.
O plano, desmantelado pelas autoridades americanas, mostrou que a guerra iraniana não se limitava a ameaças retóricas nem a palcos distantes. O caso revelou algo mais importante do que o atentado em si: a disposição de operar por meio de redes remotas, agentes periféricos e estruturas difíceis de rastrear politicamente.
Os terroristas eram da Guiana e tinham vínculos com as comunidades xiitas da Venezuela e do Brasil, mais especificamente de um centro islâmico localizado em São Paulo.
Esse é o ponto que muita gente ainda se recusa a entender. O regime iraniano prefere a guerra em camadas, na penumbra, porque ela lhe permite manter a negação, confundir democracias e explorar a fadiga e a vulnerabilidade do Ocidente, que gasta tempo brigando em torno de temas laterais e perde o foco no essencial, transformando tudo em briguinha política.
Quando o presidente Donald Trump age, então parte da esquerda passa a chamar a contenção de aventura imperial, e parte da direita, manobrada por Moscou, faz beicinho dizendo que Trump está a serviço do lobby judaico.
Se Israel entra em cena, setores da direita e da esquerda transformam o agressor em vítima e a resposta em causa do conflito. O inimigo deixa de ser um regime revolucionário que há quase meio século usa terror, proxies e coerção estratégica.
Nesse mundo polarizado e de lógica invertida, são os ocidentais que são vistos como agressores e geradores de instabilidade. Essa distorção vai da esquerda antiamericana a segmentos da direita
Em vez de se discutir como encerrar ou reduzir uma guerra longa imposta pelo Irã, discute-se como deslegitimar quem reage a ela. Em vez de compreender que a dissuasão é condição da paz, vende-se a ideia de que toda demonstração de força é automaticamente belicista. Não é. Em alguns momentos, a força não inaugura a guerra; ela tenta impedir que a guerra siga sendo travada apenas nas condições do agressor.









