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Há exatos 23 anos, em 5 de fevereiro de 2003, um erro de grande magnitude foi cometido diante das câmeras do mundo. Naquele dia, o então secretário de Estado dos Estados Unidos, Colin Powell, apresentou ao Conselho de Segurança da ONU um conjunto de informações que alegadamente provariam a existência de armas de destruição em massa no Iraque. Aquelas informações eram falsas.
O discurso não foi um acidente isolado. Foi o ponto culminante de uma cadeia de decisões políticas, falhas de inteligência e manipulações. O resultado foi a invasão do Iraque no mês seguinte, dando origem a uma guerra com consequências dramáticas.
Para os Estados Unidos, o custo foi brutal: trilhões de dólares gastos ao longo de duas décadas; milhares de americanos mortos em combate; dezenas de milhares de veteranos feridos física e psicologicamente; um desgaste estratégico que afetou a credibilidade americana por anos.
Para o Oriente Médio, as consequências foram ainda mais profundas. O desmonte do regime de Saddam Hussein e do Estado iraquiano abriu espaço para conflitos sectários de alta intensidade, fragmentou o equilíbrio interno do país e criou o ambiente ideal para a emergência de atores jihadistas.
O Estado Islâmico é um subproduto direto do colapso institucional provocado pela guerra. A seguir, a instabilidade transbordou para a Síria, alimentando uma guerra civil que se tornaria um dos conflitos mais sangrentos do século XXI.
Nesse cenário de caos, a Rússia avançou. Moscou consolidou sua posição como fiadora do regime de Bashar al-Assad, vendeu armas, garantiu bases militares estratégicas e ampliou sua influência regional. O Hezbollah fortaleceu-se.
O Irã expandiu seus tentáculos. O balanço geopolítico final foi desastroso para a ordem que Washington pretendia proteger, mas usou o método errado. Nada disso era inevitável.
Tudo foi consequência de decisões tomadas com base em informações falsas, leituras ideológicas e uma confiança excessiva na guerra como instrumento de reorganização política
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Anos depois, Powell se desculpou e atribuiu a “mancha em sua biografia” a um conjunto de erros. Mas isso não impede que gente mal-intencionada use a memória do “potinho de areia de Powell”, com as “provas” das armas químicas, para tentar esconder seus malfeitos. É precisamente por esse mau uso que o Iraque deve ser relembrado como espantalho para qualquer debate contemporâneo sobre intervenções.
A história não funciona por fotocópia. Contextos importam. Regiões importam. Estruturas sociais, militares e políticas importam. Religiões importam. Comparar automaticamente o Iraque com a América Latina, por exemplo, é intelectualmente preguiçoso e estrategicamente inútil.
Bonecos de ventríloquo do chavismo repetem o mantra de que o Cartel dos Sois e o Trem de Arágua são o “potinho de areia” da administração Trump para intervir na Venezuela.
Por falar na ação que levou à extração e prisão de Nicolás Maduro, a lição relevante que o Iraque deixa é que a Casa Branca, sob o presidente Donald Trump, entendeu que guerra não é a única forma de ação e que o uso correto da força pode ser muito mais eficiente.
A noção de “cálculo” não é uma abstração: ela se impõe exatamente hoje, quando os Estados Unidos estão novamente envolvidos em negociações com o Irã sobre o seu programa nuclear. Teerã tenta, como sempre, ressuscitar a imagem de Colin Powell na ONU para sustentar a tese de que seria vítima de mentiras. Um escudo forte, mas que não funciona para o presidente Trump.
A atual administração não quer guerra ou invasão. Essa nova doutrina também não significa que a Casa Branca vai assistir calada à consolidação de uma ameaça estratégica sob o pretexto de que, uma vez, Washington errou. O presidente Trump já mostrou isso várias vezes. A prisão de Maduro é apenas o exemplo mais recente.
Assim como o colombiano Gustavo Petro entendeu isso e deu um cavalo de pau na sua postura de desafio constante aos Estados Unidos, o regime iraniano se vê diante de uma situação limite.
Nesse sentido, a doutrina estratégica adotada por Donald Trump representa uma ruptura consciente com os erros do passado recente. Evitar guerras abertas não significou apatia, isolamento ou abdicação de poder. Significou uso seletivo, calibrado e frio da força, combinando pressão econômica, diplomática e militar como instrumentos de coerção.
O caso da Venezuela é exemplar. Depois de anos de complacência de diferentes governos americanos diante da consolidação de um regime criminalizado, Trump rompeu com a inércia. Fez do poder militar uma ameaça crível, não um espetáculo; uma ferramenta de pressão estratégica, não de engenharia social. O objetivo nunca foi repetir o Iraque — e nunca poderia ser. O objetivo foi dissuadir, isolar e conter, preservando vidas e evitando um conflito.
Vinte e três anos depois, a verdadeira pergunta não é se o Iraque foi um erro. Isso já está respondido. A pergunta é que tipo de aprendizado aquele evento nos proporcionou. A boa notícia é que a atual administração demonstra que sim.





