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Leonardo Coutinho

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Narrativa

Quando a coisa aperta, os aiatolás se fantasiam de persas

O regime iraniano usa a ideia de “civilização” para mascarar sua natureza teocrática e vender críticas como ataques à história persa. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

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Toda vez que o regime iraniano se vê acuado, ele recorre a um expediente antigo e eficaz: deixa de falar como ditadura revolucionária e passa a falar como “civilização”. Não é por acaso. A palavra serve para confundir o observador estrangeiro e sugerir que qualquer pressão militar, econômica ou diplomática contra a República Islâmica seria, na verdade, um ataque contra milênios de história. A própria retórica oficial do sistema fala abertamente na construção de uma “nova civilização islâmica”, enquanto autoridades do regime também mobilizam, quando convém, a linguagem da “civilização persa”.

O Irã de hoje não é a continuação política da Pérsia antiga. Muito pelo contrário: é a mais pura negação de uma história longínqua e intencionalmente empoeirada. O Irã é uma teocracia surgida da Revolução de 1979, organizado a partir de uma doutrina islâmica xiita e sob o velayat-e faqih, a tutela do jurista islâmico. O líder supremo, como eles gostam de chamar por lá. Em termos simples: a legitimidade do regime não vem de Ciro, de Dario, de Persépolis ou da memória imperial persa, que não passa de ruínas e peças de museu.

O Irã atual é um produto da interpretação de seu fundador, o extremista Ruhollah Khomeini, segundo a qual o governo justo deve ser supervisionado por um clérigo xiita investido de autoridade superior. Essa não é uma restauração da Pérsia. É uma ruptura revolucionária que instrumentaliza a história iraniana para blindar um projeto ideológico contemporâneo.

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A própria Constituição da República Islâmica elimina a dúvida. Seu preâmbulo diz refletir as aspirações da “Ummah”, a nação islâmica sob o comando de um clérigo.

A diferença é mais profunda do que um detalhe institucional. A Pérsia antiga foi um império, não uma república teocrática revolucionária. O império Aquemênida, fundado uns 550 anos antes de Cristo e destroçado uns 330 anos antes de Cristo, era apenas ruínas quando os muçulmanos conquistaram o que hoje é o Irã, no século 7 depois de Cristo. Ou seja, não se trata apenas de uma questão temporal, mas de quebra de lógicas administrativas, religiosas e civilizacionais. Vínculos históricos por meio da língua e de parte do território não superam as transformações de séculos e a profunda islamização. Reduzir o Irã de hoje à ideia de que a República Islâmica é uma “Pérsia com turbante” é propaganda.

O regime dos aiatolás sabe disso. Por isso, alterna duas máscaras. Para dentro e para sua base ideológica, fala na revolução, no martírio, na resistência, na unidade islâmica e na construção de uma nova civilização islâmica. Para fora, sobretudo quando busca legitimidade cultural ou tenta despertar simpatia automática no Ocidente, reapresenta-se como herdeiro da alta civilização persa. É uma operação de camuflagem. Quando convém, Teerã é Karbala. Quando convém, é Persépolis.

É por isso que a propaganda do regime tenta transformar qualquer confronto com a República Islâmica em suposta guerra contra uma civilização milenar. Não é. Ninguém bombardeia o passado aquemênida ao confrontar uma máquina de poder criada em 1979. Ninguém ameaça Ciro ao sancionar o IRGC.

Ninguém atinge a memória persa ao expor a natureza expansionista de um regime que a própria Constituição orienta para a solidariedade política do mundo islâmico e para a centralidade do jurista-rei. Confundir essas camadas é precisamente o que Teerã deseja: esconder um projeto revolucionário contemporâneo atrás da grandiosidade de um passado que ele próprio nunca quis restaurar integralmente.

Nesse contexto, também convém entender corretamente a frase do presidente Donald Trump. Nesta semana, ele escreveu em suas redes sociais: “uma civilização inteira morrerá” se não houvesse acordo.

A frase veio acompanhada, segundo denúncias públicas da Anistia Internacional, de ameaças explícitas de “demolição completa” de usinas e pontes iranianas.

Portanto, quando Trump falava em destruir uma “civilização”, ele não estava falando da civilização persa como legado histórico, literário e arqueológico. Falava, brutalmente, da infraestrutura material que sustenta a vida moderna de um país: energia, mobilidade, logística, produção. Em termos práticos, falava em empurrar o Irã para uma espécie de Idade da Pedra. Não de genocídio.

A postagem do presidente Trump serviu como luva para o regime retomar a narrativa da herança persa. Por isso, a clareza importa em tempos de guerra. O regime iraniano quer que o mundo acredite que ele é a própria Pérsia. Essa narrativa ganhou força.

A Pérsia pertence à história longa do povo iraniano. A República Islâmica pertence à história recente de uma revolução clerical que sequestrou símbolos nacionais para proteger um projeto de poder. Misturar as duas coisas é aceitar a propaganda de Teerã exatamente nos termos que ela deseja. E, em geopolítica, aceitar o vocabulário do adversário costuma ser o primeiro passo para perder o entendimento da realidade.

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