Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Leonardo Coutinho

Leonardo Coutinho

Brasil, América Latina, mundo (não necessariamente nesta ordem)

Certificação da OMS

Quando a diplomacia sanitária tropeça nos números

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, recebe certificado de eliminação da transmissão vertical do HIV como problema de saúde pública. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Ouça este conteúdo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ganhou um presentão de fim de ano. A Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou a certificação do Brasil pela eliminação da transmissão vertical do HIV. Traduzindo: no Brasil, gestantes soropositivas não mais transmitem o vírus da aids para seus filhos no parto.

“Eliminar a transmissão do HIV de mãe para filho é uma grande conquista em saúde pública para qualquer país, especialmente para um país tão grande e complexo quanto o Brasil”, disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS e amigão do presidente Lula.

Para alcançar esse feito admirável, os países certificados precisam reduzir a transmissão vertical do HIV para menos de 2% e oferecer cobertura de pré-natal a 95% das mães soropositivas, com testes rotineiros de HIV e tratamento para conter a contaminação. Segundo o comunicado da OMS, o Brasil atendeu aos requisitos. Mas só que não. Pelo menos é o que dizem os números mais recentes do Ministério da Saúde, divulgados agorinha, em dezembro de 2025.

A declaração da OMS não tem amparo nos dados do Boletim Epidemiológico HIV e Aids de 2025. O documento do Ministério da Saúde demonstra que o Brasil avançou muito (o que é ótimo), mas ainda falta para chegar ao Olimpo da erradicação da transmissão do vírus HIV de mãe para filho. O pré-natal, entre gestantes com HIV, é alto. Em 2024, o dado mais recente fala em 92,2%. Ótimo, mas não é 95%.

Mas isso ainda não é o mais crítico. A contradição central não está no pré-natal. Está no coração do processo: o tratamento antirretroviral. Em 2024, o uso dessas terapias foi relatado em apenas 72,4% dos casos no sistema nacional — e o próprio Boletim faz questão de lembrar que a meta necessária para certificação é cobertura igual ou superior a 95%. Para gestantes portadoras de HIV, não basta fazer pré-natal. É preciso receber os coquetéis de drogas para reduzir a carga viral e evitar a transmissão.

Aqui não há retórica que salve. Se a régua da OMS é 95%, os 72,4% estão bem longe do mínimo. Seria muito útil a OMS e o Ministério da Saúde explicarem o milagre brasileiro. Saber como o Brasil passou de uma situação ruim para modelo em apenas um estalar de dedos é mais relevante do que a certificação.

A coisa vai piorando. Como estamos falando do Brasil, estamos falando também de subregistro. Em 2024, 32,8% dos casos aparecem com o tipo de parto “ignorado” ou em branco.

A profilaxia do recém-nascido, que deve começar nas primeiras horas, ainda falha: há casos em que começa mais tarde, por falta de diagnóstico, e em alguns casos apenas anos depois. E, como se não bastasse, mais de um terço dos registros dessa variável está como “não informado/ignorado”. Quando a base tem buracos desse tamanho, só o amor justifica a certificação de um quadro tão precário.

Como sempre, pode piorar. O documento do Ministério da Saúde registra que 6% das gestantes com HIV só foram diagnosticadas durante ou após o parto. Ou seja: mesmo que tudo estivesse funcionando bem, um percentual significativo de mães soropositivas sequer sabia que estava infectado durante a gravidez e o parto. Essa falha, por si só, já não permitiria que o Brasil fosse certificado. É matemática básica.

O Boletim Epidemiológico aponta discrepâncias entre o número de gestantes notificadas e o número de crianças expostas notificadas, com estados exibindo razões muito acima ou abaixo do esperado. Isso sugere subnotificação, atraso de registro e falhas na vinculação do binômio mãe-filho. O dr. Tedros Adhanom e a OMS que me desculpem, mas a certificação parece um presente de Natal para Lula.

Diante desse quadro, a pergunta inevitável não é se o Brasil avançou. É evidente que avançou muito, e isso tem de ser festejado.

VEJA TAMBÉM:

A pergunta é de outra natureza: que diabos a OMS está certificando, se os dados do próprio governo brasileiro, que são a base de referência, mostram um quadro que não atende aos requisitos?

Em nome da boa-fé, vou presumir que a OMS esteja mais atualizada que o próprio Ministério da Saúde ou, quem sabe, tenha se confundido.

O presidente Lula e o diretor-geral da OMS construíram um nível de amizade que permite ao brasileiro intimidades como chegar sorrateiro por trás de Adhanom, tapar-lhe os olhos e esperar que ele adivinhe quem é. Fofo. Mas isso não pode deixar margem para suspeitas em torno de estatísticas vitais.

Feliz 2026.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.