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Os números divulgados recentemente pelo CDC, instituição americana que estuda e controla casos de doenças e estatísticas de mortes nos Estados Unidos, trouxeram uma notícia que deveria estar estampada no lugar de todas as polêmicas laterais do primeiro ano deste segundo mandato de Donald Trump.
As mortes por overdose caíram de forma consistente por dois anos consecutivos. Não se trata de um soluço estatístico, mas de uma inflexão real. Depois de atingir um pico histórico em torno de 114 mil mortes anuais no ciclo encerrado em 2023, o número de overdoses caiu para cerca de 87 mil em 2024 e agora para aproximadamente 73 mil no período encerrado em meados de 2025. Nada menos que 41 mil vidas foram salvas nos Estados Unidos.
Para se ter ideia da dimensão desse feito, 58.220 americanos morreram em oito anos de guerra no Vietnã. Considerando uma média anual de 7.278 mortes por ano naquele conflito, pode-se dizer que, mesmo nesse cenário positivo, o número de vítimas fatais do narcotráfico ainda é trágico. Morrem dez vezes mais por ano por overdose do que morriam americanos nesse conflito.
A queda começou no governo Biden mais como uma tentativa de sobrevivência eleitoral do que como política pública consistente. Depois de transformar a fronteira em uma porteira aberta, Biden se viu diante dos números mais trágicos da história dos Estados Unidos. O país estava tomado por traficantes que enviavam soldados pela fronteira disfarçados de pobres imigrantes.
O caso mais célebre é o da gangue Tren de Arágua, da Venezuela. Durante seu mandato, a fronteira foi tratada de forma errática, com sinais contraditórios e uma tentativa desastrada de terceirizar o problema para a vice-presidente Kamala Harris, sob o rótulo vago das “causas estruturais” da migração. Na prática, isso significou anos de apatia operacional e a consolidação de uma percepção pública de descontrole.
O então candidato Donald Trump prometeu arrumar a lambança dos democratas, com políticas de fechamento de fronteira e deportações de criminosos e imigrantes ilegais. Foi apenas diante dessa mensagem que, em 2024, um ano eleitoral, com a imigração se tornando um dos temas mais tóxicos para a Casa Branca, Biden resolveu agir. Deu uma ordem executiva restringindo o asilo, trocou seus assessores para a América Latina e passou a tentar mitigar o estrago.
Mesmo fora do governo, Trump forçou Biden a se mover. Indiretamente, então, pode-se dizer que foi por ele que os números começaram a cair. Muita gente tenta desviar o assunto, dizendo que a curva já mostrava a tendência. Mas, se não fosse o medo de perder a eleição (o que acabou ocorrendo), os democratas muito provavelmente teriam seguido com sua política de populismo migratório.
Se assumirmos que Biden só endureceu quando percebeu o custo eleitoral da inação, podemos dizer que Trump pode, sim, celebrar uma influência indireta — e talvez a mais incômoda para seus adversários —, que foi ter empurrado o governo democrata a agir onde não queria.
Trump herdou uma curva em queda e a manteve, e a tendência é que milhares de novas vidas sigam sendo poupadas
É aqui que entra a Venezuela. Um cerco inédito e efetivo ao regime venezuelano estrangulou as organizações criminosas, que viram as rotas para os Estados Unidos serem interrompidas. As imagens de lanchas lotadas de cocaína voando pelos ares depois de serem atingidas pelas forças militares dos Estados Unidos tiveram seu ápice com a prisão de Nicolás Maduro.
O esforço de fazer uma transição na Venezuela terá um impacto direto no envio de drogas para os Estados Unidos, que cairá drasticamente. A missão agora é manter isso, considerando que o crime organizado já está trabalhando para redesenhar suas redes logísticas. Mas esse é o desafio que o presidente Trump tem para 2026. Goste dele ou não. Goste de seus métodos ou não, há como não comemorar que 41 mil vidas foram salvas?





