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Leonardo Coutinho

Leonardo Coutinho

Brasil, América Latina, mundo (não necessariamente nesta ordem)

Investigação sobre Banco Master e o PCC

Vorcaro, o homem-bomba

Daniel Vorcaro
Se investigações ligarem o Banco Master ao PCC e os EUA classificarem a facção como terrorista, o caso deixa de ser escândalo local e vira risco jurídico e financeiro global. (Foto: SAP-SP/EFE)

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Se a evolução das investigações confirmar que o Banco Master mantinha algum vínculo com o PCC, como sugerem algumas das evidências que vieram à tona, o caso – que tecnicamente já tem jurisdição nos Estados Unidos por ter tocado o sistema financeiro americano – pode adquirir um componente ainda mais grave.

Não seria mais apenas um escândalo bancário brasileiro com ramificações internacionais. Passaria a ser um problema de segurança jurídica e financeira para qualquer um que tenha orbitado, facilitado ou lavado dinheiro para uma das organizações que Washington considera candidatas reais à designação terrorista.

Isso não é figura de linguagem. Em maio de 2025, o governo americano pediu formalmente ao Brasil que classificasse o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, argumentando que ambas as facções já operam em território americano, movimentam lavagem de dinheiro, traficam armas e possuem células em diversos países. O Brasil recusou. Mas a recusa brasileira não elimina, nem suspende, nem condiciona a liberdade soberana dos Estados Unidos de fazerem a sua própria designação.

É aí que entra em cena a histeria brasileira, sempre provinciana e sempre teatral. Muita gente resolveu vender ao público a fantasia de que uma eventual designação do PCC e do CV seria o ponto de partida para uma invasão, bombardeios ou uma licença para os americanos atropelarem a soberania nacional. Nada disso. Essa leitura é infantil.

Designação terrorista, no direito americano, é, antes de tudo, um instrumento de estrangulamento financeiro, de ampliação de jurisdição, de criminalização de suporte material, de bloqueio patrimonial, de restrição migratória e de elevação brutal de risco para qualquer elo da cadeia.

Não se trata, por definição, de desembarque de fuzileiros em Santos nem de míssil sobre favelas. Trata-se de lei, banco, visto, compliance, cooperação internacional e congelamento de ativos

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O Brasil é soberano para não designar. Os Estados Unidos são soberanos para designar quem bem entenderem, segundo a sua legislação. É só isso. Não existe aqui dilema metafísico, tese de doutorado ou manifesto anti-imperialista que altere esse fato elementar.

Se Washington decidir listar o PCC e o Comando Vermelho, vai listar. E ponto final. Não adianta espernear em programa de televisão ao vivo, escrever editorial indignado, convocar juristas ou cientistas sociais para ensinar como se deve combater o crime. Isso tudo pode render audiência, clique e palanque. Mas não muda uma vírgula da capacidade soberana americana de agir dentro do seu próprio ordenamento. E não serviu para nada para conter o avanço do PCC e do CV.

O que muda, e muda muito, é a situação de quem eventualmente tenha prestado serviço para essas organizações. É por isso que, nesse contexto, o homem-bomba dessa história talvez não seja Marcola. Pode ser Vorcaro.

Faço uma ressalva relevante: isso depende do que as investigações ainda vão provar e do que a Justiça vai julgar. Mas, se ficar demonstrado que houve prestação de serviços financeiros, facilitação de operações, intermediação de fluxos, ocultação de beneficiários, construção de mecanismos de blindagem patrimonial ou qualquer outro tipo de suporte a estruturas ligadas ao PCC, ainda que involuntariamente, e se o PCC vier a ser designado pelos Estados Unidos como organização terrorista estrangeira, o centro de gravidade do problema muda de lugar. E esse mundo não funciona como o debate público brasileiro imagina. Sai da periferia criminal clássica. Entra no mundo das sanções, do terrorismo e da persecução transnacional.

Quem tem patrimônio, negócios, planos de viagem, residência, investimentos ou ambições nos Estados Unidos sabe muito bem o que uma etiqueta terrorista pode fazer quando ela encosta na ponta de uma investigação financeira. O dano é brutal. Por isso, talvez, tanto barulho sobre “soberania”.

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