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Lorenzo Carrasco

Lorenzo Carrasco

Crise energética

A “descoberta” britânica: sistemas de baterias podem sobrecarregar a rede elétrica

A experiência britânica mostra que subordinar a segurança energética ao net zero pode elevar custos, fragilizar a rede e criar novos riscos. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

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Até há não muito tempo, o planejamento de um sistema elétrico nacional se baseava fundamentalmente em critérios técnicos e econômicos, que incluíam o aproveitamento ótimo dos recursos do país e a projeção da expansão do sistema para estar sempre à frente do crescimento da economia, com o menor custo possível.

No Brasil, isso resultou na construção de um sistema majoritariamente de base hidrelétrica, que aproveitava ao máximo as diferenças hidrológicas entre as grandes bacias hidrográficas do país, apoiado por uma pequena fração de termelétricas e, em menor escala, de usinas nucleares.

O Reino Unido, com menor potencial hidrelétrico, optou pelas termelétricas a carvão e a gás natural e pela energia nuclear.

Então, vieram a “globalização” e a agenda do catastrofismo climático, com sua histérica obsessão pela redução das emissões de carbono provenientes do uso de petróleo, gás natural e carvão mineral, que resultou na irreal meta do “carbono zero líquido” (net zero) e em sua pretensão de neutralizar as emissões de carbono de origem humana até meados do século. Assim, os critérios técnicos e econômicos passaram a subordinar-se ao net zero e aos instrumentos financeiros a ele vinculados, principalmente aos vastos subsídios concedidos à implementação de fontes energéticas consideradas “limpas”, em especial, eólicas e solares.

Deixou-se de lado o detalhe técnico de que a intermitência intrínseca de tais fontes, que só geram energia quando há vento ou luz solar, não as qualifica para a operação nas redes elétricas de base (de geração contínua), atendidas por usinas termelétricas, hidrelétricas e nucleares. Para “corrigir” o problema, foram precisas novas e extensas linhas de transmissão, complexos e custosos sistemas para injetar a eletricidade de corrente contínua de aerogeradores e centrais solares nas linhas de corrente alternada predominantes, geração de base adicional para atuar como “backup” e, recentemente, sistemas de baterias para armazenar a eletricidade das eólicas e solares.

Por ironia, o Reino Unido, de onde proveio grande parte desse impulso contrário ao avanço tecnológico e ao bom senso econômico, está descobrindo as desvantagens de contrariá-los

Tendo descontinuado as suas termelétricas a carvão, seu recurso natural mais abundante, os britânicos investiram fortemente nas eólicas, que hoje proporcionam entre 30% e 32% da sua geração elétrica total e, para reforçá-las, estão instalando redes de baterias de armazenamento (chamadas BESS – Battery Energy Storage System).

O problema, como acaba de apontar o Operador Nacional do Sistema Energético (NESO, sigla em inglês), órgão equivalente ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) brasileiro, é que a expansão dos sistemas de baterias implica um alto risco de sobrecarregar as redes de transmissão.

Vejamos o que diz a respeito o jornal The Telegraph (26/07/2026):

“As milhares de baterias que estão sendo implantadas para estabilizar as redes elétricas da Grã-Bretanha podem causar um colapso na rede, alertaram especialistas do governo.

“Os ministros foram alertados sobre o risco de um colapso se todas as operadoras tentarem carregar suas baterias ao mesmo tempo para evitar uma escassez de energia.

“Um relatório do chamado Painel de Especialistas Técnicos, entregue a Miatta Fahnbulleh, a nova secretária de Energia, afirmou: ‘É preciso refletir sobre como os sistemas de armazenamento de energia em baterias provavelmente se comportarão em uma situação de aviso de mercado de capacidade [no Brasil, Aviso de Alerta Operativo ou Declaração de Estresse do Sistema – LC], já que as operadoras podem ter um incentivo para carregar antecipadamente para cumprir suas obrigações. Isso pode resultar em uma rápida entrada em um evento de estresse.’

“Um aviso de mercado de capacidade é um alerta crítico emitido pelo Operador Nacional do Sistema Energético (NESO) quando detecta uma iminente escassez de eletricidade causada, por exemplo, por ventos fracos.

“Historicamente, esses avisos têm sido usados para alertar as usinas termelétricas a gás, que são pagas para estarem em prontidão para tais eventos, a se prepararem para o aquecimento e a entrada em operação. No entanto, as empresas de baterias começaram recentemente a entrar nesse mesmo mercado, já que a transição da geração estável a partir de combustíveis fósseis torna mais difícil equilibrar a rede. Essas baterias precisam estar totalmente carregadas para funcionar de forma eficaz.

“Os especialistas expressaram preocupação de que as operadoras pudessem detectar um período iminente de alta demanda ou baixa geração de energia eólica e começar a carregar as baterias simultaneamente, numa ação que poderia sobrecarregar a rede e desencadear a própria escassez que estavam tentando evitar.

“O alerta surge após um aumento substancial no número de baterias implantadas para dar suporte e estabilizar as redes elétricas do Reino Unido.

“As redes elétricas do Reino Unido possuem cerca de 7 GW [gigawatts] de baterias instaladas, com uma produção coletiva ligeiramente superior à de todas as cinco usinas nucleares britânicas. Até 2030, espera-se que a capacidade de baterias da rede elétrica do Reino Unido ultrapasse 20 GW.”

A comparação entre a capacidade de armazenamento das baterias e a geração nuclear é enganosa, pois as usinas nucleares podem operar em regime de 24/7, e a eletricidade armazenada em todo o sistema de baterias mal atende a uma hora de consumo do país.

Além disso, o NESO não tem qualquer controle sobre o carregamento e o fornecimento das baterias, problema análogo ao que ocorre cada vez mais no Brasil com a falta de controle do ONS sobre a chamada microgeração distribuída, na qual consumidores privados geram eletricidade em painéis fotovoltaicos e entregam o saldo gerado às distribuidoras em troca de créditos.

Quanto mais se expande a geração eólica e solar, mais baterias são necessárias e mais inseguro se torna o sistema elétrico

Em síntese, o dilema britânico pode ser resumido assim: quanto mais se expande a geração eólica e solar, mais baterias são necessárias e mais inseguro se torna o sistema elétrico.

O Brasil, igualmente empenhado na instalação de grandes sistemas de baterias, principalmente em função da demanda imposta pela expansão de data centers, deve prestar bastante atenção à experiência britânica.

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