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Lorenzo Carrasco

Lorenzo Carrasco

Uma Verdade Inconveniente

Al Gore: 20 anos de um tango “verde” fora do tom

Vinte anos depois, “Uma Verdade Inconveniente” mostra como o alarmismo climático impulsionou os negócios “verdes” de Al Gore. (Foto: JD Lasica/Wikimedia Commons)

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Sentir que a vida passa num piscar de olhos
Que vinte anos não são nada
(Volver – Carlos Gardel)

Depois de perder a eleição de 2000 para George W. Bush, em um pleito até hoje controvertido, Al Gore, que foi vice-presidente dos EUA nos dois mandatos de Bill Clinton (1993-2001), passou a dedicar-se aos promissores negócios privados estabelecidos sobre o catastrofismo climático e as operações financeiras a ele vinculadas. Inicialmente, como astro de um bem remunerado circuito internacional de palestras, mas, logo, em 2004, unindo-se a David Blood, ex-executivo do banco Goldman Sachs, para criar o fundo de investimentos “verdes” Generation Investment Management, hoje com cerca de US$ 44 bilhões em ativos sob sua gestão.

Em paralelo, criou duas ONGs para a formação de “líderes de realidade climática”, Alliance for Climate Protection e Climate Project, depois fundidas no Climate Reality Project (CRP), dedicado à doutrinação de adolescentes e adultos jovens para formar autênticas tropas de militantes climáticos para ações de grande visibilidade midiática em todo o mundo. Sem surpresa, o CRP foi um dos promotores do lançamento ao estrelato da então adolescente sueca Greta Thunberg, que logo se tornaria a matadora de aulas mais famosa do mundo.

Em 2006, a nova carreira de Gore recebeu um poderoso impulso com o lançamento do documentário "Uma Verdade Inconveniente", do diretor Davis Guggenheim, que atribui ao aquecimento global causado pela humanidade uma pletora de fenômenos que vão do furacão Katrina ao derretimento definitivo das geleiras do monte Kilimanjaro, na Tanzânia.

Além de narrador, Gore escreveu o roteiro com base em suas palestras apocalípticas e empregou toda sorte de recursos cinematográficos para criar imagens de grande impacto visual

Em uma delas, usa uma grua para elevar-se a vários metros de altura para explorar um gráfico que mostra uma suposta disparada das concentrações de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, se as emissões humanas não fossem drasticamente reduzidas.

O documentário, visto por literalmente centenas de milhões de pessoas ao redor do mundo, recebeu, em 2007, um Oscar de melhor documentário e outro pela melhor canção original, além de ter contribuído bastante para que Gore recebesse o Prêmio Nobel da Paz daquele ano, juntamente com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), organismo das Nações Unidas que tem sido o principal promotor do catastrofismo atmosférico.

Nos anos seguintes, apesar de suas numerosas inconsistências e falsidades científicas, apontadas por numerosos cientistas e pesquisadores sérios, o documentário contribuiu bastante para turbinar as empreitadas “verdes” de Gore e, não menos, a visão alarmista promovida por ele. Entretanto, uma continuação lançada em 2017 (Uma verdade mais inconveniente) não chegou sequer perto do sucesso do anterior.

Duas décadas depois de seu lançamento, é possível colocar o documentário de Gore em seu devido lugar como peça de propaganda ideológica que não proporcionou qualquer benefício real para os problemas ambientais enfrentados pela humanidade. Para enfatizar esta avaliação, recorremos ao respeitado ambientalista dinamarquês Bjorn Lomborg, presidente do Consenso de Copenhague e pesquisador visitante do Instituto Hoover da Universidade Stanford, que escreveu a respeito em um artigo publicado em 24 de maio na revista Newsweek:

“Vinte anos proporcionam a distância necessária para se refletir não apenas sobre o impacto do filme, mas também sobre a sua precisão. Muitas das previsões mais alarmantes de Gore não se concretizaram, enquanto a resposta política que ele ajudou a inspirar se comprovou ser extraordinariamente falha.

“A narrativa central do filme era a de que as mudanças climáticas estariam causando desastres cada vez piores, como inundações, secas, tempestades e incêndios florestais. No entanto, ao longo do último século, mesmo com a população global quadruplicando, as mortes por esses desastres relacionados ao tempo meteorológico despencaram. Na década de 1920, uma média de quase meio milhão de pessoas morria anualmente devido a esses eventos. Hoje, esse número é inferior a 10 mil – uma redução de mais de 97%. Sociedades mais ricas e inteligentes nos tornaram dramaticamente mais seguros, provando que a adaptação e a resiliência funcionam muito melhor do que o alarmismo sugere.”

Adiante, observa um aspecto crucial, geralmente subestimado pelos catastrofistas: a inviabilidade técnica e econômica de uma substituição acelerada dos combustíveis fósseis:

“O apelo à ação de Gore impulsionou dispendiosas reduções nas emissões. No entanto, o consumo de combustíveis fósseis continua aumentando, porque a energia barata e confiável impulsiona o crescimento e as emissões globais têm batido recordes quase todos os anos desde 2006. (...) Em 2006, o mundo obteve 82,6% de sua energia total (não apenas eletricidade) de combustíveis fósseis, de acordo com a Agência Internacional de Energia. Em 2023, o último ano com dados globais, essa participação foi de 81,1%.”

E conclui, certeiro:

“O maior erro do filme foi não defender abordagens mais inteligentes. Precisamos priorizar a inovação. A pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias verdes – para baterias melhores, energia nuclear avançada e fusão – poderiam reduzir drasticamente os custos, tornando a energia limpa mais barata do que os combustíveis fósseis. A adaptação salva vidas a baixo custo: diques, culturas resistentes à seca, alertas precoces. E o desenvolvimento tira bilhões da pobreza, construindo resiliência.

“Duas décadas depois, Uma verdade inconveniente nos lembra que o pânico é um péssimo conselheiro político. Concentrar-se em soluções econômicas – inovação, adaptação, desenvolvimento – economizará trilhões de dólares e fará muito mais para ajudar tanto as pessoas quanto o clima.”

Ou seja, um tango “verde” um tanto fora do tom.

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