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Lorenzo Carrasco

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Agenda climática

Davos e a “grande vigarice verde”

O presidente dos EUA, Donald Trump, gesticula após seu discurso especial na 56ª reunião anual do Fórum Econômico Mundial (FEM) em Davos, Suíça, em 21 de janeiro de 2026. (Foto: Gian Ehrenzeller/EFE/EPA)

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Em numerosas oportunidades desde que voltou à Casa Branca, o presidente Donald Trump tem enfatizado o seu empenho em desmontar as instituições do “globalismo” na estrutura governamental dos EUA, com ênfase especial naquelas estabelecidas para explorar o catastrofismo ambiental e climático, que chama sem rodeios de “a grande vigarice verde”.

No Fórum Econômico Mundial (WEF), em Davos, realizado entre 19 e 23 de janeiro, no conhecido resort alpino suíço, ele voltou à carga com vontade, investindo implacavelmente contra a mal denominada transição energética baseada na redução acelerada do uso de combustíveis fósseis e criticando acidamente os países europeus que apostaram suas fichas nela (vide a coluna anterior).

Não obstante, como usou boa parte de seu longo discurso para falar sobre a Groenlândia e justificar o seu interesse pela ilha, coube ao secretário do Comércio, Howard Lutnick, apresentar de forma mais concisa, embora não menos contundente, as linhas mestras da nova orientação do governo de Washington, que se afasta drasticamente do “globalismo” pregado e praticado pelos frequentadores das reuniões anuais do Fórum de Davos.

Falando sem rodeios em todas as suas intervenções, Lutnick provocou grande irritação entre os representantes europeus, reforçando as críticas de Trump sobre os prejuízos que tal agenda, em especial a ambiental/climática e a desorientada transição energética, tem ocasionado no continente.

Em um artigo publicado pelo Financial Times londrino às vésperas do evento, Lutnick fulminou:

“Este ano, algumas pessoas têm feito uma grande pergunta: por que o governo Trump está indo a Davos, afinal? Por que ir lá e participar, quando temos sido tão claros quanto ao fato de que a velha linha de pensamento globalista tem sido um desastre para os EUA? A resposta é simples: não estamos indo a Davos para apoiar o status quo. Estamos indo para confrontá-lo de frente.

“Por muito tempo, o destino da economia global tem sido decidido por uma elite internacional que se apropriou do poder econômico dos EUA e o entregou ao resto do mundo. Alguns dos nossos líderes do passado acreditaram na mentira de que a deslocalização da produção era necessária, de que não havia fronteiras e de que o nosso interesse nacional precisava submeter-se ao menor custo da mão de obra global para o bem comum. Essa abordagem fracassou para os EUA, esmagou os trabalhadores estadunidenses e devastou grande parte do resto do mundo. Destruiu indústrias, enfraqueceu as cadeias de suprimentos e deixou para trás os trabalhadores da maioria dos países ocidentais.”

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Posteriormente, em um debate com a chanceler do Tesouro (ministra da Fazenda) do Reino Unido, Rachel Reeves, fustigou:

“(...) E estamos aqui para dizer que ‘EUA Primeiro’ é um modelo diferente, que incentivamos outros países a considerar. Que os nossos trabalhadores venham em primeiro lugar; podemos ter políticas que impactem os nossos trabalhadores. A soberania são as fronteiras. Vocês têm direito a ter fronteiras. Vocês não devem deslocar a produção dos seus remédios, não devem deslocar a fabricação de semicondutores. Vocês não devem deslocar a sua base industrial inteira; ela deve ficar sob o seu controle. Vocês não devem ser dependentes de qualquer outra nação naquilo que é fundamental. E, se vão ser dependentes de alguém, é melhor que sejam dos seus melhores aliados. De acordo? Essa é uma maneira de pensar completamente diferente da do WEF... Por que vocês vão trabalhar com energia solar e eólica? Por que a Europa concorda em atingir o ‘zero líquido (net zero)’ em 2030, quando não fabrica sequer uma bateria? Não fabrica uma bateria! Então, em 2030, está concordando em ser subserviente à China, que faz as baterias. Por que vocês fazem isso?”

A rigor, o que Lutnick está pregando é nada menos que um retorno, em grande medida, aos princípios do chamado Sistema Americano de Economia Política, a corrente de pensamento econômico responsável pela transformação de uma nação esgotada por uma longa guerra de independência na maior potência econômica do mundo em pouco mais de um século.

Ao contrário do que se pensa geralmente, o Sistema Americano, baseado em uma ativa participação do Estado no fomento da economia — principalmente na construção de infraestrutura e na promoção da inovação, além do direcionamento prioritário do crédito para atividades produtivas (e não para a especulação financeira) — é o grande opositor histórico das concepções econômicas marxistas/coletivistas e também do Sistema Britânico de livre comércio, que resultou na globalização favorecida pelo WEF. Não por acaso, Karl Marx considerava um de seus expoentes, Henry Carey, assessor econômico de Abraham Lincoln, como “o único economista estadunidense de importância”.

Da mesma forma, o exemplo dos EUA foi seguido pelas principais nações que se industrializaram nos séculos XIX e XX e, não menos, pela China de Deng Xiaoping — ironicamente, hoje, a maior defensora do livre comércio.

Voltando a Davos, Lutnick seguiu gerando atritos e ruído. Em um jantar promovido pelo CEO do megafundo de gestão de ativos BlackRock, Larry Fink, copresidente interino do WEF, as suas críticas às “energias verdes” e às posições europeias atingiram tal nível de decibéis que vários dignitários continentais, entre eles a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, retiraram-se ostensivamente.

Também presente ao evento, o ex-vice-presidente estadunidense Al Gore, um dos principais propagandistas do catastrofismo climático, foi vaiado ruidosamente.

Não deixa de ser emblemático que as colocações de Lutnick tenham irritado dois altos próceres do “globalismo”.

Em termos de refluxo, a “grande vigarice verde”, defendida por Gore & cia., está à frente da hiperfinanceirização da economia, da qual Lagarde é um dos expoentes globais. O clima geral em Davos, porém, sugere que os “globalistas” estão muito nervosos com as ações de Trump e de seus comandados.

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