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A badalada transição energética brasileira, que, como em outros países, se baseia na proliferação descontrolada de fontes geradoras solares e eólicas, enfrenta um virtual “eclipse” causado pelo excesso de geração solar, agravado pela popularização das placas solares em residências e imóveis comerciais, a chamada mini e microgeração distribuída (MMGD).
Como observa uma reportagem do Brazil Journal (21/08/2026), a capacidade instalada em placas solares em telhados e miniusinas em todo o país já supera 51 gigawatts (GW), e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) estima que pode haver outros 14 GW – potência equivalente à geração da usina hidrelétrica de Itaipu – em geração solar “invisível”, não cadastrada nos sistemas das distribuidoras.
O problema é que todas essas instalações solares atingem o pico de geração simultaneamente, no início da tarde, o que sobrecarrega a rede, sem que o ONS tenha condições técnicas para controlar essa geração
O problema forçou o ONS a preparar um mecanismo de emergência para cortar automaticamente a produção dessas fontes em situações em que a geração supere o consumo e possa provocar apagões, como já ocorreu no Brasil e em outros países às voltas com problemas semelhantes.
O ONS já pratica a desconexão forçada (curtailment) de parques eólicos e solares para equilibrar o sistema, além de incluir cortes de geração em pequenas centrais hidrelétricas e usinas de biomassa conectadas à rede, como ocorreu no último feriado de Corpus Christi, em 4 de junho.
Em outros feriados, como o Dia dos Pais (9 de agosto), o descasamento entre o excesso de geração e o consumo reduzido gerou situações próximas ao limite de estabilidade do sistema elétrico, levando o órgão a acelerar a preparação do novo instrumento, que deverá estar operacional até o fim do ano.
Em 15 de agosto de 2023, um apagão de grandes proporções atingiu quase todos os estados brasileiros, com exceção de Roraima, que à época ainda estava isolada do Sistema Integrado Nacional (SIN), deixando muitos deles sem energia durante horas.
O novo procedimento planejado para evitar novos casos é denominado Esquema Regional de Alívio de Geração (ERAG) e deverá atingir inicialmente cerca de 3 gigawatts (GW) de miniusinas solares ligadas à rede, que poderão ser cortadas “em escadinha”, de acordo com as necessidades.
“Seria um corte automático de geração. Para (ser usado) se naquele instante não cabe mais energia no sistema e tudo que poderia ter sido feito de forma manual já foi feito”, disse ao Brazil Journal o diretor de planejamento do ONS, Alexandre Zucarato.
“Se precisar, para salvar o sistema de um blecaute completo, podemos cortar de forma controlada a carga, que é o cliente final do setor elétrico. Então, não tem nada de extraordinário você cortar a geração de forma automática, pontualmente, também para evitar um blecaute”, disse ele.
“A capacidade do sistema de suportar os vales de carga está chegando no limite. Estamos usando todas as medidas que podemos, com uma sequência de linhas de defesa”, enfatizou.
A implementação do ERAG não necessita de aprovação do governo federal ou da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
A expansão descontrolada da MMGD é consequência direta da adoção acrítica da agenda da “descarbonização” da economia, que resultou na concessão de vultosos subsídios e incentivos financeiros à geração solar e eólica, facilitados pelos escassos requisitos dos órgãos ambientais aos empreendimentos do segmento. O resultado aí está.
Como afirmou um especialista citado pela reportagem: “O ONS está olhando o problema e redistribuindo seus impactos, mas alguém vai precisar, em algum momento, buscar uma solução.”
Tratando-se do Brasil, possivelmente, serão necessários alguns apagões de grande porte como o de agosto de 2023, para que o país se convença de que não dá mais para ignorar a dimensão do problema.

Lorenzo Carrasco é jornalista, presidente do Movimento de Solidariedade Ibero-americana (MSIa) e da Capax Dei Editora. É autor de alguns livros, entre eles: "Conselho Indigenista Missionário: Filho da Mentira" e “Um mundo novo é possível? Doutrina Social, Direito Natural e Multipolaridade”. É também coautor de "Máfia Verde: o ambientalismo a serviço do Governo Mundial" e "A missão da Rússia na mudança de época global", e outros. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



