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Lorenzo Carrasco

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Transição energética

Europa retoma energia nuclear – e o Brasil?

Ursula von der Leyen anuncia a retomada da energia nuclear na Europa, reconhecendo o abandono da fonte como “erro estratégico” e defendendo nova liderança tecnológica. (Foto: Olivier Hoslet/EFE/EPA)

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Com décadas de atraso, a União Europeia (UE) admite o “erro estratégico” de ter dado as costas à energia nuclear e decide retomar a expansão da tecnologia para a geração elétrica. O auto de fé, seguido do anúncio de um programa de apoio financeiro a tecnologias nucleares inovadoras, em especial, os pequenos reatores modulares (SMR, sigla em inglês), visando à sua viabilização comercial no início da década de 2030, foi feito pela presidente da Comissão Europeia, Úrsula von der Leyen, na recente Nuclear Energy Summit, em Paris. Disse ela:

“Em 1990, um terço da eletricidade da Europa provinha da energia nuclear; hoje, esse número está perto dos 15%. Esta redução na quota da energia nuclear foi uma escolha. Acredito que foi um erro estratégico a Europa virar as costas a uma fonte de energia fiável, acessível e de baixas emissões.

“A energia nuclear é confiável, fornecendo eletricidade o ano todo, 24 horas por dia. Portanto, o sistema mais eficiente combina energia nuclear e renováveis, e é sustentado por armazenamento, flexibilidade e redes. A Europa tem sido pioneira em tecnologia nuclear e pode, mais uma vez, liderar o mundo nesse campo. Os reatores nucleares de próxima geração podem se tornar uma exportação europeia de alta tecnologia e alto valor agregado (Petronotícias, 11/03/2026).”

Segundo ela, a Estratégia Europeia para Pequenos Reatores Modulares terá um investimento inicial de €200 milhões, financiado com recursos do Sistema de Comércio de Emissões. A estratégia terá três elementos principais:

“Primeiro, precisamos de regras simples. Criaremos ambientes regulatórios experimentais para que as empresas possam testar tecnologias inovadoras. E trabalharemos com os Estados-Membros para que as regras sejam alinhadas além-fronteiras. A lógica é clara. Quando for seguro implantar, a implantação deve ser simples – em toda a Europa.”

No evento, o compromisso internacional voltado para triplicar a capacidade mundial de geração nuclear até 2050, lançado na conferência climática COP-28, em Dubai (2023), foi ampliado pela adesão de mais quatro países – China, Itália, Bélgica e Brasil.

A adesão da Itália é das mais relevantes, pois o governo da primeira-ministra Giorgia Meloni tem na retomada nuclear uma de suas linhas de ação estratégicas, num país que decidiu encerrar a geração nuclear em um referendo popular em 1987, após o desastre da usina de Chernobyl, na Ucrânia, confirmado em 2011, após o da usina japonesa de Fukushima.

Nas décadas de 1950-80, a Itália chegou a ter três reatores nucleares de potência, um deles operado pela petroleira estatal ENI (depois transferido à elétrica Enel).

Para a premier Meloni, a iniciativa é crucial para reduzir os altos custos da eletricidade no país, entre os mais altos da Europa. Com foco nos SMRs, o governo estabeleceu um plano para a retomada nuclear até 2027, com a intenção de que as novas usinas possam responder por 11-22% da geração elétrica até 2050. A iniciativa está a cargo da empresa Nuclitalia, parceria entre a Enel, a Ansaldo Energia e a empresa de defesa Leonardo.

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Por sua vez, a Bélgica reverteu a decisão anterior de desativar as suas usinas nucleares com base em reavaliações a cada dez anos e também está apostando nos SMRs para manter a elevada participação da fonte nuclear na geração elétrica no país, da ordem de 35-40%.

Quanto à China, o gigante asiático é o líder inconteste na expansão da energia nuclear, dispondo de 57 reatores de potência operacionais (56 gigawatts) e com outros 33 em construção, com capacidade de geração de 35 GW, com tecnologia russa e nacional.

Enquanto isso, embora tenha aderido à proposta de expansão nuclear, o Brasil segue patinando no setor, apesar de algumas iniciativas promissoras no campo dos microrreatores nucleares (de até 5 MW), como já expus em colunas anteriores.

No entanto, um fator-chave para o setor é a decisão sobre a conclusão da usina nuclear Angra 3, cuja construção está paralisada há mais de duas décadas, sem que sucessivos governos tenham assumido a responsabilidade de concluí-la – decisão ainda mais difícil em um ano eleitoral como o atual.

Segundo estudos do BNDES, o custo para a sua conclusão é estimado em cerca de R$ 24 bilhões, pouco superior aos R$ 22-23 bilhões que seriam necessários para o seu desmantelamento.

Embora a minuta do Plano Nacional de Energia 2055 contemple a geração de até 14 GW de fontes nucleares, a inércia e o desinteresse histórico que os tomadores de decisões brasileiros da “Nova República” têm demonstrado em relação à energia nuclear sugerem que, sem uma radical mudança de mentalidade, tal meta dificilmente poderá ser atingida.

Uma triste manifestação desse descaso pode ser vista na escassa atenção conferida ao falecimento do físico Rex Nazaré Alves, em 6 de janeiro último. Um dos maiores cientistas brasileiros de todos os tempos foi presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) entre 1982 e 1990, quando coordenou uma das maiores façanhas científico-tecnológicas nacionais, o programa nuclear paralelo da Marinha do Brasil, que resultou no domínio da tecnologia de enriquecimento de urânio, levando o Brasil ao seleto grupo de não mais que uma dúzia de países detentores dessa capacidade – detalhe, aliás, omitido da nota oficial do governo federal relativa ao fato.

Lástima que esse impulso de progresso que ele tanto soube encarnar e promover tenha ficado para trás.

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