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Lorenzo Carrasco

Lorenzo Carrasco

Crise energética global

Guerra no Irã sepulta a “transição energética”

Navios petroleiros cruzam o estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial e cuja interrupção preocupa o mercado global. (Foto: EFE/EPA/ALI HAIDER)

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A deflagração da guerra contra o Irã pelos EUA e Israel já provocou o efeito mais que esperado de lançar os preços do petróleo para as bordas da estratosfera. De US$ 67, em 27 de fevereiro, véspera do início dos ataques, o preço do barril da variante de referência Brent disparou para quase US$ 100 na segunda-feira, 9 de março, tendo caído depois de ter atingido a casa de US$ 108.

Sem surpresa, é grande o temor de que as ondas de choque se espalhem por todo o mundo, principalmente no caso de um conflito prolongado, possibilidade cada vez maior, dada a resiliência demonstrada pelos iranianos.

A grande preocupação é com uma interdição, mesmo parcial, do estreito de Ormuz, por onde passam diariamente cerca de 20% da produção mundial de petróleo e gás natural, além de importações para os países árabes do Golfo Pérsico, inclusive de alimentos e água.

Mas não é apenas isso que passa pelo estreito. Outras duas cadeias de suprimentos cruciais para a economia mundial também são fortemente influenciadas pelo seu tráfego: enxofre e fertilizantes. Cerca de 50% do comércio mundial de enxofre e ureia passam por lá, assim como 25% dos fertilizantes nitrogenados. Não há reservas estratégicas desses produtos às vésperas do início da temporada de plantio no Hemisfério Norte.

Um destino particularmente vulnerável do gás natural liquefeito (GNL) que transita por Ormuz é Taiwan, que importa 30% dele do Catar e só tem reservas para 11 dias. Dá para imaginar o impacto na geração de eletricidade do maior produtor mundial de semicondutores.

Além dos impactos econômicos e políticos, o confronto bélico representa outro prego no caixão da “transição energética”, baseada numa ilusória substituição acelerada dos combustíveis fósseis, ressaltando o equívoco das nações europeias que investiram maciçamente em fontes energéticas intermitentes – eólica e solar – em detrimento de fontes capazes de oferecer a confiável geração de base, caso típico da nuclear.

A Alemanha proporciona um estudo de caso exemplar. Desde a primeira década do século, o país dedicou-se a liderar a “transição energética” (Energiewende), investindo quase €500 bilhões na expansão do seu parque gerador, sendo a maior parte destinada à construção de fazendas eólicas e solares. Ao mesmo tempo, por motivações políticas, decidiu desativar todas as suas usinas nucleares, que chegaram a gerar 25% da eletricidade consumida no país.

A situação agravou-se ainda mais com a interrupção das importações de petróleo e gás natural da Rússia, em contratos de longo prazo a preços bastante favoráveis, devido à guerra na Ucrânia.

O resultado são as tarifas de eletricidade mais altas da União Europeia, tanto para usos comerciais como residenciais, fator que está impactando fortemente os custos operacionais das empresas, principalmente as industriais, o que tem acarretado um êxodo crescente delas para outros países com custos menores.

Se a guerra se prolongar, a Alemanha será um dos países mais afetados

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Mas, antes mesmo do conflito, como comentei várias vezes nesta coluna, já vinham se dissipando as ilusões com a possibilidade de uma substituição em grande escala do petróleo, gás natural e carvão mineral nas próximas décadas. Assim, em vez de “transição energética”, a palavra de ordem cada vez mais ouvida é a segurança energética, que de modo algum pode ser confiada a fontes intermitentes.

A Agência Internacional de Energia (AIE), até há pouco uma das principais batedoras de bumbo da “transição”, tem refletido essa guinada em seus últimos relatórios, enfatizando a necessidade de ampliação da oferta de petróleo e gás natural para compensar a queda de produção esperada dos campos maduros em várias partes do mundo.

Essa tendência ganhou momento com o virtual desmantelamento da agenda ambiental/climática nos EUA de Donald Trump, movimento que tem reverberado por todo o mundo e impactado fortemente a estrutura de “finanças verdes” estabelecida para sustentar a descarbonização da economia global, na qual não poucos países, Brasil inclusive, apostavam suas fichas para financiar o seu desenvolvimento. Agora, vários deles estão sendo forçados a rever os seus planos e a retornar aos princípios fundamentais da economia física real (no Brasil, lamentavelmente, a ilusão ainda persiste).

Independentemente do seu desfecho, a guerra no Irã (ironicamente, também provocada por Trump) tende a reforçar esse efeito.

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