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Lorenzo Carrasco

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Impacto

Guerra ressalta vulnerabilidades e possibilidades da agropecuária brasileira

a agropecuária brasileira exibe altos níveis de produção, mas mostra um efeito reduzido no desenvolvimento estrutural do país e, por conseguinte, torna-se vulnerável a abalos geopolíticos como os atuais. (Foto: Michel Willian /Arquivo Gazeta do Povo)

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A guerra desfechada pelos EUA e Israel contra o Irã voltou a destacar a importância estratégica do Estreito de Ormuz para a economia mundial, inclusive a brasileira. Antes da guerra, transitavam diariamente por ele cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) consumidos no planeta, além de um terço do comércio marítimo de fertilizantes (ureia e fosfatos), 50% de enxofre (crucial para a produção de ácido sulfúrico) e um terço do hélio, essencial para a indústria microeletrônica, equipamentos médicos e várias outras aplicações industriais.

Em consequência da guerra, o fechamento seletivo imposto pelo Irã no estreito já provocou uma queda de 10% a 15% do comércio de petróleo, 15% a 20% do de GNL (concentrado no Catar), 15% a 25% dos fosfatos, 20% a 30% da ureia, 20% a 30% do enxofre e 30% do hélio. Quanto aos preços internacionais, o petróleo e o GNL já experimentam altas entre 45% e 60%, o hélio praticamente dobrou e os demais produtos tiveram elevações expressivas.

Para o Brasil, o cenário é bastante preocupante, principalmente no tocante à agropecuária, setor que ressalta a grande contradição de o país ser um dos maiores produtores e exportadores mundiais de alimentos e altamente vulnerável quanto aos insumos básicos (fertilizantes e defensivos), infraestrutura de transportes baseada no modal rodoviário e capacidade de armazenamento insuficiente.

A dependência das importações também é grande nos defensivos agrícolas, na casa de 70% a 75%, embora a maior parte provenha de países não diretamente afetados pelo conflito.

A agropecuária brasileira exibe altos níveis de produção, mas mostra um efeito reduzido no desenvolvimento estrutural do país e, por conseguinte, torna-se vulnerável a abalos geopolíticos como os atuais

Da mesma forma, apesar de ser um dos grandes produtores e exportadores de petróleo, o Brasil importa cerca de 20% do seu consumo de derivados fundamentais, como diesel e querosene de aviação, cujos preços dispararam nas últimas semanas. No caso do diesel, que aumentou de 18% a 25% e já enfrenta problemas de abastecimento em alguns estados, o impacto é imediato no setor agropecuário, fortemente dependente do transporte por caminhões.

Tais vulnerabilidades são decorrentes de opções estratégicas feitas pelas lideranças brasileiras sobre a configuração das estruturas produtivas nacionais, em especial a partir da década de 1990, adotando, de forma acrítica, a cartilha ideológica da globalização, com ênfase na obtenção de resultados financeiros de curto prazo, em detrimento de um desenvolvimento pleno e integrado dos potenciais produtivos do país.

Parte integrante da cartilha é a agenda ambiental-indígena vinculada ao movimento internacional da “sustentabilidade” e da “descarbonização” da economia global, igualmente internalizada sem restrições por quase todos os governos do período e implementada por uma eficiente rede de agentes de influência encastelada nos órgãos ambientais, ONGs, Ministério Público, mídia e outros, que tem demonstrado uma grande capacidade de obstaculização de projetos e empreendimentos produtivos de toda ordem.

Para limitar-nos apenas a alguns casos relevantes para o setor da agropecuária, citamos os projetos de exploração de potássio em Autazes (AM) e de fosfato e urânio em Santa Quitéria (CE). O primeiro, da empresa Potássio do Brasil, prevê a produção de 2,2 milhões de toneladas de cloreto de potássio (silvinita) por ano, suficiente para cobrir 20% das necessidades nacionais. O segundo, uma parceria público-privada entre a Indústrias Nucleares do Brasil (INB) e a Galvani Fertilizantes, poderá atender a 15% da necessidade de fertilizantes fosfatados.

Lamentavelmente, ambos estão atrasados há mais de uma década, em grande medida pela ação implacável do aparato antidesenvolvimentista “verde-indígena” e seu vasto repertório de ações protelatórias.

Não obstante, o problema maior decorre da opção de não se perseguir a expansão da produção nacional, em favor de importações “mais baratas”, o que se mostra tanto no caso dos derivados do petróleo como dos fertilizantes. Em ambos, merece destaque o papel da Petrobras, que passou por um processo de “desinvestimentos” a partir da gestão de Aldemir Bendini, no segundo mandato de Dilma Rousseff, aprofundado nos governos seguintes e por uma decisão do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que a obrigou a vender oito de suas 13 refinarias, embora apenas três tenham sido efetivamente vendidas.

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Motivada pelos grandes prejuízos e endividamento experimentados pela empresa em 2014-15, decorrentes de vários fatores, inclusive os efeitos do escândalo de corrupção política que a abalou no período (“Petrolão”), a política de “desinvestimentos” aprofundou a conversão da Petrobras numa virtual fábrica de dividendos, voltada para os interesses dos seus acionistas minoritários. Em recente entrevista à CNN Brasil, o ex-presidente Pedro Parente, que a comandou no governo de Michel Temer, admitiu que estes últimos são hoje os verdadeiros controladores da empresa.

Também foram vendidas as participações em projetos de fertilizantes, que não avançaram pela iniciativa privada e estão sendo retomadas pela empresa, que pretende investir US$ 900 milhões até 2029 na reativação de fábricas paralisadas e na conclusão de projetos pendentes para aumentar a produção nacional de ureia e amônia, no Paraná, Bahia, Sergipe e Mato Grosso do Sul.

Em última análise, a grande vulnerabilidade exibida hoje pela agropecuária é o fato de ter sido tratado apenas como uma plataforma de exportação de commodities, em vez de um motor de industrialização, o que poderia contrarrestar a rápida queda da participação deste segmento na economia como um todo. Assim, a agropecuária brasileira exibe altos níveis de produção, mas mostra um efeito reduzido no desenvolvimento estrutural do país e, por conseguinte, torna-se vulnerável a abalos geopolíticos como os atuais.

A reversão desse cenário, que se impõe diante de turbulências globais que tendem a prevalecer no futuro próximo, está a exigir das lideranças brasileiras uma ampla rediscussão dos rumos, não só da agropecuária, mas do potencial de desenvolvimento do país como um todo, para o qual o setor pode atuar como um poderoso catalisador.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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