
Ouça este conteúdo
O mercado de emissões de carbono, até agora a maior conquista da indústria do catastrofismo climático, enfrenta fortes ventos que tendem a converter-se numa tempestade das grandes, como mostram as reações cada vez mais enfáticas dos industriais da Europa.
A União Europeia (UE) foi a pioneira no segmento, com o seu Emission Trading System (ETS), em vigor desde 2005. O sistema estabelece cotas de emissões de gases de efeito estufa, principalmente o dióxido de carbono (CO₂), para as empresas de vários setores, que recebem certificados de emissões para cada tonelada de CO₂ equivalente emitida. Como muitas empresas ultrapassam as cotas estabelecidas, elas precisam comprar, no mercado de carbono, certificados de emissões de empresas que não atinjam as respectivas cotas.
O ETS abrange cerca de 40% das emissões da UE e inclui a indústria pesada, usinas elétricas e, mais recentemente, o transporte marítimo. A partir de 2027, pretende-se estendê-lo a outros setores, inclusive o transporte rodoviário e os edifícios comerciais e residenciais.
Porém, a pretensão de liderar o mundo no “combate” às mudanças climáticas está cobrando um alto preço da indústria europeia, obrigada a incorrer em custos que têm influenciado negativamente a sua competitividade nos mercados internacionais.
Desde a década de 2010, os preços dos certificados dispararam, saltando da casa de €10 por tonelada para cerca de €80 atualmente.
Por isso, o ETS está na berlinda, sob críticas crescentes, e deverá ser revisto ainda este ano.
O sistema foi o centro de duas reuniões recentes em Antuérpia, Bélgica, para discutir os problemas econômicos do bloco, como mostra uma reportagem do site Politico.eu (16/02/2026). Para os representantes industriais presentes, o sistema precisa de uma revisão urgente.
“Aumentar os custos do carbono afasta as cadeias de valor da Europa”, disparou o CEO da gigante química alemã BASF, Markus Kamieth.
Entre os políticos, o chanceler alemão Friedrich Merz posicionou-se favoravelmente a uma reforma abrangente no sistema, embora, posteriormente, tenha reduzido as suas críticas, afirmando que pretendia apenas “iniciar um debate”.
Ainda assim, foi o bastante para que os líderes da Áustria, República Checa e Polônia pegassem carona e explicitassem a sua posição favorável à revisão do ETS.
Já o presidente francês Emmanuel Macron admitiu a necessidade de que a UE mantenha o mercado de carbono, mas enfrente o problema dos custos crescentes. Segundo ele, a especulação com os certificados de emissões é o principal motivo pelo qual “o ETS, que deveria estar entre €30 e €40, esteja agora acima de €80”.
Sem surpresa, coube à inefável presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, fazer uma enfática defesa do sistema: “Ele diz, basicamente: se você quer poluir, você paga. Se não quiser pagar, inove. E isso é o que tem acontecido.”
Ouvidos pelo Politico, sob condição de anonimato, dois diplomatas que participaram das reuniões confirmaram o ambiente crítico ao sistema.
Um deles afirmou que as mudanças no ETS foram “bastante insufladas por certos países... A €80, é um verdadeiro pesadelo para alguns”.
“Muitos líderes começam a ver os óbices do sistema”, disse o outro.
Mesmo contemporizando, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, admitiu as divergências: “É verdade que há alguns líderes que não gostam do ETS, mas há vários outros que... se levantaram para defender o sistema.”
Como esperado, os mercadores de carbono saíram prontamente em defesa dos seus negócios.
Para o analista-chefe da empresa de análise do mercado de carbono Veyt, Marcus Ferdinand, as críticas “se parecem a uma campanha bem orquestrada contra o ETS por parte da comunidade industrial europeia, em uma tentativa de baixar o sarrafo para a vindoura revisão do ETS”.
Segundo ele, mesmo que políticos como Merz tenham recuado de suas críticas, “o prejuízo está dado. O mercado perdeu cerca de €10 em um período de tempo muito curto. Isso é claramente um sinal de perda de confiança na estabilidade do sistema a longo prazo”.
De fato, ao longo da semana das reuniões, os preços dos certificados caíram de €81 para €72.
Batendo na mesma tecla, o CEO da International Emissions Trading Association, Dirk Forrister, disparou: “O ETS da UE deve permanecer protegido de intervenções políticas ad hoc que implicam o risco de enfraquecer a confiança dos investidores e enfraquecer o caminho de descarbonização da Europa.”
Em um comentário a respeito, o excelente site alemão Blackout News (blackout-news.de) sintetizou assim a situação:
“A UE tem tentado criar um mercado que se comporte como um mercado genuíno. Aqui é, precisamente, onde reside o desenho. O comércio de emissões é baseado em uma escassez criada politicamente, não em uma escassez natural. Portanto, incentivos perversos emergem na medida em que interesses estabelecidos interferem com o processo. Ademais, com frequência, os compromissos da UE seguem o mínimo denominador comum, enquanto o mercado global não faz tais considerações.”
A revisão do ETS deverá ocorrer em julho e, ainda este ano, a Comissão Europeia deve discutir os regulamentos do chamado Green New Deal sobre metas nacionais de emissões e governança sustentável, em um ambiente internacional já fortmente afetado pelo virtual abandono da agenda “verde” pelos EUA de Donald Trump.
No Brasil, onde autoridades públicas e empreendedores privados ainda creem que um mercado baseado numa escassez gerada politicamente possa representar um ramo de negócios relevante e promissor, convém prestar atenção nos ventos fortes que varrem o Hemisfério Norte.








