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Lorenzo Carrasco

Lorenzo Carrasco

Uma agenda perversa

O engodo climático dos países ricos

Enquanto países ricos impõem sua agenda climática, bilhões são desviados das prioridades dos pobres. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

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Em mais de uma coluna na Gazeta, já citei o economista, cientista político e estatístico dinamarquês Bjorn Lomborg, que há mais de duas décadas tem sido um dos mais ativos e rigorosos críticos do catastrofismo ambiental, com base em criteriosas aplicações do método científico e em análises estatísticas precisas. Dois de seus principais livros, referências sobre o tema, O Ambientalista Cético – revelando a real situação do mundo, de 2002, e Falso alarme: como o pânico das alterações climáticas nos custa bilhões, atinge os mais pobres e não salva o planeta, lançado em 2024, tiveram edições brasileiras.

Apesar de não questionar a alegada influência humana no clima global, considera contraproducente a agenda da “descarbonização” da economia mundial, propondo, em troca, uma adaptação às mudanças climáticas e investimentos de longo prazo no enfrentamento de problemas como a poluição, a pobreza, a desnutrição e doenças epidêmicas como a malária e outras, que considera bem mais relevantes.

Recentemente, ele uniu forças com o economista indiano Indermit Gill, que acaba de deixar o cargo de economista-chefe do Banco Mundial, para uma crítica contundente às políticas climáticas das instituições multilaterais. Em um artigo publicado no Wall Street Journal de 1º de setembro último (“The Rich World’s Climate Distraction”), eles acusam o Banco Mundial e outras instituições de “perder o seu foco sobre as melhores maneiras de ajudar os pobres”. Segundo eles:

“Os últimos 75 anos trouxeram a maior melhoria no bem-estar humano da História. Mas, na última década, grande parte desse progresso estagnou. Isso aconteceu ao mesmo tempo em que o mundo rico voltou sua atenção para as mudanças climáticas. Isso não é uma coincidência e precisa mudar. (...)

“No entanto, esse desenvolvimento diminuiu drasticamente nos últimos tempos. Após quase dois séculos de declínio da pobreza, o número de pessoas pobres no mundo não se alterou desde 2016. Segundo o Banco Mundial, o progresso global encontra-se no ritmo mais lento desde 1950.”

Entre as causas do problema, destacam:

“Em 2016, o mundo aposentou os seus Objetivos de Desenvolvimento do Milênio – uma lista curta de metas, em sua maioria eficientes e direcionadas: reduzir a pobreza, as doenças e as mortes maternas e infantis, e garantir que todas as crianças frequentassem a escola. Em seu lugar, surgiram os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. A mudança climática tornou-se a obsessão do mundo rico.

“Em nenhum lugar essa obsessão é mais evidente do que nos bancos de desenvolvimento, cujo propósito principal é ajudar os pobres a se desenvolverem. No entanto, em 2025, o financiamento climático de bancos multilaterais de desenvolvimento para países de baixa e média renda ultrapassou US$ 103 bilhões – quase metade de todo o seu financiamento. Somente o Banco Mundial destinou 48% de seus empréstimos ao financiamento climático.”

E sentenciam:

“Os bancos, assim como muitas organizações de desenvolvimento, convenceram-se de que, como as pessoas pobres são mais vulneráveis ​​às mudanças climáticas, a política climática é crucial para o seu desenvolvimento. A lógica é sedutora, mas equivocada. As pessoas pobres são mais vulneráveis a tudo – doenças, fome, infraestrutura precária, choques econômicos. A questão é se a política climática é a melhor maneira de ajudá-las. Examinadas rigorosamente, as políticas focadas em objetivos tradicionais de desenvolvimento, como a redução da pobreza e a melhoria da saúde, geralmente vencem de forma decisiva.

“O crescimento econômico sustentado é o indicador mais seguro da capacidade de um país resistir aos choques climáticos. Um aumento de 10% no Produto Interno Bruto (PIB) per capita pode reduzir em quase 100 milhões o número de pessoas em alto risco devido a perigos relacionados ao clima. A prosperidade é a estratégia definitiva de adaptação climática. Um furacão mata centenas de pessoas no Haiti; a mesma tempestade causa apenas transtornos na Flórida. A resiliência se dá por meio do desenvolvimento – não por meio de uma fazenda solar que aumenta os preços da energia e desacelera a industrialização [grifos meus].”

Esta última assertiva, que fiz questão de grifar, sintetiza toda a falsa disjuntiva oferecida pelos pregoeiros do pseudoapocalipse ambiental e climático desde o início da emergência da ideologia “verde”, há seis décadas, com o objetivo mal disfarçado de convencer os países em desenvolvimento de que o mundo não teria recursos naturais nem “capacidade de suporte” ambiental se todos adotassem a industrialização como política preferencial de desenvolvimento.

E é emblemático que essa tenha sido a mensagem daqueles países, com destaque para o Brasil, na primeira grande conferência internacional dedicada ao meio ambiente, a Conferência de Estocolmo de 1972: a pior poluição é a pobreza.

Lástima que os efeitos das crises das dívidas externas e dos choques petrolíferos, na década de 1980, e o advento da “globalização” financeira na década seguinte tenham abafado tal concepção, começando pelo próprio Brasil, talvez o país do mundo onde o ambientalismo e o indigenismo tenham obtido o maior sucesso em criar obstáculos ao desenvolvimento nacional.

Exigir que as nações africanas alcancem – com uma fração dos recursos – o que a Alemanha não consegue não é liderança climática. É hipocrisia

Lomborg e Gill citam a energia como exemplo crucial:

“A dimensão energética é a mais evidente. Grande parte da África usa menos eletricidade por pessoa do que uma única geladeira em uma casa ocidental. O mundo rico construiu sua riqueza com base em combustíveis fósseis baratos e confiáveis, que ainda fornecem mais de 80% da energia global. No entanto, os bancos de desenvolvimento se recusam a financiar novos projetos de combustíveis fósseis em países pobres. A Alemanha gastou mais de € 700 bilhões em sua transição energética desde 2002; os preços da energia mais que dobraram e quase 4/5 de sua economia ainda é movida a combustíveis fósseis. Exigir que as nações africanas alcancem – com uma fração dos recursos – o que a Alemanha não consegue não é liderança climática. É hipocrisia [grifos meus].”

As lideranças políticas e empresariais e os cientistas engajados brasileiros que propalam aos quatro ventos uma suposta “liderança climática” do País deveriam prestar atenção nessas palavras. Assim como na conclusão inequívoca dos autores:

“A maior parte da humanidade ainda é pobre. Por ela, devemos gastar bilhões para resolver problemas urgentes e de baixo custo antes de gastar trilhões para tentar alterar a temperatura daqui a um século. Significativamente, em uma pesquisa recente do Afrobarometer, os africanos classificaram as mudanças climáticas em 31º lugar entre 34 prioridades. Precisamos redescobrir as soluções de desenvolvimento inteligentes e focadas que transformaram o mundo nos últimos 75 anos – e priorizar as melhores políticas de desenvolvimento [grifos meus].”

Se for preciso, vamos desenhar: a melhor resposta aos problemas ambientais reais do planeta é o pleno desenvolvimento das nações do mundo.

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