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A recente apresentação do Plano Clima do governo federal denota que as lideranças brasileiras, tanto no setor público quanto no privado, ainda não acordaram para a inocultável perda de relevância que se manifesta na chamada agenda da sustentabilidade e climática em todo o mundo, a começar pelos EUA e outras potências industriais do Hemisfério Norte.
O recuo é causado pelo choque das ameaças exageradas sobre uma inexistente crise ambiental e climática, além da inadequação tecnológica e dos altos custos da mal denominada “transição energética”, com o mundo real, que está muito distante de reduzir significativamente o uso dos combustíveis fósseis, como demonstram os desdobramentos da guerra no Golfo Pérsico (vide a coluna de 10 de março).
De acordo com a Agência Brasil (16/03/2026), o objetivo do plano é orientar “Estado e sociedade a enfrentarem a crise climática”, com “ações de mitigação e adaptação para o Brasil ser uma economia de baixo carbono, sustentável do ponto de vista socioambiental”.
A expressão “economia de baixo carbono” é o mantra dos propagandistas da “descarbonização” da economia mundial para justificar uma substituição acelerada dos hidrocarbonetos e do carvão mineral pelas chamadas “energias limpas”, com destaque para a eólica, solar, hidrogênio e outras fontes de baixa densidade energética e inadequadas para o abastecimento de sociedades altamente urbanizadas e industrializadas.
Segue a nota: “A meta principal do plano é reduzir entre 59% e 67% as emissões de dióxido de carbono até 2035 (os percentuais da meta são relativos a 2005). A contenção será caminho para que, até 2050, não haja mais emissões de gases de efeito estufa no Brasil [grifos nossos].”
Tal pretensão só pode ser descrita como delirante, uma vez que a eliminação total dos chamados gases de efeito estufa pressupõe, minimamente, que, nos próximos 24 anos, o Brasil:
- elimine o uso de hidrocarbonetos nos motores de combustão interna nos transportes terrestres, aéreos e marítimos;
- substitua o uso de carvão e hidrocarbonetos em processos industriais, como a fabricação de aço, cimento e outros, por tecnologias ainda imaturas ou inexistentes;
- elimine o uso de petróleo e gás natural como insumos para a indústria petroquímica, para os quais não há substitutos viáveis.
Apenas esse item denota o alto nível de irrealidade dos coordenadores do plano.
Curiosamente, a elaboração do plano “envolveu a participação de 24 mil pessoas e resultou em cerca de 5 mil propostas apresentadas em diversas etapas de elaboração, sintetizadas e escolhidas pelo Comitê Interministerial sobre Mudança Climática (CIM), formado por 25 pastas ministeriais”.
“Nós tivemos um processo com ampla participação da sociedade civil”, observou a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva.
Será que os especialistas qualificados entre essas 24 mil pessoas não tiveram a oportunidade de apontar tais inconsistências aos coordenadores do plano?
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Reforçando a mensagem, o ministro da Casa Civil, Rui Costa, afirmou que “o Plano Clima representa um novo passo do governo do presidente Lula para posicionar o Brasil na liderança global da agenda ambiental”. Segundo ele, a iniciativa “é também um chamado à ação para estados, municípios, setor privado e sociedade civil”.
A pretensão de liderança mundial reflete o ilusório conceito de “potência verde”, a intenção de converter o País em um prestador de “serviços ambientais” globais, colocando os seus biomas como contrapartidas para a atração de investimentos carimbados como “verdes” ou “sustentáveis” — impulso que, como já observei nesta coluna, encontra-se em pleno recuo no âmbito internacional.
Resumindo, independentemente dos detalhes da competência técnica e da seriedade dos seus 24 mil colaboradores, sua orientação geral está fora de sintonia com a realidade.
Ou, em outras palavras, é uma agenda para uma virtual “impotência verde”.








