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Lorenzo Carrasco

Lorenzo Carrasco

Endividamento e crise

Raízen, “transição energética” e rentismo

Base da Raízen em Rondonópolis (MT): empresa recorre à recuperação extrajudicial para reestruturar passivo de R$ 65 bilhões. (Foto: Marcus Bordado/Photo Art Fotografias/Raízen)

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O surpreendente pedido de recuperação extrajudicial da Raízen, envolvendo a renegociação de dívidas da ordem de R$ 65 bilhões — a maior operação do ramo no País —, gerou ondas de choque em todo o mundo empresarial brasileiro.

Grande parte da surpresa decorre do fato de a empresa, uma das maiores produtoras de açúcar e etanol do mundo, ser uma joint venture entre duas potências nas respectivas áreas, a centenária Shell e a quase centenária Cosan, empresas das quais se costuma esperar uma visão estratégica capaz de evitar sobressaltos do gênero.

Fundada em 2011, a promissora proposta da Raízen era combinar a experiência da Cosan na produção de açúcar e etanol com a da Shell na distribuição de combustíveis, para formar um grande conglomerado integrado de energia e biocombustíveis. Inicialmente, a parceria funcionou com base nas duas especializações principais das sócias, com bons resultados.

Em 2017, teve início uma expansão agressiva orientada pela badalada agenda ESG (ambiental, social e governança), com pesados investimentos na área das energias “verdes”, em especial o chamado etanol de segunda geração (a partir de bagaço e palha de cana-de-açúcar), biometano (gás natural renovável), biogás, energia solar distribuída e redes de recarga para automóveis elétricos. Em paralelo, a empresa expandiu os negócios para fora do seu core business, chegando a controlar a rede de supermercados Oxxo e lojas de conveniência e varejo alimentar, aproveitando a infraestrutura da rede de postos Shell.

Em 2021, a empresa abriu capital na bolsa de valores de São Paulo (B3). Nos dois anos seguintes, obteve receitas anuais superiores a R$ 200 bilhões, com EBITDA (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) anual na faixa de R$ 13 a R$ 15 bilhões. De fato, nada mal para uma empresa com uma década de existência.

Todavia, essa estratégia de crescimento agressiva tinha um calcanhar de Aquiles: grande parte desses investimentos foi financiada por endividamento, algo sempre bastante arriscado no Brasil da taxa Selic geralmente elevada e controlada pelos interesses rentistas da Avenida Faria Lima.

Além disso, alguns dos investimentos “verdes” não proporcionaram os resultados esperados, inclusive por se tratarem de tecnologias ainda em desenvolvimento, com custos elevados e retorno demorado, caso do etanol de segunda geração. O mesmo ocorreu com os 31 projetos solares, no total de 115 megawatts (MW), dos quais a empresa acabou se desfazendo, assim como da rede de supermercados e de outros investimentos paralelos.

Somando-se problemas climáticos que afetaram a produção da cana-de-açúcar e uma crescente competição com o etanol de milho do Centro-Oeste, o cenário ficou aberto para resultados negativos

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Em 2024/25, apesar de uma receita superior a R$ 255 bilhões, a empresa registrou um prejuízo líquido de quase R$ 4,2 bilhões. Com um serviço da dívida exigindo, nos dois anos seguintes, o desembolso de valores da ordem de R$ 13 bilhões, a crise ficou escancarada.

Agora, a crise da Raízen preocupa tanto o governo como o setor agropecuário brasileiro, pela posição estrutural da empresa em várias cadeias econômicas — combustíveis, açúcar, etanol, bioenergia, logística e exportações —, e uma redução de investimentos ou uma condição prolongada de instabilidade pode impactar negativamente vários outros segmentos econômicos, como o processamento de cana-de-açúcar, a influência no mercado internacional de açúcar, a distribuição de combustíveis, os investimentos estratégicos em bioenergia e a exposição do sistema financeiro.

Por outro lado, o imbróglio da Raízen deve igualmente servir de advertência para a Petrobras, que está destinando a tecnologias da “transição energética” recursos desviados do seu próprio core business. Em um artigo publicado no sítio da Associação dos Engenheiros da Petrobras (AEPET), o presidente da entidade, Felipe Coutinho, escreveu:

“O caso da Raízen expõe uma verdade inconveniente para os entusiastas da transição energética a qualquer custo: negócios insustentáveis não perduram, mesmo quando camuflados de verde. Na Raízen, o nó se apertou com os pesados aportes em etanol de segunda geração e outras fontes renováveis que prometiam revolucionar o setor, mas entregaram prejuízos. Na Petrobrás, o roteiro ameaça se repetir em escala monumental. Enquanto a empresa modera investimentos em seu core business, apressa anúncios de novos planos de transição, o Plano de Negócios 2026-2030 reserva cifras bilionárias para exatamente os mesmos tipos de armadilhas nas quais a Raízen caiu (“O alerta da Raízen e o caminho perigoso da Petrobrás nas renováveis” — AEPET, 11/03/2026).”

A advertência vale não só para a Petrobras, mas para o País como um todo, como uma amostra dos efeitos combinados da opção preferencial pelo rentismo como política de Estado, hegemônica na Nova República, e da ilusória meta de converter o Brasil numa “potência verde”, prestadora de serviços ambientais ao mundo, em troca de não menos enganosos investimentos carimbados como sustentáveis.

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