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A Revolução Russa costuma ser apresentada como um divisor de águas político e ideológico do século 20, responsável por criar o primeiro Estado socialista da História. Em A Tragédia de um Povo: A Revolução Russa, 1891–1924, obra monumental do historiador britânico Orlando Figes, agora relançada no Brasil, essa narrativa é deslocada para um terreno muito mais incômodo.
Para além de partidos, líderes e doutrinas, Figes sustenta que a revolução foi, acima de tudo, uma catástrofe humana. No centro dessa tragédia recorrente está a fome — não como um acidente episódico, mas como uma força estrutural que moldou decisões políticas, destruiu laços sociais e empurrou milhões de pessoas aos limites da condição humana.
Ao longo de mais de três décadas de crise contínua, do final do Império czarista aos primeiros anos do regime soviético, a Rússia foi devastada por sucessivos surtos de escassez alimentar. Essas fomes não podem ser explicadas apenas por fatores naturais. Secas, geadas e pragas existiram, mas o impacto letal decorreu sobretudo de políticas estatais desastrosas, guerras prolongadas, desigualdades estruturais e de um desprezo sistemático pela vida. Para Figes, a fome não foi um pano de fundo da história russa: ela foi um de seus motores centrais.
Entre 1891 e 1922, milhões morreram não apenas de inanição, mas também em função das epidemias, da violência e do colapso social desencadeado pela escassez. Esses episódios corroeram a confiança no Estado, radicalizaram a população e criaram as condições que levaram a sociedade russa da autocracia czarista ao totalitarismo soviético. A trajetória revolucionária, tal como Figes a reconstrói, é inseparável desse sofrimento material extremo.

O primeiro grande choque ocorreu com a fome de 1891–1892. Cerca de 36 milhões de pessoas, em 17 províncias, foram afetadas. Colheitas frágeis foram destruídas por secas prolongadas, geadas severas e tempestades. O desastre natural, porém, foi agravado de forma decisiva pelo Estado.
O ministro das Finanças, Ivan Vyshnegradsky, manteve a política de exportação de grãos para equilibrar as contas do Império, mesmo diante da escassez interna, sintetizando a lógica oficial com uma frase brutal: “Mesmo que morramos de fome, exportaremos grão”.
Mas o regime czarista evitou reconhecer a existência da fome, substituindo o termo por eufemismos como “colheita ruim”. Esse negacionismo atrasou o socorro e ampliou o sofrimento da população.
As consequências foram devastadoras: o gado morreu em massa, poços secaram, vilarejos inteiros colapsaram. Camponeses passaram a consumir o chamado “pão de fome”, feito de cascas de árvores, musgo, ervas daninhas e palha. Epidemias de cólera e tifo mataram cerca de 500.000 pessoas até o fim de 1892.
Figes descreve cenas perturbadoras: aldeias silenciosas, famílias abandonando suas casas com os poucos pertences restantes, crianças morrendo antes mesmo de usar as roupas enviadas como ajuda.
Em alguns vilarejos, todas as crianças sucumbiram. O desespero levou à violência contra médicos e autoridades sanitárias, acusados de espalhar doenças. Pela primeira vez, amplos setores da sociedade passaram a enxergar o Estado não como protetor, mas como cúmplice da miséria.
Essa fome acabou se tornando um divisor de águas político e moral. Redes de ajuda organizadas por intelectuais, médicos e escritores (como Tolstói e Tchékov) salvaram vidas, mas também funcionaram como escolas de radicalização.
Para muitos jovens, Lenin inclusive, 1891 foi a prova concreta de que o sistema czarista estava moral e estruturalmente falido. Ali germinaram as sementes do marxismo russo. As privações transformaram filas de pão em assembleias políticas improvisadas e foram decisivas para a eclosão da revolução de 1917. A fome urbana foi, nesse sentido, um catalisador direto da queda do regime.
Figes descreve sem concessões o fenômeno mais perturbador dessa fome: o canibalismo em escala generalizada
A Primeira Guerra aprofundou dramaticamente essa espiral de escassez. Entre 1914 e 1917, a fome assumiu a forma de um colapso gradual, em câmera lenta. O Estado entrou em um conflito prolongado sem preparo logístico: faltavam botas, roupas de inverno e alimentos.
As ferrovias, sobrecarregadas pelo esforço militar, deixavam grãos apodrecerem nos armazéns, enquanto as cidades passavam fome. O controle de preços desestimulou os camponeses a vender sua produção, enquanto a inflação corroía os salários urbanos.
Em Petrogrado, trabalhadores passavam até 40 horas por semana em filas por pão. A ingestão calórica despencou, a mortalidade infantil dobrou, o crime e a prostituição explodiram. Hospitais superlotados acomodavam feridos deitados no chão encharcado de sangue; refugiados famintos espalhavam doenças por toda parte.
No front, soldados marchavam descalços sobre o gelo, preferindo muitas vezes a morte às rações podres que recebiam. Deserções em massa e automutilações se tornaram comuns. Gorky descreveu crianças prostitutas “azuis de frio e fome, rastejando como baratas”.
A situação se deteriorou ainda mais durante a Guerra Civil (1918–1920). O Comunismo de Guerra instituiu requisições forçadas de grãos, frequentemente realizadas à mão armada. As cidades ficaram desertas: Petrogrado perdeu metade de sua população.
Cadáveres de animais apodreciam nas ruas; móveis e livros eram queimados para aquecimento; zoológicos eram saqueados para alimentação. Crianças puxavam carrinhos como animais de carga, enquanto a prostituição infantil atingia níveis alarmantes.
No campo, a violência foi extrema. Vilarejos foram incendiados, camponeses que resistiam às requisições eram executados e bandos armados proliferaram. Epidemias dizimaram populações já famintas. A fome, nesse contexto, não apenas acompanhou a consolidação do poder bolchevique: ela se tornou um instrumento de dominação, imposto a um custo humano incalculável.
O auge do horror veio com a fome de 1921–1922. Uma combinação de secas severas, pragas naturais e requisições estatais que ultrapassavam os excedentes agrícolas levou à morte de cerca de cinco milhões de pessoas. Regiões inteiras do Volga e dos Urais mergulharam em um silêncio mortal. Pessoas passaram a comer grama, folhas, serragem, argila, esterco, gatos, cães e roedores. Milhões vagaram pelas estradas, morrendo em estações ferroviárias infestadas de tifo.
Figes descreve sem concessões o fenômeno mais perturbador dessa fome: o canibalismo em escala generalizada. Em diversas regiões, mães cozinhavam corpos de parentes mortos para alimentar os filhos sobreviventes. Cemitérios precisaram ser vigiados por guardas armados.
Houve casos de pais que mataram e comeram os próprios filhos, justificando-se com o argumento de que “suas almas já haviam partido”. Em alguns lugares, crianças se organizavam em bandos para matar adultos em busca de carne. O canibalismo, observa Figes, não nasceu da brutalidade gratuita, mas do instinto desesperado de preservar a vida dos que ainda respiravam.
Ao longo de A Tragédia de um Povo, Orlando Figes demonstra que a fome foi o fio condutor da experiência revolucionária russa. Ela destruiu laços sociais, corroeu a moral coletiva e expôs a falência de um Estado que, em nome da ordem ou da ideologia, sacrificou seu próprio povo. As lições do livro permanecem perturbadoramente atuais.





