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Marco Rubio fez uma declaração interessante após a captura (é captura mesmo, não sequestro, porque se trata de um criminoso) de Nicolás Maduro:
“Não precisamos do petróleo da Venezuela. Temos petróleo de sobra nos Estados Unidos. O que não vamos permitir é que a indústria petrolífera da Venezuela seja controlada por adversários dos Estados Unidos… Por que China, Rússia e Irã precisam do petróleo venezuelano? Eles nem sequer estão neste continente. Este é o Hemisfério Ocidental, é onde vivemos, e não vamos permitir que se torne uma base de operações para adversários, competidores e rivais.”
Essa fala não é uma análise econômica, mas política e estratégica. Ela sinaliza que a captura de Maduro vai muito além da punição a um regime autoritário ou da defesa de direitos humanos. Esses elementos servem, é claro, como legitimação moral, mas a essência da operação foi geopolítica: seu objetivo era conter a consolidação de um eixo antiamericano na América Latina, o que representaria uma ameaça direta aos interesses dos Estados Unidos.
Nesse sentido, a fala de Rubio representa a reativação explícita da Doutrina Monroe, em versão atualizada para os desafios do século 21. Ao mencionar o Hemisfério Ocidental, Rubio evoca o princípio estabelecido em 1823 pelo presidente James Monroe: a enfática rejeição à interferência de potências externas nos assuntos das Américas.
Originalmente formulada como um escudo defensivo contra o guloso colonialismo europeu (e, mais tarde, o expansionismo soviético), a Doutrina Monroe rapidamente evoluiu para um princípio mais abrangente: nenhuma potência rival deve usar a América Latina como plataforma de projeção de poder contra os Estados Unidos.
Ao longo do século 20, essa lógica sustentou intervenções diretas e indiretas, operações encobertas, mudanças forçadas de regime e ações militares abertas, sobretudo durante a Guerra Fria. O que muda agora é o contexto, porque o confronto deixou de ser binário: na Venezuela, em vez de um único adversário sistêmico, os Estados Unidos lidam com a presença simultânea de China, Rússia e Irã — cada qual com interesses distintos, mas convergentes no ataque à influência americana na região.
Com estabilidade institucional e investimentos adequados, a Venezuela pode voltar a ser um dos grandes fornecedores globais de petróleo
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É nesse cenário que surge o que analistas já estão chamando, de forma irônica, de “Doutrina Donroe”: uma fusão entre o legado monroísta e o estilo de Donald Trump. A estratégia de segurança nacional adotada a partir de agora deixa isso explícito, ao tratar influência estrangeira, narcotráfico, migração em massa e controle de recursos estratégicos como partes de um mesmo problema.
A Venezuela ocupa uma posição singular nessa equação. O país reúne três elementos centrais para a lógica da doutrina: detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, está em uma localização estratégica no Caribe — próxima às rotas marítimas e ao território americano — e mantém alinhamento político, econômico e militar com potências adversárias.
Sob Maduro, o país aprofundou a cooperação com Moscou, Pequim e Teerã em energia, financiamento, armamentos, inteligência e até presença militar. Claramente, isso ameaçava transformar a Venezuela em uma base antiamericana permanente no quintal dos Estados Unidos — algo visto como um erro histórico imperdoável.
Nesse contexto, o petróleo não é apenas uma commodity; é uma ferramenta de poder. As reservas venezuelanas representam um quinto do total mundial. Embora a produção atual esteja muito abaixo do potencial — desde o colapso econômico do país, a produção caiu de cerca de 3,5 milhões de barris por dia para menos de 1 milhão, devido a décadas de má gestão, corrupção endêmica e sanções externas — a capacidade de recuperação existe.
Com estabilidade institucional e investimentos adequados, a Venezuela pode voltar a ser um dos grandes fornecedores globais de petróleo. Declarações do próprio Donald Trump indicaram que o controle das reservas petrolíferas do país foi um fator decisivo na operação que prendeu Maduro.
A história da relação entre Estados Unidos e Venezuela sempre esteve ligada ao petróleo. Empresas americanas dominaram o setor durante a maior parte do século 20, até que vieram as nacionalizações promovidas por Hugo Chávez. Desde então, disputas judiciais, sanções e negociações marcaram essa relação, com perdas bilionárias para companhias ocidentais.
Com a remoção, na marra, de Maduro, Trump sinaliza a intenção de reabrir o setor à participação de empresas americanas e europeias, reconfigurando o mercado energético global. Estima-se que a Venezuela poderá rapidamente dobrar ou triplicar sua produção atual, inundando o mercado global e reduzindo preços, beneficiando consumidores americanos e prejudicando produtores rivais como Arábia Saudita, Rússia e Irã.
Ou seja, o petróleo é um elemento central nesse enredo, mas não é tudo: a captura de Maduro simboliza, principalmente, o retorno explícito a uma lógica segundo a qual a influência sobre o entorno estratégico dos Estados Unidos é inegociável.





