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Luciano Trigo

Luciano Trigo

A nova pirâmide

As bets e a financeirização da vida

As apostas não criaram a ganância. Só encontraram o terreno perfeito: um país que trocou trabalho por promessa de dinheiro instantâneo. (Foto: eGamingImagery/Pixabay)

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De tempos em tempos, a sociedade se deixa levar por uma nova ilusão de enriquecimento rápido: a corrida por ações, as bolhas imobiliárias, as pirâmides financeiras, a febre das criptomoedas. Hoje vivemos a explosão das plataformas de apostas esportivas, as bets online. Em um país onde os cassinos continuam proibidos, a indústria do jogo é provavelmente a que mais cresce. Por que uma sociedade inteira passou a enxergar as apostas com tanta naturalidade?

Nas últimas décadas, a economia deixou de se organizar prioritariamente em torno da produção para gravitar em torno das finanças. Essa mudança passou a orientar a forma como indivíduos, empresas e governos pensam o dinheiro: não mais como um instrumento para produzir riqueza ou aumentar a capacidade produtiva, mas como um ativo em si mesmo, capaz de gerar retorno rapidamente. O trabalho e o investimento de longo prazo perdem prestígio diante da promessa do ganho instantâneo. A velocidade se torna mais importante que a construção.

À medida que as oportunidades de rentabilidade rápida se tornam mais escassas, essa lógica avança sobre dimensões cada vez mais íntimas da vida cotidiana. Ela passa a ocupar espaços que antes pertenciam ao entretenimento, ao esporte, às redes sociais e à própria expectativa de ascensão social.

O lazer deixa de ser consumo e passa a funcionar como plataforma de captura de renda, e as bets são a expressão mais acabada dessa transformação. Elas não produzem bens nem aumentam a produtividade da economia. Seu negócio consiste em captar milhões de pequenas apostas e convertê-las em um fluxo permanente de receitas.

Se, no passado, especular era uma atividade confinada às bolsas de valores, aos bancos de investimento ou aos operadores profissionais, hoje qualquer intervalo de 5 minutos pode ser transformado em uma operação de risco. O mesmo celular usado para pagar contas, pedir comida ou conversar com a família oferece, o tempo inteiro, a possibilidade de apostar em um escanteio, um cartão amarelo ou no resultado de uma partida disputada do outro lado do planeta.

As plataformas de apostas compreenderam melhor do que ninguém essa mudança. Cada clique, cada vitória e cada derrota alimentam sistemas desenhados para estimular novas tentativas, prolongando indefinidamente a permanência do apostador. A atenção do usuário se torna ativo econômico, enquanto sua expectativa de lucro se converte em fonte permanente de receita.

Não por acaso, o esporte se revelou o ambiente ideal para esse modelo de negócio. Ao contrário dos cassinos, que exigem deslocamento físico e um momento específico de consumo, o futebol já fazia parte da rotina de milhões de brasileiros. As plataformas não precisaram criar um novo hábito, bastou converter uma paixão nacional em uma oportunidade permanente de especulação.

A arrecadação entra rapidamente nos cofres públicos. Já o endividamento das famílias, a compulsão pelo jogo, os problemas de saúde mental e a desestruturação financeira de milhares de lares só aparecem lentamente

Essa transformação altera a maneira como as pessoas se relacionam com a própria renda. Até não muito tempo atrás, a poupança das famílias costumava ser direcionada para objetivos previsíveis: comprar um imóvel, investir na educação dos filhos, abrir um pequeno negócio ou adquirir bens duráveis. Hoje, uma parte crescente desse dinheiro é drenada por atividades que prometem multiplicação rápida do patrimônio.

Mais do que criar um novo mercado, as bets ajudaram a formar um novo tipo de indivíduo. A renda deixa de ser percebida como resultado do trabalho e passa a ser vista como matéria-prima para operações de risco. O salário se transforma em banca; o orçamento doméstico, em capital de giro; o futuro, em probabilidade estatística. A aposta deixa de ser uma exceção para se tornar uma maneira de pensar a própria vida.

O problema é que o dinheiro destinado às apostas deixa de circular na economia local. Quando uma família compra um eletrodoméstico ou frequenta um restaurante, os recursos percorrem empresas, fornecedores e trabalhadores. Nas plataformas de apostas, todo o dinheiro vai para as mãos dos grandes operadores, nacionais e internacionais, reduzindo seu efeito multiplicador sobre a atividade econômica e sua capacidade de estimular investimento produtivo, consumo e geração de emprego.

Por sua vez, em busca permanente de novas formas de arrecadação, o governo enxerga nas bets uma oportunidade de ampliar a base tributária. Ao priorizar a arrecadação, relega a segundo plano os custos sociais. Mas existe um descompasso perigoso entre receitas e consequências. A arrecadação entra rapidamente nos cofres públicos. Já o endividamento das famílias, a compulsão pelo jogo, os problemas de saúde mental e a desestruturação financeira de milhares de lares só aparecem lentamente.

Durante décadas, o jogo de azar ocupou um espaço marginal na sociedade brasileira, cercado de restrições legais e reservas morais. Hoje é um produto de consumo como qualquer outro.

O futebol se tornou basicamente uma vitrine permanente das plataformas de apostas. Clubes, campeonatos, narradores, influenciadores e ex-jogadores ajudam a incorporar as bets ao cotidiano. Quando uma atividade ocupa todos os espaços da cultura popular, ela deixa de parecer errada e ganha aparência de normalidade. A repetição produz familiaridade, e a familiaridade reduz a percepção do risco.

Quando o ganho imediato passa a parecer mais atraente do que a construção paciente da riqueza, o jogo deixa de ser exceção para se tornar uma expressão da cultura econômica do nosso tempo. As apostas não criaram essa mentalidade; apenas encontraram nela o ambiente perfeito para prosperar.

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