Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Luciano Trigo

Luciano Trigo

Eleições 2026

E se Flávio ganhar a eleição?

Uma possível vitória do filho de Jair Bolsonaro traria enorme constrangimento para o STF. (Foto: Imagem criada com ChatGPT)

Ouça este conteúdo

Uma pesquisa Futura/Apex divulgada ontem indica que o senador Flávio Bolsonaro derrotaria Lula em um eventual segundo turno na eleição para presidente: neste cenário, Flávio aparece com 48,1% das intenções de voto, e Lula com 41,9% – uma diferença de 6,2 pontos. Seguramente, esta ascensão meteórica de Flávio não estava nos planos do sistema.

A hipótese de uma vitória de Flávio Bolsonaro já deixou de ser mera especulação ociosa. Ela funcionaria como um teste de estresse do sistema político brasileiro, tal como ele se consolidou nos últimos anos: um arranjo marcado pela hipertrofia do Judiciário; pela tutela permanente da política pelo STF; pela aliança orgânica entre lulopetismo, grande mídia e setores do establishment financeiro; e por uma direita que, apesar do imenso apoio popular, ainda atua sob severo cerco institucional e simbólico.

Flávio presidente representaria um choque de realidade. Não porque ele encarne um projeto revolucionário ou um rompimento radical com a ordem vigente, mas porque sua vitória significaria a rejeição explícita, pelo voto, do consenso artificial que se instalou no país após 2022.

Se acontecer, será a demonstração de que a tentativa de exterminar politicamente um movimento inteiro por meio de decisões judiciais expansivas, censura indireta e controle do debate público fracassou miseravelmente. A sociedade terá dito “não” à ideia de que certos campos políticos podem ser excluídos do jogo democrático por decisão administrativa.

É chover no molhado dizer que o STF há muito tempo deixou de atuar apenas como Corte constitucional. Tornou-se poder moderador informal, árbitro permanente e, em diversos momentos, protagonista direto da política brasileira.

Críticos da Corte argumentam que ela se transformou em um supergoverno, interferindo de forma recorrente em políticas do Executivo e do Legislativo. Inevitavelmente, a vitória de Flávio Bolsonaro colocaria no centro do debate público a revisão do papel do Supremo.

O confronto institucional seria difícil de evitar: de um lado, um Judiciário acostumado não apenas a governar, mas a governar por liminares, inquéritos intermináveis e decisões monocráticas; de outro, um presidente eleito com um discurso claro de contenção de abusos, respeito à separação de Poderes e crítica ao ativismo judicial. Trata-se de um conflito arriscado, mas necessário para uma democracia que precisa rediscutir suas regras.

Além das indicações de ministros decorrentes da abertura de novas vagas, uma eventual vitória de Flávio poderia impulsionar propostas de reforma constitucional para limitar os poderes do STF, como mandatos fixos para ministros ou restrições a decisões monocráticas. Uma administração Flávio tenderia a defender mecanismos de accountability judicial, buscando restaurar algum equilíbrio institucional.

No campo econômico, os efeitos seriam provavelmente menos dramáticos do que muitos preveem. O mercado financeiro brasileiro já demonstrou, em diferentes momentos, notável capacidade de adaptação retórica.

Basta lembrar que o mesmo sistema que hoje se apresenta como guardião da democracia conviveu, por anos, com escândalos de corrupção e governos marcados por intervencionismo, contabilidade criativa e expansão irresponsável do gasto público.

Flávio Bolsonaro tende a sinalizar compromisso com responsabilidade fiscal, previsibilidade e respeito a contratos — valores que, no fundo, interessam mais ao mercado do que slogans ideológicos. O ruído inicial daria rapidamente lugar ao pragmatismo.

A vitória de Flávio seria a prova de que o eleitor brasileiro não aceita ser tutelado indefinidamente - nem por juízes, nem por jornalistas, nem por intelectuais iluminados

Em contraste com o lulopetismo, uma eventual era Flávio privilegiaria eficiência sobre redistribuição retórica, apostando no crescimento como vetor indireto de redução das desigualdades. Para o empresariado produtivo, especialmente fora do eixo estatal-financeiro, essa vitória representaria alívio. Banqueiros poderiam se beneficiar de uma agenda de simplificação regulatória; os exportadores veriam com bons olhos cortes tributários e maior abertura econômica.

O lulopetismo retornou ao poder com uma agenda que combina nostalgia desenvolvimentista, aumento da carga tributária travestido de justiça social e reabilitação de práticas de dirigismo econômico. Um governo Flávio tenderia a oferecer maior abertura ao investimento privado, menos obstáculos ao empreendedorismo e uma relação menos ideológica com quem produz. Não seria um paraíso liberal, mas, seguramente, o ambiente seria bem menos hostil à atividade produtiva.

Na política, a polarização não desapareceria — mas deixaria de ser administrada de cima para baixo por tribunais, editoriais lacradores e agências de checagem virtuosas. O sistema perderia seu principal ativo simbólico: a narrativa de que o lulopetismo representa a única normalidade democrática possível diante de uma ameaça autoritária permanente. Com Flávio eleito, essa narrativa entra em curto-circuito. O “fascismo iminente” terá vencido nas urnas, pela vontade do povo — e o mundo não terá acabado.

No campo partidário, o impacto pode ser profundo. O PT tende a enfrentar fragmentação interna, sendo forçado a se reinventar ou a radicalizar ainda mais seu discurso. A direita, por sua vez, sairia da defensiva crônica em que se encontra desde 2019. Uma vitória de Flávio consolidaria o campo conservador como força legítima, eleitoralmente viável e institucionalmente duradoura, abrindo espaço para amadurecimento programático, renovação de lideranças e menor dependência de figuras messiânicas. Isso fortaleceria a democracia.

Na grande mídia, o efeito seria quase terapêutico. Veículos que se converteram em braços informais do sistema nos ataques ao bolsonarismo terão de escolher entre a militância explícita e a recuperação mínima de credibilidade junto ao cidadão comum. No curto prazo, são previsíveis análises histéricas, editoriais apocalípticos e manchetes indignadas.

Com o tempo, porém, a realidade tende a se impor: talvez parte da imprensa descubra até que é possível sobreviver sem acesso privilegiado ao poder - e, quem sabe, reaprenda até o valor da confiança dos leitores.

Na chamada guerra cultural, o impacto seria significativo. Um governo Flávio Bolsonaro nem precisa promover cruzadas morais explícitas para desmontar a hegemonia progressista. Basta fazer o Estado se recolher do papel de patrocinador de uma visão única de mundo.

Menos aparelhamento cultural, menos financiamento militante, menos uso de políticas públicas como instrumentos pedagógicos ideológicos. Menos hegemonia. A pluralidade de ideias, opiniões políticas  e visões de mundo voltaria a ter alguma chance de existir de fato.

Para que tudo isso seja possível, contudo, é necessário que a eleição seja limpa e transparente – não apenas na contagem de votos, naturalmente, mas também na conduta isonômica da Justiça Eleitoral e da mídia ao longo na campanha. Dificilmente a sociedade demonstrará paciência diante de decisões arbitrárias que beneficiem apenas um lado, ou de uma grande mídia e de uma Justiça eleitoral abertamente parciais e partidárias. As consequências da destruição total da credibilidade do processo eleitoral seriam terríveis.

Por fim, no plano simbólico, Flávio presidente representará algo profundamente incômodo para o establishment: Será um lembrete de que a democracia se fortalece ainda mais quando o resultado das urnas desagrada às elites políticas e culturais.

A vitória de Flávio Bolsonaro não encerraria conflitos. Mas representaria o fim da farsa do consenso. E talvez seja exatamente disso que o Brasil mais precise agora.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.