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A pergunta deveria ser natural diante da eliminação precoce do Brasil na Copa: faz sentido insistir em Carlo Ancelotti para mais um ciclo? A resposta deveria ser não. O Brasil precisa encerrar imediatamente esse capítulo e iniciar outro. Mas sob o comando de quem?
Alguns dirão que trocar de treinador logo após uma eliminação demonstra falta de planejamento. Mas planejar também significa avaliar resultados e corrigir rumos, quando necessário.
Portugal compreendeu isso rapidamente. Após a eliminação para a Espanha, a federação portuguesa não perdeu tempo: dispensou Roberto Martínez e anunciou Jorge Jesus, iniciando imediatamente a preparação para o próximo ciclo, sem hesitação.
Quando um projeto fracassa, é preciso ter coragem para mudar. Ancelotti chegou à seleção cercado por uma aura quase mística. A CBF vendeu ao torcedor a ideia de que bastaria trazer o melhor treinador de clubes do mundo para que o futebol brasileiro reencontrasse seu caminho.
A Copa mostrou o contrário. A derrota para a Noruega nas oitavas de final — um dos piores desempenhos do Brasil em Copas — foi consequência de um trabalho que nunca conseguiu transformar um grupo de excelentes jogadores em uma verdadeira equipe.
Apesar do currículo invejável nos clubes da Europa, Ancelotti não conseguiu incorporar a identidade brasileira. Seu estilo cauteloso e conservador se mostrou incompatível com o talento explosivo e ofensivo dos nossos jogadores. O Brasil apresentou um futebol burocrático, previsível e medroso. Faltaram intensidade, criatividade e capacidade de reagir quando o plano inicial fracassava.
É verdade que Ancelotti teve pouco tempo. Mas técnicos são contratados — a peso de ouro, diga-se de passagem — justamente para superar obstáculos. Além disso, outras seleções conseguiram campanhas melhores com treinadores contratados menos de dois anos antes da Copa, como Inglaterra e Marrocos.
Além disso, treinar uma seleção — experiência que Ancelotti não tinha — é muito diferente de treinar clubes. O técnico precisa entender a personalidade de cada jogador e extrair seu rendimento em pouco tempo de convivência. Mas quem reuniria essas características?
Se o técnico do Brasil fosse escolhido em eleições diretas, como o presidente da República, meu candidato seria Renato Portaluppi, o Renato Gaúcho. Sua maior virtude talvez nem seja tática, mas humana. Renato cria identificação imediata com seus jogadores, inspirando confiança, leveza e comprometimento. Em uma seleção, essa capacidade de motivar e mobilizar vale quase tanto quanto qualquer esquema de jogo.
Se o técnico do Brasil fosse escolhido em eleições diretas, como o presidente da República, meu candidato seria Renato Gaúcho
Renato é conhecido por promover um futebol ofensivo e intenso, que valoriza o talento natural dos atletas sem abrir mão da organização coletiva. Nunca fugiu da pressão: sabe lidar com a imprensa, protege seus jogadores e compreende, como poucos, o peso simbólico da camisa da seleção.
Seus times sempre combinaram organização defensiva, transições rápidas e liberdade para os jogadores de frente. Foi assim no Grêmio campeão da Libertadores e da Copa do Brasil e, antes disso, no Fluminense campeão da Copa do Brasil. Esse modelo parece muito mais adequado às características dos jogadores brasileiros do que o jogo controlado e posicional que Ancelotti tentou implementar, sem sucesso.
Há ainda um elemento impossível de medir estatisticamente: identidade. Nas últimas décadas, criou-se no Brasil uma espécie de complexo de inferioridade em relação aos técnicos europeus. A contratação de Ancelotti simbolizou essa mentalidade. A Copa de 2026 deveria servir, ao menos, para desmontar esse mito.
Prestígio internacional não compensa a falta de resultados. Seleções nacionais não vivem de biografias, mas do que conseguem produzir em campo. Renato nunca venceu uma Liga dos Campeões, mas conhece profundamente o ecossistema do futebol brasileiro. Sabe extrair rendimento de jogadores talentosos, administrar egos e criar ambientes vencedores. Sua contratação enviaria uma mensagem importante: a de que a Seleção voltou a confiar em sua própria escola e em sua cultura futebolística.
Depois do fracasso na Copa, o Brasil precisa menos de um nome consagrado e mais de um comandante capaz de devolver alma à seleção. Nenhum treinador oferece garantia de título, é claro. Renato também não. Mas ele pode oferecer identidade, liderança, conhecimento do futebol brasileiro e capacidade de reconstruir rapidamente uma equipe abatida.
O próximo técnico da seleção terá a difícil missão de unir talento, planejamento e paixão. Renato Gaúcho pode ser o nome que traduz essa síntese — a esperança de que o Brasil volte a ser não só gigante pela camisa e pelo passado, mas também pela forma inteligente e viva como joga. E a hora de mudar é agora.
E você, leitor, o que pensa? Escreva nos comentários em quem você votaria para técnico da seleção e por quê.
PS. Esta é minha terceira e última coluna sobre a Copa. Na próxima, prometo voltar a falar sobre o que realmente importa.

Luciano Trigo é jornalista e escritor, autor de "Guerra de narrativas - A crise política e a luta pelo controle do imaginário" (2018) e "O ano em que a Terra parou - Polarização da política e a escalada da insanidade" (2021). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




