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Episódios de uma guerra estranha (2)
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“Uma lésbica é transfóbica se ela não quer fazer sexo com mulheres trans?”

Assim começa a reportagem “As lésbicas acusadas de transfobia por recusarem sexo com mulheres trans”, publicada no site da BBC na semana passada. A jornalista Caroline Lowbridge entrevistou várias mulheres homossexuais do Reino Unido que afirmaram estar sendo cada vez mais “pressionadas e coagidas a aceitar mulheres trans como parceiras”. Quando recusam, são desqualificadas, ameaçadas e agredidas.

Um dos depoimentos colhidos foi o de Jenny:

"Ouvi uma pessoa dizer que preferia me matar do que matar Hitler, só porque eu não faço sexo com mulheres trans. Disse que me estrangularia com um cinto, se estivesse em uma sala comigo e Hitler. Isso foi bizarramente violento”.

Segundo a repórter que assina a matéria, Jenny é uma mulher lésbica que afirma só sentir atração sexual por “mulheres biologicamente femininas e com vaginas”. Ela só tem relações sexuais e relacionamentos afetivos, portanto, com pessoas assim. Por conta disso, ela foi acusada de ser “transfóbica, fetichista genital, pervertida e "terf" [feminista radical trans-excludente].

Sempre segundo a autora da reportagem, Jenny e muitas outras mulheres estão sendo pressionadas a "aceitar a ideia de que um pênis pode ser um órgão sexual feminino". Realmente, é uma ideia difícil de aceitar.

Outra entrevistada, Amy, afirmou ter sofrido “abuso verbal de sua própria namorada, uma mulher bissexual que queria que elas fizessem um ménage à trois com uma mulher trans”. Foi acusada de “separatismo lésbico trans-excludente”: "A primeira coisa que ela me chamou foi de transfóbica".

Pois bem, como escrevi no artigo de sábado,

pessoas adultas são livres para desejar e fazer as escolhas sexuais que quiserem, desde que de forma responsável, sem constranger ninguém e sem ferir nenhuma lei. Este é um direito.

O problema de uma sociedade dividida em grupos identitários – que perseguem não direitos iguais, mas direitos especiais para o nicho a que pertencem – é que os direitos particulares de cada grupo irão inevitavelmente se chocar com os direitos das pessoas que não pertencem ao mesmo nicho – ainda que pertençam a outros grupos identitários.

E, por óbvio, questionar o identitarismo não significa dizer que não existem na sociedade desigualdade, injustiça e diferentes tipos de discriminação. Tudo isso existe e deve ser combatido.

Mas o que a reportagem da BBC demonstra é que, sem o reconhecimento de uma essência comum que torna todos os seres humanos semelhantes, por diferentes que sejam em suas escolhas, identidades e origens, o convívio em sociedade fica muito difícil. Aliás, em um mundo com direitos diferenciados e sem valores compartilhados, quem teria autoridade ou “lugar de fala” para julgar o caso de Jenny e Amy, as lésbicas ou as mulheres trans?

Os oprimidos tomam o lugar dos opressores, repetem as suas piores práticas e adotam a mesma premissa da sociedade patriarcal que afirmam combater: a de que pessoas devem ser tratadas de formas diferentes com base em sua identidade e sua origem

A dificuldade começa quando a meta deixa de ser uma sociedade harmônica, onde todos tenham os mesmos direitos e se tratem com respeito, e passa a ser uma sociedade dividida em grupos que se odeiam e que buscam um tratamento especial às custas dos direitos dos outros. Nesse caso, os oprimidos tomam o lugar dos opressores, repetem as suas piores práticas e adotam a mesma premissa da sociedade patriarcal que afirmam combater, qual seja, a de que pessoas devem ser tratadas de formas diferentes com base em sua identidade e sua origem.

Nesse ambiente, pouco importa se Jenny não sente desejo por mulheres trans: do ponto de vista das mulheres trans que a acusaram, agrediram e ameaçaram, Jenny está sendo transfóbica e merece ser cancelada pelo simples fato de se recusar a fazer sexo. Mesmo sendo lésbica, Jenny é a opressora, e para deixar de ser opressora ela tem obrigação de fazer sexo com mulheres trans.

Já em 2018, em meu livro “Guerra de narrativas – A crise política e a luta pelo controle do imaginário”, eu escrevi o seguinte sobre o processo de esgarçamento do tecido social:

“Vivemos um cenário de histeria coletiva, no qual a disputa entre “nós” e “eles” atingiu um patamar inédito. Agora são “todos contra todos”: minorias contra minorias, gêneros contra gêneros, raças contra raças, sexualidades contra sexualidades, esquerdas contra esquerdas, direitas contra direitas, as elites contra as elites, o povo contra o povo.”

De lá para cá a coisa só piorou.

Outro sinal desse processo de balcanização deliberada da sociedade, que gera uma atmosfera irrespirável de animosidade, embrutecimento e ressentimento, é a luta fratricida das mulheres, exemplificada pelo recente lançamento de livros como “Feminismo branco – Das sufragistas às influenciadoras, e quem elas deixam para trás”, de Koa Beck, e “Contra o feminismo branco”, de Rafia Zakaria (que alias é muçulmana): na contracapa deste último se lê o seguinte, em letras garrafais: “Chegou a hora de extirpar a supremacia branca de dentro do feminismo”.

Zakaria crítica a “adesão do feminismo branco ao patriarcado, à lógica colonial e à supremacia branca”, e dessa crítica não escapam nem mesmo a escritora feminista Simone de Beauvoir e o seriado “Sex and the City”. Já Koa Beck aponta o dedo para a “imagem branca, hétero, cisgênero e de classe média alta” do feminismo. Aliás, nesse processo de fragmentação do feminismo, que dificilmente contribui para o êxito da causa comum, já existe também um movimento chamado “feminismo trans” (“Transfeminsm”), cujo símbolo ilustra este artigo.

Ou seja, apropriado por um grupo, o feminismo deixa de ser uma luta de todas as mulheres por igualdade de direitos no presente e no futuro para se tornar um ajuste de contas com o passado: em vez de darem as mãos e se unirem em torno do objetivo comum, mulheres apontam o dedo para outras mulheres com base em critérios de etnia, classe social e orientação sexual.

Evidentemente, esse tipo de ajuste de contas jamais terá fim, porque todas as injustiças cometidas contra todos os grupos minoritários em milênios de História vão ter que entrar na conta. A se persistir nesse caminho, a consequência inevitável será uma sociedade cada vez mais dividida pelo ressentimento, pelo ódio e pelo desejo de vingança que estão na raiz da cultura da patrulha, da censura e do cancelamento que se consolida tristemente entre nós.

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