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Muito se falou sobre a Lei Felca e a adultização precoce das crianças. Mas outro fenômeno mereceria ainda mais atenção, pelo impacto profundo que tem na sociedade: o projeto de infantilização dos adultos, que parece estar sendo promovido de forma deliberada pelo Estado brasileiro.
Trata-se de uma engenharia institucional sofisticada que transforma cidadãos maduros em eternos dependentes, como se fossem filhos que nunca saem de casa. O resultado é uma geração de adultos biologicamente crescidos, mas psicologicamente infantis: indivíduos que temem a liberdade tanto quanto a criança teme o escuro.
Uma criança depende materialmente dos pais e é por eles orientada, corrigida e disciplinada. Dela não se espera autonomia plena, mas obediência e submissão. Quando este modelo é replicado em escala nacional, surge o adulto infantilizado: alguém que prefere a segurança da tutela estatal à incerteza de assumir responsabilidades. Convertido em “filho eterno”, ele recebe mesada, obedece às regras impostas “para o seu bem” e aprende que qualquer problema deve ser resolvido pelo “pai” Estado, e não pelo seu esforço pessoal.
O adulto infantilizado é alguém que prefere a segurança da tutela estatal à incerteza de assumir responsabilidades
O custo social dessa dinâmica é alto. Aos poucos vai se consolidando uma cultura de acomodação, na qual empreender é visto como tolice, e o emprego formal, como armadilha. O risco é substituído pela proteção e o mérito, tratado com desconfiança. A pobreza deixa de ser combatida com seriedade e passa a ser gerenciada, com o propósito de manter o eleitor cativo.
Esse processo alimenta a cultura da vitimização. Constantemente lembrado de sua vulnerabilidade, o indivíduo passa a se ver mais como vítima das circunstâncias do que como agente de transformação. A responsabilidade pessoal dá lugar à reivindicação permanente por direitos. Em vez de “eu conquisto”, instala-se o “eu mereço”. Todos os fracassos são atribuídos ao “sistema”, aos “ricos” ou ao “mercado”.
O processo de infantilização avança por dois caminhos principais: a dependência econômica e a tutelagem regulatória.
A dependência econômica é o primeiro pilar. É claro que políticas sociais são necessárias em um país com tanta desigualdade: o problema está na forma como essas políticas são desenhadas, ampliadas e instrumentalizadas politicamente. Dados recentes mostram que quase metade da população brasileira vive em lares que recebem algum tipo de transferência direta do governo.
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O que era para ser assistencialismo emergencial se tornou uma rede permanente de manutenção de lealdade política. O beneficiário aprende, já na escola – que muitos estudantes já são pagos para frequentar –, que o Estado é o provedor supremo. O esforço, a resiliência e a disposição para prosperar e enfrentar desafios perdem força diante da garantia de um repasse mensal.
Durante a pandemia, aliás, o Auxílio Emergencial demonstrou com clareza como é fácil criar dependência em massa. Milhões de pessoas que nunca tinham recebido nada do governo passaram a considerar o depósito mensal como um direito natural. Passada a pandemia, quando o auxílio, como estava previsto, terminou, a pressão por sua volta foi imediata – e eleitoralmente eficaz.
O segundo pilar é a tutelagem regulatória. Sob o pretexto de proteger, educar ou garantir o bem-estar das pessoas, o Estado multiplica normas, restrições e comandos que invadem todos os aspectos da vida privada. Não basta ao Estado prover: ele quer decidir o que cada um pode comer, dizer, consumir, pensar ou sentir.
O cidadão adulto é tratado como incapaz de gerir a própria vida. A linguagem é policiada, comportamentos banais são normatizados, e escolhas pessoais são reinterpretadas como questões de interesse público. Essa interferência constante cria uma massa de indivíduos economicamente vulneráveis e psicologicamente condicionados a aceitar, ou ao menos tolerar, decisões que antes seriam contestadas.
Não basta ao Estado prover: ele quer decidir o que cada um pode comer, dizer, consumir, pensar ou sentir
A Lei Felca, embora legítima em sua intenção de proteger crianças da adultização precoce, exemplifica bem esse espírito intervencionista. Ela reforça a ideia de um Estado superpai que vigia, orienta e decide por todos. A liberdade de escolha, marca da maturidade, é gradualmente substituída pela proteção coercitiva. O indivíduo é desautorizado como sujeito moral, e o Estado assume o papel de tutor onipresente.
Essa infantilização fragiliza as instituições democráticas, porque o debate político se deteriora e se transforma em uma briga de irmãos pela atenção do pai-Estado. Mas a democracia exige cidadãos capazes de tomar decisões informadas, avaliar riscos e assumir consequências – o que não acontece quando o eleitor é tratado como alguém que precisa ser permanentemente guiado pela mão.
Tão importante quanto impedir que crianças se tornem adultas precocemente é evitar que adultos permaneçam crianças para sempre. O Estado precisa deixar de atuar como pai. O povo precisa deixar de se comportar como filho. É hora de crescer.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos









