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Em 26 de setembro de 1960, a política entrou definitivamente na era da televisão. Naquela noite, 70 milhões de americanos acompanharam o primeiro debate presidencial transmitido ao vivo nos Estados Unidos, entre o candidato democrata John Kennedy e o republicano Richard Nixon.
Kennedy apareceu bronzeado, exalando disposição e juventude. Olhava diretamente para a câmera e transmitia segurança e vitalidade. Nixon, que se recuperava de problemas de saúde, estava pálido, tinha perdido peso e suava sob os refletores. Sua expressão cansada acentuava seu desconforto. A televisão criou entre os dois um abismo de percepção. A diferença de idade entre eles era de apenas quatro anos: Kennedy tinha 43; Nixon, 47. Mas, diante das câmeras, eles pareciam pertencer a gerações diferentes.
Naquela noite, a política deixou de ser apenas uma disputa de argumentos para se tornar também uma competição de imagens. Conhecer os assuntos, demonstrar experiência e defender boas ideias já não bastava: era preciso transmitir energia, segurança e capacidade de conduzir o país no futuro.
Kennedy não venceu a eleição de 1960 apenas por parecer mais jovem diante das câmeras. Mas aquele confronto deixou uma lição duradoura: em debates na TV, a imagem não é um ornamento acrescentado à política. Ela participa diretamente da formação do julgamento do cidadão comum.
A íntegra do debate entre Kennedy e Nixon está disponível no YouTube.
Mais de seis décadas depois, uma diferença de idade muito real, e não apenas aparente, pode pesar muito em termos de percepção. Nos debates na TV, o adversário mais duro para Lula não será Flávio, 36 anos mais jovem. Será o tempo, que é cruel para todos. Prestes a completar 81 anos, Lula terá o desafio de enfrentar as exigências físicas e cognitivas de um confronto prolongado, sob refletores, sem poder errar.
Aos 45, Flávio pode tirar proveito de um contraste que dispensa argumentos. Lula não precisa demonstrar incapacidade para que um sinal de cansaço se transforme em desvantagem eleitoral. E Flávio não precisa vencer todos os argumentos: basta transmitir uma impressão persistente de energia e clareza para ser associado à mudança e à renovação.
Os riscos para Lula começam no próprio formato do debate. Permanecer em pé durante duas horas exige resistência física, concentração prolongada, rapidez de raciocínio e controle emocional. Uma situação de pressão física e psicológica prolongada pode comprometer a fluidez da fala, reduzir a paciência e dificultar a elaboração das respostas para qualquer pessoa em idade avançada, não apenas Lula. É uma questão biológica, não ideológica.
Se Lula já demonstrou dificuldades nos debates de 2022, quatro anos a mais podem tornar o desafio ainda maior. É uma questão biológica, não ideológica
A televisão privilegia aquilo que o espectador consegue perceber de imediato. Lula tem experiência e décadas de prática diante de plateias, mas as plateias também mudaram. Em uma disputa marcada por uma diferença geracional tão acentuada, a maneira como cada candidato aparece na tela pode influenciar a percepção do eleitor tanto quanto o conteúdo de suas respostas.
Há ainda o peso da responsabilidade de governar. Lula terá de responder pelo que prometeu na campanha passada, pelo que realizou e, sobretudo, pelo que não fez. Flávio, por sua vez, poderá questioná-lo sem carregar o ônus direto de estar gerindo um país insatisfeito. A vantagem é de quem cobra. E há muito a cobrar, sobretudo nos quesitos segurança e supermercado. Os escândalos do Banco Master e do INSS e a “promiscuidade” de amigos supremos (a palavra é do próprio Lula) também serão fardos pesados para Lula, se Flávio fizer as perguntas certas.
Se Lula já demonstrou dificuldades nos debates de 2022, quando em alguns momentos pareceu cansado e não soube administrar o tempo disponível, quatro anos a mais podem tornar o desafio ainda maior. Isso talvez explique sua recusa a participar dos debates, até agora.
O ambiente digital amplifica esse risco. A transmissão ao vivo alimenta um ecossistema que fragmenta o debate em sequências breves, isoladas de seu contexto e destinadas a circular por milhões de telas. Uma resposta agressiva pode ser apresentada como demonstração de força; uma réplica ponderada, como sinal de fraqueza. No recorte, a provocação desaparece, mas a reação permanece. Quando a imagem se desprende do contexto, a explicação posterior costuma chegar tarde demais.
Uma hesitação, uma pausa mais longa ou um gesto de irritação podem adquirir dimensão desproporcional, especialmente quando forem isolados do contexto e convertidos em recortes nas redes sociais. Um debate pode ser complexo e inconclusivo; um recorte de 20 segundos precisa apenas ser memorável.
Flávio, contudo, também terá obstáculos a superar. Precisará demonstrar que suas posições vão além dos slogans e da herança familiar. Um tom agressivo demais pode parecer artificial ou intimidatório; respostas evasivas podem sugerir falta de consistência. Explorar ostensivamente a idade de Lula também pode provocar rejeição.
O relógio biológico não decide uma eleição. A televisão, porém, pode transformar seus sinais em argumento político — e as redes sociais, em veredicto, antes mesmo que o debate termine.

Luciano Trigo é jornalista e escritor, autor de "Guerra de narrativas - A crise política e a luta pelo controle do imaginário" (2018) e "O ano em que a Terra parou - Polarização da política e a escalada da insanidade" (2021). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




