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Contam os jornais, as atas e um sujeito que faz vídeos de política dentro do carro que tudo começou numa segunda-feira, dia naturalmente propício às grandes tragédias nacionais.
O ministro Honório Valadares, homem de toga escura, sobrancelha constitucional e extraordinária confiança no próprio discernimento, resolveu combater a epidemia de notícias falsas que assolava a República.
A decisão foi recebida com entusiasmo.
— Já era tempo! — disse um senador, enquanto apagava discretamente uma publicação antiga.
— A democracia não pode conviver com a mentira — declarou um deputado, sem especificar desde quando.
No botequim da esquina, onde a opinião pública costuma chegar antes da imprensa e sair depois da meia-noite, houve consenso: alguma coisa precisava ser feita. O problema, como acontece frequentemente no Brasil, era saber exatamente o quê.
Criou-se o inquérito.
Nos primeiros dias, investigaram-se perfis anônimos, correntes de WhatsApp, vídeos com música dramática, áudios de tias indignadas e uma montagem em que um político aparecia vestido de presidiário. O ministro, que lia tudo com aplicação sacerdotal, logo percebeu a profundidade do problema.
— A mentira moderna — declarou — não é apenas aquilo que não aconteceu. Pode ser aquilo que aconteceu com intenção errada.
Os assessores anotaram.
— Pode ser também uma opinião errada sobre um fato. Ou um fato apresentado por alguém cuja opinião não nos agrada.
Houve um breve silêncio. Depois, anotaram também.
A investigação cresceu com a exuberância própria das instituições brasileiras. Em poucas semanas, alcançou o sujeito que criara uma página chamada “O Brasil acabou”, um médico que deu palpite sobre as eleições no grupo de WhatsApp do condomínio e uma senhora de Goiânia que compartilhou a fotografia de um jacaré supostamente encontrado no metrô.
A senhora alegou que apenas repassou a mensagem.
— E por que repassou? — perguntou o ministro.
— Porque minha cunhada mandou.
A cunhada foi incluída no inquérito.
— E por que a senhora mandou?
— Porque recebi da minha prima.
Em 48 horas, toda a família estava nos autos. Foi o primeiro caso de jurisprudência genealógica.
Um padeiro de Belo Horizonte entrou na investigação porque um freguês utilizava o Wi-Fi da padaria para publicar opiniões políticas. Um taxista foi mencionado porque concordou com o passageiro. Um segundo taxista foi investigado porque discordou.
— Afinal, qual dos dois cometeu o crime? — perguntou um jornalista.
— Estamos justamente apurando — respondeu uma nota oficial.
O jornalista publicou uma nota e passou a ser investigado por disseminá-la sem o devido contexto.
O povo brasileiro, que suporta inflação, fila, imposto e conexão ruim com uma paciência que deveria ser estudada pela ciência, se adaptou rapidamente.
Nos churrascos, proibiu-se falar de política.
— E futebol? — perguntou alguém.
— Melhor não. Vai que envolve patriotismo.
Foi então que apareceu o professor Arnaldo Pimenta, sujeito magro, especialista em lógica e, portanto, inteiramente despreparado para a vida pública brasileira. Ele escreveu em um jornal que, para chamar uma notícia de falsa, seria necessário primeiro demonstrar que ela era falsa.
A frase provocou enorme inquietação.
O ministro mandou chamá-lo.
— O senhor pretende dificultar o combate à mentira?
— Pretendo apenas estabelecer um critério.
— Critérios podem ser instrumentos de desinformação.
O professor tentou responder, mas percebeu que estava diante de uma dessas verdades contra as quais ter razão apenas piora a própria situação.
Saiu da audiência e, no caminho para casa, apagou suas redes sociais. Foi incluído no inquérito por destruição de provas.
A essa altura, já havia brasileiros investigados por falar demais, falar de menos, compartilhar notícias, não compartilhar notícias, apagar mensagens e manter mensagens guardadas.
Um cidadão de Recife perguntou ao advogado se poderia ser investigado por não ter opinião política.
— No Brasil? — respondeu o advogado. — Recomendo que tenha uma, mas não a publique.
— E se me perguntarem?
— Diga que está estudando o assunto.
Mas a grande descoberta do ministro ainda estava por vir.
Certa manhã, tomando café, Honório Valadares examinou uma lista de novos investigados. Eram tantos nomes que o computador travou.
O ministro refletiu.
— Estamos trabalhando com um método antiquado. Estamos deixando brasileiros de fora.
Naquela tarde, saiu a decisão:
“Considerando que qualquer cidadão pode receber, produzir, compartilhar, comentar, acreditar, duvidar ou silenciar diante de informação potencialmente falsa, determino, por cautela democrática, a inclusão preventiva de todos os brasileiros no presente inquérito.”
O país reagiu como reage a quase tudo: primeiro com indignação, depois com memes, depois com conformismo.
A Receita Federal perguntou se precisava enviar a lista de contribuintes. O IBGE ofereceu o Censo. Um cartório sugeriu certidões. Um deputado propôs uma comissão para investigar quem ainda não havia sido investigado. A proposta foi aprovada.
E assim se estabeleceu uma igualdade que a República jamais conseguiu produzir por outros meios. Rico e pobre, eleitor e abstêmio, influencer e pescador, funcionário público e vendedor de água no sinal: todos finalmente tinham alguma coisa em comum: eram investigados.
Restava apenas uma questão. Se todos os brasileiros estavam no inquérito, quem sobraria para julgá-los?
Um estagiário formulou a pergunta.
Houve silêncio.
O ministro olhou para ele durante longos segundos.
Na semana seguinte, o rapaz foi transferido para outro setor.

Luciano Trigo é jornalista e escritor, autor de "Guerra de narrativas - A crise política e a luta pelo controle do imaginário" (2018) e "O ano em que a Terra parou - Polarização da política e a escalada da insanidade" (2021). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




