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Luciano Trigo

Luciano Trigo

Drama nacional

O pacacídio

A paca se transforma em símbolo de resistência ambiental, e o casal passa a protagonizar um dos "maiores escândalos ecológicos do país". (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

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Imagine, leitor, a seguinte cena: estamos em 2021, é uma noite de sábado em Brasília. A primeira-dama Michelle Bolsonaro liga a câmera do celular na cozinha do Palácio da Alvorada. Sorridente, ela mostra um pedaço suculento de paca na panela de pressão, com molho de açaí e farofa de mandioca como acompanhamento. “Meu amor, olha o que eu preparei para você!”, diz ela, de forma carinhosa.

O vídeo é postado nas redes sociais com a legenda: “Jantar raiz para o meu presidente!” e a hashtag #CozinhandoComAmor. Em menos de duas horas, a postagem acumula quase 5 milhões de visualizações.

O que começou como conteúdo despretensioso logo ganha contornos explosivos. Como se sabe, a paca (Cuniculus paca) é um animal protegido pela legislação ambiental, que proíbe sua caça, perseguição, captura e comercialização – exceto quando proveniente de criadouros autorizados pelo IBAMA ou órgãos estaduais, com documentação comprobatória.

Quase imediatamente, perfis de ativistas de direito ambiental apontam as restrições legais ao consumo irregular de carne de paca: “Pode configurar crime, com penas de detenção de seis meses a um ano, além de multa!”, afirma um especialista.

No dia seguinte, o episódio se transforma no “Pacacídio”, termo cunhado por um colunista da grande mídia que acumula milhões de menções no X (antigo Twitter).

A paca se transforma no novo símbolo da resistência ambiental, e o casal Bolsonaro vira protagonista do maior escândalo ecológico desde a tragédia de Mariana

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A reação institucional também é rápida. O Ibama abre procedimento para investigar a origem da carne. Em tempo recorde, fiscais com colete laranja chegam ao Palácio da Alvorada, munidos de mandado judicial. Michelle é multada em R$ 22 milhões, por “captura, abate e consumo de espécime da fauna silvestre nativa sem licença”.

O laudo técnico, divulgado em poucas horas, informa que o animal assassinado e devorado pesava 8,4 kg e apresentava sinais de estresse térmico pré-abate. Bolsonaro, que aparece no vídeo lambendo os dedos, é enquadrado como coautor moral do crime. Um importante ministro do STF declara em entrevista: “Não é só uma paca, é um símbolo da biodiversidade amazônica”.

ONGs não tardam a entrar em cena. Ainda antes do meio-dia, o Greenpeace publica uma nota de três páginas intitulada, em letras garrafais, “PACACÍDIO: UM ATAQUE DIRETO À AMAZÔNIA”. O texto acusa o casal presidencial de banalizar a violência contra a fauna e naturalizar o consumo de espécies protegidas – isso em um momento no qual o Brasil lidera rankings de desmatamento e queimadas.

A nota termina com um apelo de boicote internacional a produtos brasileiros e as hashtags #SomosTodosPaca e #PacaLivesMatter. Uma deputada do PSOL retuita a publicação, com o comentário: “Enquanto o Ibama multa pobres por caçar para comer, a primeira-dama faz churrasco de paca no Alvorada. Hipocrisia tem nome”.

A grande mídia transforma o caso em um escândalo de primeira grandeza, com manchetes como “Pacacídio choca o país”. Em um telejornal de grande audiência, o âncora lê a notícia em tom grave, citando especialistas que estimam um aumento de 47% no abate ilegal de pacas desde 2019.

Programas de variedades exibem reportagens sobre o habitat natural das pacas, com imagens em câmera lenta e trilhas sonoras melancólicas. Crianças traumatizadas com as imagens fortes do cadáver do animal indefeso na panela aparecem chorando. O debate se amplia para temas como cultura alimentar, legislação ambiental e a urgência da regulação das redes sociais.

No campo cultural, a resposta é igualmente forte. Artistas lançam um clipe musical em defesa das pacas. A letra de “Salve a Paca” traz versos como “A paca não é prato, a paca é nosso parente/ Matem o preconceito, não matem o bicho inocente”. Filmado na Amazônia, o vídeo, que mostra uma paca bebê correndo alegremente entre os artistas, bate 18 milhões de visualizações em poucas horas. Um cantor famoso posta: “Bolsonaro come paca, a Amazônia morre. Simples assim. Ou não”.

Influenciadores digitais convertem o episódio em movimento. Uma influenciadora adota simbolicamente uma filhote órfã chamada “Paquita” e transmite ao vivo o momento da mamadeira de leite de aveia orgânica, declarando: “Ela agora é minha filha”. Outra lança a campanha “Adote uma paca”, que em poucos dias registra centenas de adoções virtuais, com certificado digital.

O impacto político é fulminante. A oposição protocola pedido de impeachment do presidente por crime de responsabilidade. O PSOL pede a instauração da CPI da Paca e é prontamente atendido pelo presidente do Senado. No plenário da Câmara, deputados do PT exibem fotos da carne cozida em plenário, com discursos como: “Enquanto o povo passa fome, eles comem paca gourmet”.

A repercussão internacional consolida o escândalo. O termo “PacaGate” chega ao topo do X. A BBC fala em “The Paca Scandal”. O “New York Times” publica um editorial criticando o “Brasil de Bolsonaro, onde até o jantar vira uma arma contra a natureza”. Greta Thumberg lança um abaixo-assinado pedindo que Michelle adote o veganismo e reúne milhões de assinaturas em poucos dias. Leonardo DiCaprio posta no Instagram a foto de uma paca com a legenda “Protect the paca”.

Pois é. A conclusão fica por conta do leitor.

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