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Luciano Trigo

Luciano Trigo

Meritocracia

O paradoxo do “eu mereço”

Ao trocar o mérito pelo simples merecimento, a cultura contemporânea alimenta expectativas irreais e frustrações cada vez maiores. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

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Poucas expressões revelam tanto sobre o espírito da nossa época quanto “eu mereço”. Ela aparece em campanhas publicitárias, nas redes sociais, nos livros de autoajuda e nas conversas banais do cotidiano. “Você merece uma pausa”, “você merece esse presente”, “você merece ser feliz”. A frase se tornou uma espécie de senha moral da contemporaneidade.

O merecimento deixou de ser a consequência de uma conquista para se tornar uma extensão da própria existência. Antes mesmo de realizar algo, o cidadão é convidado a acreditar que tem direito ao reconhecimento, ao prazer e à satisfação.

Ao mesmo tempo, a meritocracia é cada vez mais contestada. O sucesso individual não pode mais ser explicado apenas pelo esforço, pelo talento ou pela disciplina, porque toda trajetória pessoal é influenciada pela origem familiar, pelo ambiente social, pelo acesso à educação e por oportunidades desiguais. Nessa leitura, a meritocracia seria uma narrativa criada para transformar desigualdades históricas em consequências da competência individual.

À primeira vista, essas duas tendências parecem opostas. Não são. A ideia de merecimento não desapareceu, mas seu fundamento mudou. Durante séculos, a recompensa esteve associada ao esforço e à realização. Hoje, a mera existência, a identidade e a experiência subjetiva se tornaram fontes de legitimidade.

Na concepção clássica da meritocracia, a lógica era simples: trabalhei, produzi, superei obstáculos, conquistei resultados, portanto, mereço uma recompensa. O mérito funcionava como uma ponte entre esforço e reconhecimento. A cultura contemporânea inverteu essa sequência. O merecimento deixou de ser o ponto de chegada e se tornou o ponto de partida. A nova fórmula é menos “Eu mereço porque conquistei” do que “Eu mereço porque sou”.

No livro Eu Mereço!: Da velha hipocrisia aos novos cinismos, a antropóloga Paula Sibilia mostra como o "eu mereço" deixou de justificar pequenos prazeres cotidianos para expressar uma ética centrada na valorização permanente da experiência individual.

É nesse ponto que a crítica à meritocracia produz um efeito paradoxal. Ao demonstrar que o sucesso individual não depende exclusivamente do esforço pessoal, ela enfraquece o mérito como fundamento das recompensas sociais. Mas, ao retirar do mérito esse papel central, abre espaço para outros critérios de legitimação: identidade, pertencimento, sofrimento e vulnerabilidade.

Quando todo desejo passa a ser traduzido como um direito moral, aumenta a distância entre aquilo que se deseja e aquilo que a realidade consegue oferecer

O mercado percebeu rapidamente essa transformação. A publicidade contemporânea raramente apresenta um produto como recompensa por uma trajetória de esforço. Ela não diz: “Você trabalhou duro, portanto, compre isso”. A mensagem agora é: “Você merece”. O consumo deixa de funcionar como celebração de uma conquista e passa a operar como uma forma de validação psicológica. Já não se consome apenas em busca de utilidade ou status. Comprar, viajar, cuidar da aparência ou viver novas experiências representam uma afirmação simbólica do próprio valor: a ideia de que seus desejos são legítimos e sua felicidade não precisa esperar.

Isso se reflete também no campo político. Liberais e progressistas discordam sobre as causas da desigualdade e sobre os critérios legítimos de distribuição de recursos. O liberal defende que alguém merece uma recompensa porque trabalhou, inovou, assumiu riscos ou criou valor. O progressista argumenta que alguém merece proteção ou reconhecimento porque enfrentou barreiras estruturais ou foi historicamente prejudicado. Os fundamentos são diferentes, mas a estrutura moral é semelhante. Ambos continuam organizando seus argumentos a partir da pergunta: quem merece receber o quê?

Essa disputa revela uma transformação mais ampla da moral ocidental. Durante boa parte da história moderna, a ética enfatizou deveres, responsabilidades, disciplina e obrigações. O indivíduo era educado para suportar frustrações, adiar recompensas e compreender que nem todos os desejos poderiam ser realizados. A cultura contemporânea deslocou esse equilíbrio para uma moral baseada em direitos subjetivos, expectativas individuais e reconhecimento permanente. Desejos foram transformados em direitos.

O problema é que, quando todo desejo passa a ser traduzido como um direito moral, aumenta a distância entre aquilo que se deseja e aquilo que a realidade consegue oferecer. Quanto maior o número de coisas que o indivíduo acredita merecer — felicidade, sucesso, reconhecimento, visibilidade, realização plena —, maior tende a ser a frustração quando esses objetivos não são alcançados.

O paradoxo do nosso tempo é que uma sociedade mais sensível às desigualdades também se tornou mais ansiosa diante da impossibilidade de realizar todas as promessas de satisfação que ela própria produziu. Nunca falamos tanto sobre direitos, reconhecimento e merecimento — e nunca convivemos com tanta frustração diante da falta daquilo que acreditamos nos ser devido.

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