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A leitura da última coluna do Polzonoff, “Você daria a vida por uma causa, ainda que justa?”, lembrou-me uma frase atribuída a Bertrand Russell (1872-1970): “Eu nunca morreria pelas minhas convicções, porque posso estar errado”.
A frase vai muito além do aforismo espirituoso: ela resume um dos eixos do pensamento do filósofo britânico: o ceticismo como método, a desconfiança diante de certezas absolutas e o alerta permanente contra o dogmatismo, seja ele moral, político ou religioso. Em tempos de polarização, a ideia soa provocadora – e atualíssima.
Russell partia de uma constatação tão simples quanto desconfortável: os seres humanos erram. Erram na percepção, erram no raciocínio e erram nas conclusões. Nem mesmo os cientistas, que operam com métodos rigorosos, trabalham com certezas eternas: hipóteses são formuladas, testadas, contestadas, corrigidas ou descartadas.
Se isso vale para a ciência, vale ainda mais para terrenos subjetivos como a política, a moral e a religião, nos quais os valores, os interesses pessoais e as emoções costumam ter um papel muito maior.
Para o filósofo, tratar uma causa como algo pelo qual vale a pena morrer — ou, pior ainda, matar — representa um equívoco duplo: intelectual e moral. Intelectual porque pressupõe uma infalibilidade que nós não temos. Moral porque transforma convicções humanas, por definição imperfeitas, em ídolos intocáveis. A História mostra o preço que essa atitude costuma cobrar: guerras religiosas, revoluções sangrentas, regimes totalitários e perseguições em nome de verdades supostamente indiscutíveis.
Uma das consequências da convicção incondicional em relação a qualquer bandeira é a desumanização de quem pensa de forma diferente. É o que acontece quando pessoas normais defendem políticos corruptos contra todas as evidências ou quando justificam a censura e a perseguição em nome de um ideal pervertido de defesa da democracia. Associar a identidade e a própria vida a uma causa as libera do fardo de refletir, duvidar, questionar e mudar. É um mecanismo psicológico perverso.
Não se trata aqui de pregar a falta de convicção. O próprio Russell nunca foi um pensador neutro ou acomodado; pelo contrário: ele criticou duramente dogmas religiosos, enfrentou governos e instituições poderosas. Durante a Primeira Guerra, pagou caro por sua oposição ao conflito: perdeu o emprego e chegou a ser preso. Décadas depois, ele se tornou uma das vozes mais contundentes contra a proliferação das armas nucleares, alertando para o risco de extinção da humanidade.
Em nenhum desses momentos, Russell aderiu à indiferença ou ao relativismo acomodado. Ele apenas se recusava a sacralizar suas próprias convicções. Isso se chama humildade intelectual. Ele defendia suas ideias com vigor, mas aceitava mudá-las diante de novos fatos. Reconhecer a possibilidade de estar errado não paralisa a ação; apenas impede que a convicção vire fanatismo.
O problema não é acreditar em algo com intensidade, mas acreditar de forma incondicional: quando alguém se julga dono da verdade absoluta, o outro deixa de ser um interlocutor e passa a ser um inimigo a ser abatido
Russell mudou de posição diversas vezes ao longo da vida. Inicialmente simpático ao comunismo, voltou de uma viagem à União Soviética, em 1920, profundamente decepcionado com os rumos do regime bolchevique então nascente. Naquele momento, ele teve a honestidade intelectual de admitir que estava errado. Isso não o tornou um vira-casaca indeciso; apenas confirmou sua lucidez.
Para Russell, a dúvida saudável é uma força civilizatória. Ela obriga o indivíduo a justificar periodicamente suas crenças, a lidar de forma honesta com objeções, a reconhecer fraquezas em seus pontos de vista.
O problema não é acreditar em algo com intensidade, mas acreditar de forma incondicional. Quando alguém se julga dono da verdade absoluta, o outro deixa de ser um interlocutor e passa a ser um inimigo a ser abatido.
A política vira guerra moral. A religião vira instrumento de coerção. A discordância deixa de ser legítima. Esse ambiente é fértil para o autoritarismo. Sempre que alguém está absolutamente certo e o outro absolutamente errado, fica fácil ceder à tentação da coerção. Se a causa é justa e infalível, qualquer meio parece legítimo para defendê-la.
Essa advertência dialoga diretamente com o Brasil de hoje, onde o debate público foi interditado. Opiniões políticas são tratadas como identidades morais inegociáveis. Multiplicam-se discursos que dividem a sociedade entre “nós” e “eles”, “bons” e “maus”, “mocinhos” e “bandidos”, “salvadores” e “inimigos do povo”. Admitir a possibilidade de erro virou sinal de fraqueza, covardia ou traição. O “eu posso estar errado” passou a soar quase como uma heresia.
As consequências estão aí. Argumentos dão lugar a slogans. Dados são usados seletivamente, apenas quando confirmam crenças prévias. Instituições são defendidas ou atacadas conforme a conveniência do momento. O resultado inevitável é um empobrecimento do debate e uma radicalização emocional que corrói a coesão social.
Russell não defendia que todas as opiniões são equivalentes. Defendia, isto sim, que elas devem ser sustentadas com argumentos, não com devoção cega. É possível lutar por ideias, engajar-se politicamente, enfrentar injustiças e, ainda assim, preservar a consciência de que se pode errar. Essa saudável combinação de firmeza e humildade é rara, mas cada vez mais necessária.
A frase atribuída a Russell não é um convite à hesitação permanente. É um alerta contra a arrogância moral. Ideias que admitem revisão podem ser corrigidas. Ideias que não podem ser questionadas tendem a apodrecer. Viver para aprimorar nossas convicções é infinitamente mais produtivo do que morrer por elas, diria Bertrand Russell – dando razão a Polzonoff.





