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Há um paradoxo pouco explorado na relação entre o governo Lula e o mercado financeiro. Na retórica política, eles parecem ocupar lados opostos. De um lado, um presidente identificado historicamente com os trabalhadores, a expansão do gasto social e a crítica às desigualdades. De outro, a Faria Lima, símbolo de bancos, gestoras, fundos de investimento e grandes operadores do capital.
Na prática, a convivência entre os dois é mais do que pacífica: é uma relação de aliados. Isso porque o mercado não precisa gostar de Lula. Precisa que ele seja previsível. A diferença é importante.
O mercado financeiro busca maximizar lucros em ambientes de alta rentabilidade, e o Brasil atravessa uma fase na qual o dinheiro voltou a ser muito bem remunerado. A Selic está em 14%, já chegou a 15% no início do ano, e novas reduções devem ser modestas.
Durante o terceiro mandato de Lula, as instituições financeiras e empresas concentradas no ecossistema da Faria Lima registraram lucros recordes históricos, impulsionadas pelo longo período de juros elevados. O sistema financeiro brasileiro atingiu a marca histórica de R$ 255 bilhões em lucro líquido em 2025, segundo dados do Banco Central.
Embora o governo federal mantenha frequentes embates retóricos com o mercado financeiro, os grandes bancos ampliaram significativamente suas margens financeiras e carteiras de crédito corporativo, consolidando uma fase de alta rentabilidade mesmo em meio a pressões fiscais.
A verdade é que o governo que se apresenta como defensor dos pobres administra uma economia na qual o capital financeiro encontra condições extraordinariamente favoráveis para prosperar. Sob a presidência de Lula, a política de juros elevados significa renda segura e atrativa para os grandes investidores da Faria Lima.
Para quem vive do trabalho, juros elevados significam crédito caro, financiamento difícil e menor dinamismo da economia. Por isso, o endividamento da classe média só aumenta e a vida do cidadão comum só piora. Mas, para quem tem dinheiro para aplicar, os juros significam outra coisa: uma remuneração excepcionalmente atraente em aplicações de baixo risco.
Para a Faria Lima, pouco importa se o candidato é de esquerda ou direita. Por ora, o mercado financeiro parece preferir o que já conhece
Não é preciso imaginar uma conspiração para entender o mecanismo. Quando o Estado paga juros elevados sobre uma dívida pública gigantesca, uma parcela relevante da renda nacional é transferida para os detentores de ativos financeiros. Isso não significa que todos os bancos estejam simplesmente enriquecendo por causa da Selic, nem que seus lucros dependam exclusivamente dos juros. Apenas revela como um ambiente de dinheiro caro se transforma em fonte de remuneração elevada para o capital financeiro.
A relação entre o mercado financeiro e o governo não se resume à taxa Selic. Ela passa também por dívida pública elevada, mercado de títulos, autonomia do Banco Central, regras fiscais e mecanismos sofisticados de intermediação financeira. Lula pode tensionar alguns desses mecanismos no discurso, mas não rompeu com eles na prática.
Para o capital, essa continuidade institucional reduz o risco de mudanças abruptas e torna o conflito político menos relevante do que parece na superfície. O governo Lula não representa uma ruptura com a arquitetura econômica existente: opera dentro dela, combinando políticas sociais com a remuneração do capital. Distribui renda pela porta social enquanto remunera o capital pela porta financeira.
Para a Faria Lima, pouco importa se o candidato é de esquerda ou direita. O que importa é a previsibilidade e a preservação das condições que permitem ao capital extrair valor do sistema. É uma acomodação na qual o conflito ideológico perde densidade.
Por sua vez, Flávio Bolsonaro representa uma agenda mais liberal, com redução de impostos e do peso do Estado na economia e na vida do cidadão – o que, em tese, também deveria interessar aos detentores de capital financeiro. Mas Flávio oferece ao mercado menos previsibilidade. A Faria Lima já conhece o modus operandi de Lula e sabe o que esperar de seu governo. No mundo dos investimentos, essa segurança pode valer mais do que a promessa de uma mudança potencialmente favorável.
O problema surge quando essa acomodação se torna assimétrica: quando o trabalho é chamado a aceitar sacrifícios em nome da estabilidade, enquanto o capital encontra na própria estabilidade uma oportunidade de remuneração extraordinária. Por ora, o mercado parece preferir o que já conhece. Resta saber qual será o preço desse alinhamento pragmático para a sociedade, caso Lula seja reeleito.

Luciano Trigo é jornalista e escritor, autor de "Guerra de narrativas - A crise política e a luta pelo controle do imaginário" (2018) e "O ano em que a Terra parou - Polarização da política e a escalada da insanidade" (2021). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




