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Luciano Trigo

Luciano Trigo

Estatísticas

Quando os números não convencem

Indicadores oficiais dizem que tudo melhora no Brasil, mas a realidade desmente. Números fantasiosos perdem credibilidade — e votos. (Foto: Michaił Nowa/shotput/Pixabay)

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Uma frase tem se repetido teimosamente nas conversas cotidianas, nas redes sociais e em pesquisas qualitativas: “Os indicadores oficiais dizem que está tudo melhorando, mas a minha vida só piora”. Governo e autoridades econômicas celebram a inflação sob controle e a queda no desemprego, mas famílias relatam dificuldade crescente para fechar o mês, perda de poder de compra e uma permanente sensação de insegurança.

Esse descompasso crescente entre os indicadores econômicos e a experiência concreta das pessoas comuns não se deve somente a um ruído de comunicação. Ele revela um problema estrutural, que mina a credibilidade das estatísticas oficiais — e tende a influenciar diretamente o comportamento dos eleitores, sobretudo os mais pobres.

A inflação oficial, medida por índices como o IPCA, se baseia em uma cesta média de bens e serviços. O conceito de “média”, porém, é problemático. Uma média estatística não representa a realidade de indivíduos concretos, mas um agregado abstrato de padrões de consumo, pouco preciso em um país tão grande geograficamente e tão diverso, do ponto de vista socioeconômico.

Por exemplo, famílias de baixa renda destinam uma parcela muito maior do orçamento a alimentos, transporte e conta de luz — itens que frequentemente sobem acima da inflação oficial. Quando isso ocorre, a inflação “sentida” no cotidiano é muito superior à inflação “medida” nos relatórios divulgados pelo IBGE. O índice pode estar tecnicamente correto e, ainda assim, parecer uma peça de ficção para quem faz compras toda semana.

No mercado de trabalho, ocorre um fenômeno parecido. A taxa de desemprego captura apenas quem está sem ocupação e procura ativamente trabalho. Quem desistiu de procurar emprego fica de fora. A metodologia também ignora dimensões essenciais da realidade laboral do Brasil, como a qualidade do emprego, a estabilidade, a informalidade, a subocupação e a renda efetiva.

Ora, um país pode reduzir a taxa oficial de desocupação enquanto multiplica trabalhos precários, intermitentes ou mal remunerados. A estatística pode até melhorar, ao ignorar quem trocou um emprego estável por bicos incertos ou perdeu benefícios e previsibilidade — mas a vida piora. Ou seja, o indicador cumpre sua função técnica, mas falha como retrato social do país.

Além disso, pessoas que recebem auxílios governamentais — cerca de 94 milhões de brasileiros hoje dependem de algum tipo de programa social do governo federal, o que equivale a aproximadamente 44% da população nacional (!) — e não estão procurando emprego tampouco entram na conta do desemprego: elas são consideradas “fora da força de trabalho”.

Do ponto de vista da OIT (Organização Internacional do Trabalho), o critério pode até ser coerente. Do ponto de vista social, o efeito é perverso: indivíduos que gostariam de trabalhar, mas desistem diante da falta de oportunidades, ou que escolhem viver de auxílio, simplesmente desaparecem da estatística. O resultado é uma taxa de desemprego artificialmente baixa, sem que haja necessariamente aumento real de empregos produtivos ou melhora estrutural do mercado de trabalho.

Outro fator relevante é que os indicadores agregados reagem lentamente às pressões que moldam o cotidiano. O aluguel sobe de uma vez, o plano de saúde tem reajuste anual muito acima da inflação (o meu, por exemplo, subiu 15%), a mensalidade escolar dispara no início de cada ano letivo, o supermercado muda os preços nas gôndolas semanalmente.

Já os índices oficiais seguem calendários rígidos, metodologias estáveis e recortes amplos, pouco sensíveis a choques localizados ou a mudanças abruptas no padrão de consumo. Essa defasagem temporal reforça a sensação de que os números descrevem um país que só existe nos gráficos.

Mesmo dados tecnicamente corretos perdem legitimidade quando não dialogam com a experiência concreta da sociedade

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Esse fenômeno tem consequências relevantes. Quando autoridades insistem em repetir que “a inflação está baixa” ou que “o emprego está crescendo”, enquanto a população sente o contrário, instala-se uma erosão silenciosa da confiança. A estatística, que deveria iluminar a realidade, passa a ser vista como instrumento retórico ou, no pior dos casos, manipulador. Não se trata necessariamente de fraude, mas de inadequação: mede-se algo que já não representa o que interessa às pessoas.

A experiência internacional mostra os riscos desse processo. Entre 2007 e 2016, na Argentina, a intervenção política no instituto oficial de estatística para maquiar dados de inflação já teve efeitos devastadores, como escrevi na coluna “Os riscos da matemágica”.

Empresas, sindicatos e pessoas comuns passaram simplesmente a ignorar os números oficiais. Contratos passaram a ser renovados com base em índices privados, organismos internacionais questionaram a credibilidade do país e a população perdeu qualquer referência comum sobre a realidade econômica.

Reconstruir a confiança perdida levou anos e exigiu reformas profundas. Uma vez rompida, a legitimidade da estatística pública não se recompõe facilmente.

No mercado de trabalho, indicadores de qualidade do emprego, renda real e estabilidade são tão relevantes quanto a taxa bruta de desocupação. Mesmo dados tecnicamente corretos perdem legitimidade quando não dialogam com a experiência concreta da sociedade.

Por isso mesmo, cresce em diversos países o debate sobre indicadores econômicos complementares: inflação por faixa de renda, índices regionais mais granulares, métricas específicas para aposentados, famílias com filhos ou dados sobre trabalhadores informais. A estatística pública precisa evoluir junto com a sociedade que ela pretende retratar. Isso significa reconhecer que precisão metodológica não garante relevância social.

Um indicador pode estar correto e, ainda assim, ser inútil. As pessoas não perguntam qual é a inflação média; perguntam se o salário dá até o fim do mês. Não perguntam a taxa oficial de desemprego; perguntam se o seu trabalho é estável e se terão renda no mês que vem.

O tema tende a ganhar relevância em ano eleitoral. O eleitor não vota com base em séries históricas, notas técnicas ou explicações metodológicas. Ele vota com base na própria experiência, na percepção do custo de vida, na segurança do emprego e na sensação de progresso ou estagnação pessoal. Quando os números oficiais entram em conflito com essa percepção, são os números que perdem — não a percepção. Insistir no contrário é ignorar como decisões reais são tomadas por pessoas comuns.

O risco é evidente: governos que se escondem atrás de indicadores positivos enquanto ignoram o mal-estar social pavimentam o caminho para derrotas eleitorais. Não por ignorância do eleitor, mas por racionalidade prática: ninguém vota em gráficos quando a vida cotidiana não melhora.

No final do dia, a questão não é se os indicadores oficiais estão “certos” ou “errados”. É se eles conseguem convencer. E, em uma democracia, convencer importa tanto quanto medir.

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