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Hoje, mais do que nunca, o Brasil vive um paradoxo moral profundo. Nunca se falou tanto em democracia, civilidade, combate ao ódio, valores republicanos e responsabilidade institucional. O discurso dominante — repetido à exaustão por autoridades, ministros de tribunais superiores, jornalistas da grande mídia e lideranças políticas no poder — apresenta-se como guardião da virtude pública.
No plano retórico, tudo parece elevado. Na prática, o que se observa é a consolidação de uma moralidade seletiva, aplicada de forma assimétrica: rigorosíssima com adversários e extremamente indulgente com aliados.
Escândalos em série, aparelhamento de estatais, captura de órgãos públicos e conivência com práticas suspeitas convivem sem qualquer constrangimento com discursos inflamados sobre ética e democracia.
Certos comportamentos são tratados como crimes contra a civilização quando praticados por adversários políticos; os mesmos comportamentos, quando praticados por aliados do sistema, são relativizados, rebatizados ou simplesmente ignorados.
O cidadão comum percebe, com crescente clareza, que há regras diferentes para grupos diferentes — e que o sistema está estruturado para proteger uns e punir outros.
Nesse cenário, a frase “Restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!”, criada por Stanislaw Ponte Preta — pseudônimo de Sérgio Porto — permanece um dos diagnósticos mais certeiros da hipocrisia política brasileira. Cunhada nos anos 1960, a frase condensa uma verdade incômoda: quando a moralidade é proclamada como slogan, e não como princípio, ela rapidamente se transforma em licença para privilégios, abusos e conchavos.
A analogia entre as duas épocas é perturbadora. Hoje, ainda mais do que ontem, a moralidade é instrumentalizada por elites que se apresentam como salvadoras da pátria.
Nos anos 1960, a corrupção e a desordem eram usadas como pretexto para o autoritarismo. Hoje, a retórica moral serve para legitimar a censura, a perseguição a adversários, a relativização das garantias legais e o silenciamento do dissenso — tudo em nome da defesa da democracia.
Embora sob um regime formalmente democrático, repete-se a lógica do verniz moral: decisões judiciais opacas, indignação seletiva e um jornalismo cada vez mais militante, que escolhe abertamente o que investigar e a quem proteger.
Empresários antes condenados e multados voltam a circular livremente nos corredores do poder, beneficiados por decisões judiciais controversas que anulam provas, prescrevem crimes ou reinterpretam a lei de forma criativa
Stanislaw não era um moralista ingênuo. Seu humor ácido partia de uma desconfiança saudável em relação aos discursos edificantes vindos do poder. Ele entendia que cruzadas morais costumam surgir em momentos de crise institucional, quando o sistema perde credibilidade e precisa reconstruir sua autoridade simbólica. O problema é que esse discurso quase nunca vem acompanhado de mecanismos reais de controle, limites ao poder ou compromisso genuíno com a igualdade perante a lei.
No Brasil contemporâneo, essa lógica atinge seu ápice na simbiose entre o partido atualmente no poder, os tribunais superiores e a grande mídia. Trata-se de um sistema de legitimação recíproca: o governo oferece poder, cargos e orçamento; o Judiciário fornece decisões criativas e assimétricas; e a mídia tradicional constrói a narrativa moral que justifica tudo isso como defesa das instituições. A moralidade deixa de ser princípio e passa a ser ferramenta.
Ora, o país está mergulhado em escândalos de proporções épicas. Antes do caso ainda nebuloso do Banco Master (e tudo indica que permanecerá nebuloso, até que seja esquecido), o megaesquema no INSS desviou R$ 10 bilhões de aposentados, um dos maiores roubos da nossa história, superando inclusive o Petrolão revelado pela Lava Jato.
Empresários antes condenados e multados voltam a circular livremente nos corredores do poder, beneficiados por decisões judiciais controversas que anulam provas, prescrevem crimes ou reinterpretam a lei de forma criativa. No Congresso, emendas bilionárias operam como mecanismo institucionalizado de cooptação política, com baixíssimo controle e quase nenhuma transparência.
Mas a certeza da impunidade é tamanha que ninguém parece dar muita importância ao assunto. Ficar indignado cansa. O cidadão comum, exausto e preocupado com a violência e os boletos a pagar, mergulha na apatia e na indiferença diante da narrativa oficial, que teima em falar de democracia. Até quando?





