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Luiz Philippe de Orleans e Bragança

Luiz Philippe de Orleans e Bragança

Pressões internas

A Lição do Iranianos

Manifestantes participam de protesto contra a repressão em curso no Irã, em frente à Embaixada da República Islâmica do Irã em Berlim, Alemanha. (Foto: Filip Singer/EFE/EPA)

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No século XIX, na Europa, logo após a Revolução Francesa, os regimes de monarquias absolutistas tradicionais viveram seu maior desafio. Para o regime tradicional, aceitar limites, compartilhar poder com outros fora do conjunto de valores tradicionais e ter de seguir uma constituição laica significava o fim.

Mas, para a população europeia da época, que não aceitava mais os mitos, tradições, normas e padrões vigentes, o fim era seguir vivendo sob um regime que perdeu a sustentação de seus pilares.

Para milhares de pessoas de então, valia a pena pegar em armas para se levantar contra o regime. E, para os governantes da época, valia a pena fazer de tudo para evitar o caos e manter a ordem. O embate foi inevitável. Milhares morreram em diversos levantes ao longo do século, e a Europa nunca mais foi a mesma. O regime que aceitou as mudanças sobreviveu diferente, mas sobreviveu. Quem resistiu, caiu.

Esse é o caso do Irã hoje, com uma grande diferença. Não se trata somente da derrubada de um regime ditatorial, que nunca foi legítimo e que, na percepção de boa parte dos iranianos, se caracteriza como regime de ocupação, ou seja, é uma força externa que está ocupando o país e não representa a identidade nacional.

O que representaria essa identidade e quais as alternativas para o Irã? Só a saída dos aiatolás resolveria? E as leis muçulmanas? Talvez a volta ao que existia antes? E é essa a diferença dos levantes na Europa do século XIX e o Irã atual.

Na Europa, os levantes do século XIX eram pela esperança de algo novo, que nunca existiu, pela utopia de ideias republicanas que, na época, eram sinônimo de liberdade. No Irã do século XXI, é o oposto. A república islâmica é a opressora, estrangeira, e a verdadeira chance de resgatar a identidade e a liberdade é a volta do Xá.

Antes, era o Xá, extremamente ocidentalizado e que queria projetar o país como um país asiático moderno, ao promover obras de expansão e o alinhamento com o Ocidente.

O regime do Xá não foi perfeito, mas foi incomparavelmente mais livre e tolerante que o atual dos aiatolás

Em outras palavras, o modelo político e econômico da monarquia constitucionalista do Irã da época seguia a linha política ocidental. Foi esse um dos motivos que levou a União Soviética a subverter o reinado de Reza Pahlevi, em 1979, pois o Irã está inserido em uma região com a qual a autocracia soviética exigia alinhamento total.

Hoje, as bandeiras tradicionais de novo se hasteiam entre os manifestantes nas ruas. A bandeira anterior faz referência à vasta e rica história do povo persa, identidade que os iranianos nunca perderam. Qualquer alternativa futura terá de acomodar essa realidade para se firmar como legítima, e a saída mais próxima seria restabelecer o regime do Xá. Essa possibilidade existe, mas não é majoritária.

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O gatilho

Vamos lembrar que a mobilização atual do Irã não se deu por questões políticas, mas econômicas: inflação galopante, falta gigantesca de divisas e de dólar em reserva cambial, vários comerciantes fechando suas portas no final do ano passado, o que continua até hoje, porque se tornou inviável ter negócios no Irã.

Inclusive, vários levantes políticos e sociais contra o regime ocorreram nos últimos 47 anos, que se somam a esse. Em todos, o regime foi devastador. Centenas de mortos acumulados em cada um. O atual é o mais forte e proporcionalmente mais cruel. Relatos informais dão conta de que a cifra de mortos ultrapassa dezenas de milhares, a maioria jovens.

Qual alternativa o regime deu para a crise?

O regime dos aiatolás se nega a discutir sua existência como sendo a razão por trás de todas as razões. Portanto, respondeu de maneira rasa e totalmente ineficaz. Quis comprar o povo dando um benefício financeiro pífio, uma espécie de Bolsa Família, na tentativa de apaziguar os ânimos.

Sem sucesso, viu as manifestações crescerem, e a elas se juntaram outras reivindicações que já existiam no passado. Lembrando que essa última mobilização para substituir o regime no Irã não é novidade. Os iranianos já se levantaram pelo menos quatro a cinco vezes desde o golpe dos aiatolás, em 1979, para substituir o regime islâmico vigente.

Foco faz a força

Por incrível que pareça, a religião islâmica não era majoritária no Irã. Havia outras religiões presentes, sobretudo uma religião iraniana, própria da cultura persa: o zoroastrismo.

Então, como conseguiram substituir o Xá pelo aiatolá? Subversão marxista de diversos movimentos sociais. Esses movimentos enfraqueceram o Xá e, no contexto de caos que eles geraram, em um regime fragilizado, o aiatolá não precisava ser majoritário; bastava ser o mais bem organizado.

Gradualmente, após o golpe, os aiatolás foram assumindo cada vez mais poder até atingir o controle absoluto, fazendo o parlamento aprovar leis islâmicas.

Ignorância do método

O que é notável nesse processo político dos últimos 50 anos é que, mesmo em minoria, os aiatolás conseguiram se firmar no poder. Estavam mais organizados internamente, tinham financiamento da União Soviética e contavam com um método e uma agenda política claros. Uma parte fundamental desse método eram os movimentos sociais.

Como toda revolução devora seus heróis, todos os movimentos sociais que ajudaram a derrubar o Xá, na sequência, foram devidamente reprimidos pelos aiatolás. Esse é o método que se repete há 100 anos e sempre pode contar com a imbecilidade dos ativistas marxistas. O mesmo aconteceu na Revolução Russa de 1917, na Revolução Cultural na China de 1949, na Revolução Cubana de 1959 etc.

Hoje, os movimentos que derrubaram o Xá do Irã são os que compõem a resistência aos aiatolás:

1- Segmentos religiosos: a reivindicação de liberdade religiosa se soma às dos comerciantes, especialmente daqueles que seguem tradições como o zoroastrismo e outras frentes não alinhadas ao controle absoluto dos aiatolás.

2- Movimento das mulheres: as mulheres têm sido extremamente importantes em várias mobilizações do passado, sobretudo logo no início do regime islâmico. Foram totalmente enganadas; os revolucionários usaram temas identitários, como o feminismo, para derrubar o Xá, mas, na sequência, o regime dos aiatolás resolveu impor o uso do hijab e outras medidas contrárias aos direitos das mulheres, com centenas ou milhares de ativistas prisioneiras ou executadas.

3- Movimentos estudantis: também foram usados para a derrubada do Xá, mas depois se tornaram porta de resistência contra o regime dos aiatolás, ao perceberem que não seriam representados.
4- Movimentos comerciais: como estamos vendo agora, foi o gatilho desta última manifestação, com uma presença marcante dos comerciantes, que veem a inviabilidade de seus negócios.

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Fuga e o limite ao islã

Os dirigentes do Irã já contemplam fuga. Vários bilhões foram transferidos pelos dirigentes para fora do país. A manutenção do poder pelos aiatolás depende hoje de uma burocracia fragilizada e pode ruir a qualquer momento. Notavelmente, a força de opressão no Irã, assim como ocorreu na Venezuela com os agentes cubanos, não é composta majoritariamente por nativos.

A repressão do regime se sustenta por mercenários de diversas etnias do Oriente Médio, enquanto as forças de segurança genuinamente iranianas tendem a aderir aos manifestantes

A queda deste regime alteraria drasticamente o equilíbrio geopolítico. O Irã, com seus 90 milhões de habitantes, economia industrial e riqueza petrolífera, retornaria ao coração da Ásia como um povo de cultura milenar e padrão de vida elevado. Além disso, uma mudança significaria o estancamento da expansão do radicalismo islâmico e da lei sharia, que hoje avança sobre a Europa e os Estados Unidos.

Até mesmo as monarquias absolutistas do Oriente Médio e financiadoras da expansão do islamismo, como o Catar, começam a rever o fomento a grupos como a Irmandade Islâmica, percebendo que tais movimentos são, na essência, subversivos até para eles próprios e possíveis inimigos no futuro.

A lição para o Brasil

O movimento de subversão iniciado pela antiga KGB para minar a influência ocidental no Oriente Médio atingiu seu limite. A conjuntura aponta que a mudança de regime no Irã deve ser abraçada pelo Ocidente como um imperativo de liberdade. É necessário apoiar os iranianos que buscam se libertar de um Estado que funciona como uma força de ocupação artificial, criada pela subversão mundial da esquerda e do totalitarismo.

Para o Brasil e o brasileiro, que vivem em situação análoga ao que se passa no Irã, com um governo de ocupação ilegítimo e criminoso, fica claro que a saída não virá do próprio regime, mas sim de fora dele: intervenção das ruas ou intervenção de outro país, ou os dois.

A luta dos iranianos é, em última análise, a nossa própria luta: o totalitarismo só triunfa por silêncio e inação contra a repressão. Os iranianos estão dando exemplo para o resgate da nossa humanidade.

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