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Luiz Philippe de Orleans e Bragança

Luiz Philippe de Orleans e Bragança

Dilema brasileiro

Brasil atrasado na era da IA e da automação

Demissões por IA expõem crise do trabalho e risco ao consumo; no Brasil, leis e burocracia podem travar inovação e condenar o país ao atraso. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

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É, no mínimo, estarrecedor observar o volume de empresas que, nos Estados Unidos, vêm efetuando demissões em massa sob o pretexto da Inteligência Artificial. A alegação recorrente é a de que a tecnologia está tornando diversos cargos redundantes, o que coloca em xeque não apenas o mercado de trabalho atual, mas o próprio equilíbrio do mercado consumidor. Afinal, como ficaremos? Quais serão os empregos do futuro e em que atividades o ser humano poderá empregar seu tempo e suas energias?

Enquanto Elon Musk define que o grande desafio será descobrir o nosso significado em um mundo automatizado, outros adotam uma visão mais pragmática: ainda existem trabalhos manuais que os robôs não conseguem suplantar.

A queda do colarinho branco e o fim da opressão

Contudo, o impacto inicial da IA é inegável nos mais altos níveis administrativos — os chamados empregos de colarinho branco. São esses que têm mais a perder no curto prazo. Serviços bancários, advocatícios, contábeis e a burocracia corporativa em geral estão na linha de frente.

Embora a humanidade possa ganhar com mais eficiência e menores custos, resta a questão: quem irá consumir se os empregos desaparecerem? Estamos vivendo um período de transição que pode ser muito mais célere do que os anteriores.

Nos anos 90, vimos uma transição profunda com a popularização dos computadores via DOS e Basic. Naquela época, profissões como a de datilógrafo deixaram de existir, mas o mercado se preservou ao se transformar. Os empregos voltaram-se para aplicações mais sofisticadas, exigindo maior preparo. A diferença é que a revolução atual é geral.

Com a robotização aliada à IA, não apenas o burocrata sofre, mas também o trabalho braçal e intelectual caminham para uma mecanização total. Surge, então, a proposta de uma "saída holística": os criadores da IA sugerem desde uma renda mínima universal, via taxação das empresas, até a possibilidade de os trabalhadores possuírem participação nessas companhias, recebendo dividendos em vez de salários.

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O mito marxista e o peso do estamento burocrático

O curioso é que essa mudança joga por terra o dogma marxista de que o empresário contrata apenas para oprimir e lucrar sobre essa opressão. Ironicamente, a IA pode ser o mecanismo que aniquila a opressão do homem pelo homem.

Recentemente, o New York Times publicou matéria sobre a Medvi, empresa de dois irmãos que trabalham sozinhos, com ferramentas de IA, e atingiram faturamento de 1,8 bilhão de dólares. A Medvi intermedeia telemedicina ao público que demanda canetas emagrecedoras, assunto em alta no momento. Uma empresa concorrente com faturamento semelhante, a Hims & Hers, possui 2.442 funcionários. E se ela resolvesse seguir pelo mesmo caminho?

Mas, e o Brasil nessa história? Por aqui, o debate ainda engatinha. Embora existam empresas ganhando eficiência com variações de IA, não vemos o impacto no mercado de trabalho como ocorre em economias mais livres. O motivo é claro: nossa regulamentação petrifica as alternativas e inviabiliza as mudanças necessárias.

A Justiça do Trabalho e o emaranhado de leis brasileiras são verdadeiros empecilhos aos grandes saltos evolutivos

É óbvio que esses momentos geram desconforto e atrito social, mas, sem atrito, não há evolução. Ao tentarmos criar um marco regulatório para a IA sem sequer entendermos seus impactos, estamos apenas criando empecilhos que darão mais controle ao estamento burocrático e aos corruptos em Brasília, sob o falso pretexto de preservar empregos.

A "jabuticaba" e o risco da obsolescência

Vejo dois cenários claros para o nosso futuro. No primeiro, ficaremos extremamente atrasados e deficientes, com empresas deixando de existir porque as leis as impedem de evoluir. No segundo, a economia que busca a IA irá simplesmente driblar as regulamentações nacionais, tornando-as irrelevantes por meio da "pejotização" e de novas estruturas de negócio, nas quais o trabalhador já não se sujeita ao crivo do atraso estatal.

O grande desafio é entender que o governo, no Brasil, é o preponderante. Ele se sente ameaçado porque a IA substitui a própria necessidade de muitos serviços prestados pelo Estado e elimina burocracias. Para preservar sua "integridade arcaica", o estamento burocrático se protege, atrasando toda a evolução social.

Enquanto outras sociedades buscam uma solução completa e enfrentam os ajustes necessários, o Brasil se isola do debate e acaba criando uma "jabuticaba" — um modelo que não funciona nem para manter o passado, nem para abraçar o futuro. Se não enfrentarmos o cerne do problema, que é o nosso ordenamento jurídico, ficaremos, por mais algumas gerações, a ver navios.

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