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“Jesus lavando os pés de Pedro” (1852), de Ford Madox Brown.
“Jesus lavando os pés de Pedro” (1852), de Ford Madox Brown.| Foto: Domínio público

Há pessoas que negam a existência da "Cristofobia" sob o argumento de que contra Cristo e seus ensinamentos há quase nenhuma resistência, o problema é com a torcida. Eu sou da turma que concorda com o uso distorcido da palavra no caso do preconceito religioso, que é contra as pessoas e não contra a doutrina de uma religião. Há pessoas que são contra uma doutrina religiosa e isso é direito delas, mas não se pode confundir essa opinião ou sentimento com um direito imaginário de ofender ou perseguir quem segue a tal doutrina. Esse direito não existe.

No caso da "Cristofobia", considero interessante pensar que o "fobia" pode não ser aversão, mas medo. E faria muito sentido no caso dos lobos em pele de cordeiro, os que clamam estar falando e agindo em nome de Jesus, das leis, do povo, mas estão contaminados pelo espírito da mentira como foi o caso de fariseus e mestres da lei confrontados no monte das oliveiras.

Disse-lhes Jesus: "Se Deus fosse o Pai de vocês, vocês me amariam, pois eu vim de Deus e agora estou aqui. Eu não vim por mim mesmo, mas ele me enviou.
Por que a minha linguagem não é clara para vocês? Porque são incapazes de ouvir o que eu digo.
"Vocês pertencem ao pai de vocês, o diabo, e querem realizar o desejo dele. Ele foi homicida desde o princípio e não se apegou à verdade, pois não há verdade nele. Quando mente, fala a sua própria língua, pois é mentiroso e pai da mentira.
No entanto, vocês não crêem em mim, porque lhes digo a verdade!
João 8:42-45

Caso a gente fique nessa hipótese, a de que os que vivem da mentira têm "Cristofobia" porque podem ser desmascarados, como também ensinou Paulo em sua segunda carta aos Coríntios: "Pois tais homens são falsos apóstolos, obreiros enganosos, fingindo-se apóstolos de Cristo. Isto não é de admirar, pois o próprio Satanás se disfarça de anjo de luz. Portanto, não é surpresa que os seus servos finjam que são servos da justiça. O fim deles será o que as suas ações merecem". 2 Coríntios 11:13-15

Fora do escopo daqueles que vivem da mentira enquanto se disfarçam de anjos de luz, homens justos ou servos de Deus, não há espaço para medo dos ensinamentos de Cristo, o que seria a tal "Cristofobia". A forma como a palavra foi usada no discurso do presidente Jair Bolsonaro na ONU deriva da popularização do uso do sufixo "fobia" nas pautas identitárias, em que o significado de medo é trocado por repulsa ou intolerância. É o caso de Homofobia e Gordofobia, por exemplo. Fora da militância política, isso se chama perseguição religiosa.

Aí vamos ao ponto objetivo: como definir perseguição religiosa? Sem objetividade, ficamos sujeitos às intenções íntimas e sensibilidades do julgamento de cada indivíduo. Alguém pode falar algo com a intenção de ofender alguém pela religião que tem e quem ouve pode não ficar ofendido nem se sentir perseguido ainda que perceba a carga de preconceito e maldade do outro. Também pode ser o caso em que alguém faça um comentário ou pergunta sem maldade, por desconhecimento, e que a outra parte se sinta realmente perseguida e ofendida. Não pode ser esse o parâmetro para debater o tema.

A organização cristã Portas Abertas, fundada em 1955 e atuante em mais de 60 países, luta contra a perseguição aos cristãos em todo o mundo e anualmente publica a Lista Mundial da Perseguição, mostrando o ranking dos 50 países onde as pessoas são mais perseguidas por causa da fé em Jesus.

O Brasil não está no ranking. Você pode concordar com isso ou começar a lembrar de vários episódios de perseguição religiosa, alguns mais graves e outro menos, que saíram na imprensa, foram contados em grupos de conhecidos ou até vividos na pele. A grande questão é: como definir perseguição religiosa? Existe um método objetivo que explica como países em que há episódios de perseguição ficam fora da lista.

A definição básica de perseguição religiosa contra cristãos é “qualquer hostilidade experimentada como resultado da identificação de uma pessoa com Cristo. Isso pode incluir atitudes hostis, palavras e ações contra cristãos”. A rigor, todos os comentários lacradores contra "os evangélicos", a tiração de sarro a qualquer suspiro da ministra Damares e o uso de palavras como "crentelho" e "crentistão" se enquadram nisso. Mas é necessário dividir as situações por gravidade e consequências práticas, por isso existe uma escala.

O conceito clássico da perseguição religiosa abrange apenas aquela feita ou apoiada pelo Estado, mas ele foi modificado porque a realidade mudou. Hoje já há casos concretos de perseguição tão grave quanto a estatal promovidos por agentes não-estatais, como é o caso do Estado Islâmico e do Boko Haram. No entanto, não existe uma definição concreta universalmente aceita para perseguição religiosa.

As cortes internacionais que julgam esse tipo de caso, como a Corte Criminal Internacional, procuram manter um padrão bem elevado do que pode ou não ser considerado perseguição religiosa por questões práticas. Há um medo de que seja impossível avaliar e dar proteção a todos os casos de pessoas que alegariam ser perseguidas por sua fé, então se restringe apenas aos casos mais graves.

"Esse medo da comunidade internacional tem o lado negativo de subestimar a variada dimensão da perseguição, especialmente a contínua pressão que cristãos (e outras minorias) enfrentam em suas diferentes esferas da vida. A metodologia da Lista Mundial da Perseguição tem a intenção de rastrear, documentar, analisar e divulgar esses desafios que cristãos enfrentam em suas vidas diárias", informa a organização cristã Portas Abertas.

Esse método é baseado na obra "O preço da liberdade negada: perseguição religiosa e conflito no século XXI", de Brian Grim e Roger Finke, publicada em 2010 pela Cambridge University Press. Nenhuma perseguição religiosa surge do dia para a noite, o que acontece é uma evolução da relação entre governo e grupos sociais que se fortalecem um ao outro, por motivação ideológica ou religiosa, contra determinados grupos religiosos. Há 6 estágios que caracterizam a maior parte desses processos:

1. Um grupo social pequeno que representa uma religião ou ideologia específicas espalha suas ideias às custas de outro(s) grupo(s). Muitas vezes, um vácuo social ou político apresenta um excelente terreno fértil para tais ideias.

2. Movimentos fanáticos crescem a partir desse grupo inicial ou se reúnem em torno dele para exercer pressão sobre a sociedade e o governo por meio de estratégias de mídia e/ou de ataques físicos a membros de outros grupos.

3. A violência perturba a sociedade, mas os governos e as forças de segurança deixam movimentos fanáticos impunes enquanto culpa outros grupos por serem a causa da agitação social simplesmente por existir.

4. Ação de movimentos radicais é reforçada e atrai mais e mais adeptos. Isso resulta em uma maior pressão sobre o governo para que colabore com sua agenda e também a mais pressão e/ou violência contra outros grupos. Por vezes, cidadãos se unirão por medo, em vez de por convicção.

5. Por fim, sociedade e governo pressionam membros de outros grupos até o ponto de quase sufocá-los. Isso se estende a todas as esferas da vida e da sociedade.

6. O ambiente cultural todo é tomado pela agenda do grupo social altamente “encarregado” que representa uma religião ou ideologia específica (ponto 1), e a visão de mundo que está intrisecamente ligada a essa agenda torna-se a principal fonte cultural.

Segundo a Portas Abertas, as principais tendências da perseguição aos cristãos no ano de 2020 são o risco de começarmos a ter perseguição digital (movimento da China), disseminação do crime organizado e falta de confiança nas instituições (caso da América Latina), disseminação de militância islâmica violenta (na África Subsaariana) e guerras que dizimam minorias cristãs (no Oriente Médio).

A única forma de evitar que perseguições religiosas escalem de forma descontrolada é esvaziar o poder de radicais - religiosos e ideológicos - e ter como pilar fundamental da sociedade a dignidade humana, que é universal e incondicional. Todo grupo que considera ter o direito de considerar dignos apenas os que passam pelo seu crivo é um convite à radicalização, principalmente se tiver proximidade com o poder político, econômico e cultural.

Entendo que alguns pensem que precisam ou podem defender Jesus e façam um carnaval com essa história de "Cristofobia". Pode haver boa intenção, mas é frontalmente contra a humildade cristã: somos nós que precisamos da proteção de Jesus, não o oposto. Usar essa palavra em um discurso na ONU é um movimento político genial, mas só funciona com aqueles que, como na passagem do Evangelho de João, se dizem servos do Senhor mas são imunes às palavras de Cristo. Que saibamos diferenciar espiritualidade de poder e jogo político de devoção religiosa para focar no que interessa, a defesa da dignidade humana.

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