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Reflexões sobre princípios e cidadania

Como passar a violência da internet para a vida real? Entenda o caso China x Hong Kong

A máquina de propaganda do partido comunista já atravessa fronteiras internacionais e é desafio para as democracias.

  • Por Madeleine Lacsko
  • 21/09/2020 14:20
Como passar a violência da internet para a vida real? Entenda o caso China x Hong Kong
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Desde que a data da devolução para a soberania de Hong Kong à China começou a se aproximar, um choque de diferentes visões de mundo acabou culminando em protestos intermináveis mesmo durante a pandemia. A ideia é dar ao território um sistema de governo semelhante ao que tem Macau, chamado de "um país, dois sistemas", ou seja mesclar a cultura contemporânea chinesa com a do colonizador. Um exemplo é a mudança do sistema de ensino, britânico até 2009 e misto desde então.

Ocorre que Macau jamais chegou a ter o mesmo nível de liberdades individuais, desenvolvimento humano e liberdades econômicas que Hong Kong conquistou desde a década de 1970, com reformas estruturantes feitas após uma crise econômica e manifestações populares. Trata-se de um dos maiores PIBs per capita do mundo e um campeão nos rankings de liberdade e competitividade econômica, qualidade de vida, percepção de corrução e Índice de Desenvolvimento Humano.

O acordo feito com os britânicos para a devolução de Hong Kong em 1997 estabeleceu que seria uma "região administrativa da China", mas mantendo ainda leis e economia próprias. Os "dois sistemas" funcionariam até 2047, data final do acordo de 50 anos. Não se sabe ao certo o que vai ocorrer nessa data, mas é claro que a China quer anexar Hong Kong e há uma resistência enorme dos ativistas pró-democracia, que pretendem independência.

No ano passado, o governo chinês aproveitou-se de um caso policial rumoroso para dar um xeque-mate nessas lideranças incômodas. Um cidadão de Hong Kong matou a namorada em Taiwan e não pôde ser punido porque não há tratado de extradição com a China. Foi a desculpa para implementar tratados de extradição para todos os cidadãos de Hong Kong que cometam crimes em território chinês. A brecha gerada foi a possibilidade de extraditar todos os que cometam crime de opinião contra o Partido Comunista Chinês, um aperitivo do que pode ser a vida a partir de 2047.

Como submeter pessoas criadas com pleno exercício de suas liberdades individuais, liberdade econômica e excelentes condições de vida à submissão exigida pelo atual regime Chinês? Não faltam cenas das tentativas pela força bruta. Mas há um outro método, mais sorrateiro: a máquina de propaganda do Partido Comunista Chinês na Internet.

Enquanto muitos intelectuais de países democráticos deixam-se engolir pela própria soberba classificando de "uns tolos gritando na internet" aquilo que não conseguem compreender, os métodos de propaganda nascidos na China e na Rússia atravessam fronteiras impunemente. Aproveitando-se da rapidez para espalhar teorias conspiratórias na internet e a inabilidade das autoridades internacionais para entender o fenômeno, o governo chinês está chegando a ativistas pró-democracia que já receberam asilo político em outros países.

A história começa há um ano e envolve o uso instrumentalizado de diversas técnicas das quais provavelmente você ouviu falar nas redes sociais: doxxing, fake news, sites no exterior, apelo a redistribuir o conteúdo falso. Aqui no Brasil, muitos ainda pensam nesses instrumentos como ideológicos quando não são. Podem e são usados por diversos tipos diferentes de ideologias e interesses políticos e comerciais. O caso específico dos ativistas de Hong Kong é interessante porque é muito didático.

Em setembro do ano passado, foi criado um site apócrifo chamado hkleaks.ru, hospedado na Rússia. Ele servia para fazer o "doxxing" de 90 pessoas a quem os autores anônimos se referiam como "baratas", os ativistas pró-democracia de Hong Kong. O que é doxxing? Nas redes sociais brasileiras, é comum o erro entre essa prática odiosa e descobrir a identidade de um perfil fake. Trata-se de duas coisas bem diferentes.

O "doxxing" é espalhar nas redes dados pessoais e de localização de pessoas reais, identificadas, que defendem suas ideias dando a cara, de forma a incentivar ataques. No caso, como os anônimos estavam com um site hospedado na Rússia e só foi possível identificar um email ao qual estavam ligados, a ação internacional ficou muito difícil para a Justiça de Hong Kong, que precisou fazer ações internacionais.

Na lei local de Hong Kong, se uma pessoa divulga - pouco importa qual seja a intenção dela - qualquer dado ou informação pessoal de alguém sem ter o consentimento e isso causar danos, mesmo que apenas psicológicos, pode pegar até 5 anos de cadeia mais multa de até HK$ 1 milhão, o equivalente a cerca de R$ 700 mil. Muito rigor? Quem está na mira da China não pode ter o luxo de confundir mecanismos de perseguição comunista com piada de mau gosto ou liberdade de expressão.

Até aí, embora seja grave, estamos lidando com anônimos que criaram um site para expor os militantes pró-democracia de Hong Kong. Pode ser qualquer um, não é nada organizado. Fosse aqui no Brasil, iria brotar do chão voluntário para dizer publicamente que isso é liberdade de expressão na internet e que tirar o site do ar seria censura. Ocorre que a coisa foi além.

A Televisão Central da China, CCTV, resolveu "noticiar" o caso em sua conta do Weibo, o Twitter da China. Tanto a emissora de TV quanto a rede social são oficialmente controladas pelo Partido Comunista Chinês. A opção de texto é um pouco diferente para nós: 【转发!认清这些嘴脸!被摘下面罩香港暴徒名单】近日,有网友制作了一个名叫“香港解密”的网站,里面罗列了各种乱港分子和“港独”的名单。网站分成“毒果记者”“港独暴徒”“乱港头目”三类,并按照姓氏排列,方便大家看清楚这些丑恶嘴脸!摘下他们的面罩,一起行动!转!(听港一铜锣湾)

"Avante! Reconheça esses rostos! Lista de bandidos de Hong Kong desmascarados. Recentemente, alguns internautas criaram um site chamado "HK Leaks", com várias listas de caos em Hong Kong e de "independência de Hong Kong". O site está dividido em três categorias: "repórteres venenosos", "bandidos da independência de Hong Kong" e "chefes do caos de Hong Kong". Eles são organizados por sobrenomes para que todos possam ver essas caras feias! Tirem suas máscaras e ajam juntos!"- diz a legenda escolhida pela conta da TV Oficial chinesa para descrever o vídeo de internautas anônimos. A trilha sonora é a cereja do bolo.

Na prática, pode haver duas situações de fato e em ambas a tática de internet criada pelo Partido Comunista Chinês é perfeita para driblar eventuais punições por esmagar opositores. A primeira é que o site realmente tenha sido criado por um grupo de ativistas, de forma espontânea e que o governo chinês tenha apenas se aproveitado da situação para referendar ataques. A outra é que os tais "ativistas anônimos" sejam o próprio Partido Comunista Chinês. Até hoje, não foi possível rastrear os autores.

Pouco adiantaram as ações das autoridades de Hong Kong para proteger seus cidadãos. O site foi tirado do ar na Rússia, depois postado novamente num servidor do Paquistão, sumiu por um tempo e, recentemente, intensificou sua campanha. Os novos vazamentos são especificamente contra 14 pessoas que, coincidentemente, são os manifestantes pró-democracia acusados pelo governo chinês de violar a nova Lei de Segurança Nacional por organizar protestos. Grupos chineses a favor do Partido Comunista inundam as redes sociais e o WhatsApp dos ativistas com insultos e ameaças, sempre chamando-os de "baratas".

O método de dar apoio a um tipo de perseguição lançada por anônimos, difamar sistematicamente e desumanizar os alvos é uma grande arma da propaganda chinesa. Se o Partido Comunista não tem como colocar as mãos em quem recebeu asilo político de países democráticos, com esse método consegue chegar a pessoas em qualquer canto do planeta sem incômodos diplomáticos.

A denúncia sobre o aumento do assédio a ativistas nos últimos meses, utilizando o mesmo método iniciado no ano passado, foi feita pela presidente da Confederação dos Sindicatos de Hong Kong, Carol Ng, em entrevista à Agência France Presse na última quinta-feira. Ela diz saber exatamente o terror causado por campanhas de perseguição e difamação online, mas está disposta a lutar pela própria liberdade. Outros já perderam a liberdade nessa mesma luta.

O site HK Leaks, que entra e sai do ar constantemente, mudando sempre de servidor para esconder a identidade dos responsáveis, passou a exibir um pop-up na semana passada informando que "manifestantes causaram a morte do Estado de Direito e da ordem na sociedade de Hong Kong". A perseguição aos militantes pró-democracia é minimizada com uma mentira: a de que mais de 2 mil policiais e ativistas pró-Partido Comunista Chinês também foram vítimas de doxxing. Não há provas, mas é um bom truque comparar a revelação da identidade de anônimos com a divulgação de dados pessoais que ponham alguém em risco.

Três dos principais ativistas pró-democracia de Hong Kong estão listados como "encrenqueiros da independência": Joshua Wong, Agnes Chow e Jimmy Lai. Wong, político conhecido em Hong Kong, conseguiu asilo político na Alemanha. Diz que, mesmo assim, o governo chinês procura todos os meios para colocá-lo na cadeia. Nathan Law, líder de protestos que era co-fundador do mesmo partido político de Wong, fugiu para o Reino Unido em julho.

Segundo a versão oficial do governo chinês, tanto Law quanto Wong são procurados internacionalmente por violação da Lei de Segurança Nacional e conspiração com autoridades estrangeiras. O primeiro a ser processado pelo governo chinês com sua nova lei foi o líder estudantil Tony Chung, de 19 anos de idade.

Até onde isso pode chegar? Depende do quanto cada governo está disposto a ceder ao poder econômico chinês. As técnicas de negociação são variadas, criativas e deixam a quem cede ao Partido Comunista boas opções para manter a fachada e a narrativa de que não tem nada com a história. Um bom exemplo é o da pesquisadora neozelandeza perseguida há 25 anos pela China, Anne-Marie Brady.

A professora de Ciência Política da Universidade de Canterbury é especialista em política internacional chinesa e tem produzido muitos trabalhos sobre a expansão econômica sutil da China e as novas técnicas de propaganda comunista do governo Xi Jinping. A diplomacia chinesa tentou convencer a universidade a impedir as pesquisas de Anne-Marie Brady e o apelo teve apoio do Ministério das Relações Exteriores da Nova Zelândia e da prefeitura da cidade onde fica o campus. Não deu certo, a universidade não abriu mão da liberdade acadêmica. Quantos chefes você conhece que tomariam a mesma decisão?

A questão escalou conforme a perseguição continuava. Eram "recados" vindos de diversos contatos na China falando sobre um esforço do governo para calar a pesquisadora. Professores de universidades chinesas chegaram a receber visitas oficiais de autoridades querendo tratar do assunto. Chegou ao ponto em que o escritório da professora foi revirado e arrombado. A questão escalou indo até o Congresso da Nova Zelândia e a professora agora tem segurança especializada. Quem vencerá a queda de braço? Difícil prever.

Além da manipulação de dados, a China tem outra maneira subreptícia muito eficiente para interferir na dinâmica de outros países: dinheiro. A Austrália, por exemplo, aprovou no ano passado uma lei impedindo doações chinesas para partidos políticos. Na Nova Zelândia, ainda não há esse tipo de proibição. Se o poder de barganha para financiar eleições já é grande, imagine o poder de barganha de quem pode impactar a economia do país todo.

Desde 2008, um acordo bilateral de livre comércio triplicou o volume de exportações e importações entre os dois países, levando à casa de USS 26 bi no ano passado. A China se tornou o maior parceiro comercial da Nova Zelândia e o segundo maior volume de turistas, perdendo apenas para a Austrália.

Na última semana, vários países de língua inglesa foram abalados pela denúncia de que uma empresa particular chinesa de Big Data, Zhenhua Data, é um braço do governo, não um negócio. Embora pareça competitiva e trabalhe para diversas empresas nos Estados Unidos, Austrália, Reino Unido e Nova Zelândia, ela estava entregando dados de autoridades, pessoas comuns e instituições para a inteligência e o exército da China. De todos os países que tiveram cidadãos atingidos, a Nova Zelândia é o único que não se pronunciou sobre o tema.

A China é hoje o maior parceiro comercial do Brasil. Os gráficos acima, elaborados pelo Instituto Brasileiro de Economia (IBRE), da Fundação Getúlio Vargas, são claríssimos. Quanto vale a liberdade do brasileiro e quanto vale a balança comercial na cabeça dos nossos políticos? Façam suas apostas, pelo visto não demoraremos muito para saber o resultado.

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Comentários [ 6 ]

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  • S

    Silva

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    O art. 17,II da CF proíbe financiamento estrangeiro de partidos por aqui.

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  • S

    Silva

    ± 13 horas

    Os vilões nos filmes chineses de artes marciais são quase sempre de Hong Kong... .Já os mocinhos seguem a milenar tradição chinesa...

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    Silva

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    Os vilões nos filmes chineses de artes marciais são quase sempre de Hong Kong... .Já os mocinhos seguem a milenar tradição chinesa...

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  • M

    Maquiavel

    ± 13 horas

    Aqui no Brasil o Doriana é amigão dos Xina...

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  • M

    Maquiavel

    ± 13 horas

    Ou o mundo acaba com a chinesada comunista ou a chinesada comunista acabará com o mundo com liberdade

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    Adriano Leme Ike

    ± 15 horas

    Está aprendendo mandarim, Madeleine ? Estão cada vez mais frequentes as letras chinesas.

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