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Pelas minhas contas, Mauricio Souza está eleito deputado federal pelo Estado que escolher, não precisa nem botar a campanha na rua. Ele desdenha, dá risada, desconversa. Políticos profissionais no mundo todo e ídolos da mídia, no entanto, já perceberam a força da pauta identitária. Dividir países internamente por grupos diferentes de oprimidos e opressores é uma bomba atômica jogada na democracia.

Em seu livro "A Traição Progressista", ainda sem tradução em português, o jornalista Alejo Schapire, que é de esquerda, explica como a transição da defesa da classe trabalhadora para a defesa da pauta identitária necessariamente vitimista leva o progressismo a uma tendência autoritária. Temos, inclusive, o alinhamento com as teorias e os governos mais sanguinários e excludentes do planeta, que tratam mulheres como animais e matam homossexuais em espetáculos públicos.

Para o parque de areia antialérgica da militância, sinalizar a própria virtude por defender "minorias" é praticamente um esporte. Não sofrem as consequências do divisionismo que causam e do autoritarismo que praticam. Quando juntam-se em bando para destruir a vida de alguém acusado de ser racista ou homofóbico, é quase como uma gincana. Ocorre que do outro lado tem uma pessoa real e as acusações quase sempre são falsas ou forçadas. Mauricio Souza virou involuntariamente um símbolo.

Fui apresentada ao jogador de vôlei por um amigo comum, o publicitário Sergio Lima, que nos convidou para o Afoitos Webcast, apresentado por ele. Também fez a gentileza de emprestar os estúdios e o trabalho da excelente equipe técnica para que pudéssemos fazer a gravação da entrevista. Confesso que não sabia muito sobre a história do atleta, fiquei sabendo mais sobre ele no episódio do cancelamento, quando pesquisei para escrever este artigo. Durante nosso encontro, compreendi por que o jogador é o alvo perfeito da patrulha canceladora.

Mauricio Souza contou a própria história. É de uma família pobre, começou a trabalhar ainda criança entregando jornais, virou servente de pedreiro aos 14 anos de idade. Não fala disso posando de sofredor ou vítima, conta para dizer que o vôlei era onde quis estar. Comparava a roupa que usava na obra às dos meninos treinando e aprendeu o que queria para si, que era possível aquele mundo. O jogador já foi da classe trabalhadora protegida pela esquerda, agora abandonada em prol de minorias inventadas sempre com sentido vitimista. Desculpe, ele é um campeão.

No livro de Alejo Schapire há uma longa reflexão sobre a necessidade do coitadismo para encaixar-se na narrativa da nova esquerda. Vinda das elites das grandes metrópoles, a causa só tem significado simbólico e somente para essas elites. Defendem os que seriam massacrados e oprimidos mas só enquanto posarem de vítimas. É o caso dos judeus. Saídos dos campos de concentração são vítimas, mas Israel é vilão. A única democracia do Oriente Médio, o único país que não mata homossexuais nem subjuga mulheres na região é mau porque forte. Quem se diz fraco pode jogar bomba onde bem entender.

O problema de Mauricio Souza foi vencer e continuar com os valores compartilhados pela maioria dos brasileiros, mas não pela pequena elite metropolitana que forma a patrulha identitária canceladora. Embora esse grupo monopolize a mídia e a publicidade, é absolutamente minoritário. Dessa forma, consegue tirar um campeão olímpico da seleção brasileira por um tuíte, mas não consegue apoio popular. O tiro sai pela culatra, as pessoas se vêem nele.

Mauricio Souza é bolsonarista e nunca escondeu. Lembra na época das Olimpíadas a patrulha para descobrir se cada um dos medalhistas era bolsonarista? A tentativa constrangedora de enfiar à força na pauta identitária atletas que não acreditam nisso? A rejeição a altetas militares? Quem reporta sobre esportes faz parte de uma minoria cultural, mas reporta para a maioria. Não creio que haja consciência da dimensão da diferença de opinião.

O novo progressismo metropolitano prega justiçamentos em casos como o do jogador. Ele reclama do Super-Homem bissexual e, por isso, precisa ser demitido, tirado da Seleção Brasileira e esculachado por todos os que se consideram gente fina, elegante e sincera. Se reclamos similares vierem de gente da esquerda, é pura liberdade poética. Quando o Hamas mata os próprios integrantes homossexuais, aí é costume local. É um comportamento que cansa as pessoas e já causa reações.

Acusar alguém de ser racista e homofóbico é um esporte para os iluminados da patrulha identitária, mas trata-se de algo grave e pesado. Mauricio Souza contou que ele sentiu o baque num primeiro momento, mas o maior baque é com a família. O impacto de acusações fortes e infundadas sobre os familiares chega a ser desesperador. Foi possível blindar os filhos pequenos, mas a mulher e os pais do jogador viveram o pesadelo que até então desconheciam.

Quando as acusações sobem de tom, pouco importa o que a pessoa fez, falou, o que de fato ocorreu. A versão passa a ser o centro da narrativa, a pessoa cancelada é tratada como lixo tóxico, quem não a ataca será atacado também. E foi aí que veio a consequência prática, perder o ganha-pão e levar uma mancha indelével na carreira por um tweet. Aliás, pela leitura distorcida que fizeram do tweet. Vivemos já uma distopia.

Mauricio Souza viu-se naquele momento sem emprego e encarou a realidade de não ter mais chances de voltar à Seleção Brasileira. Percebeu que não adiantava tentar desmentir nem desculpar-se mesmo tendo razão. Nada basta, só a aniquilação sacia a patrulha canceladora. Ocorre que o perfil do jogador explodiu de seguidores que não foram só ver a treta, estavam ali para apoiar, firmes. Hoje, esse é o ganha-pão da família.

A Fiat e a Gerdau resolveram demitir um jogador com quem tinham anos de relação profissional por pressão do departamento de marketing, sempre habitado pela minoria canceladora da patrulha identitária. A Fiat fez os carros oficiais de Hitler, Mussolini e Franco. A Gerdau foi os braços direito e esquerdo da Ditadura Militar no Brasil. Mas o pessoal do marketing não quer nem saber, primeiro cancela e depois ainda fatura com gestão de crise e programa de inclusão identitária.

Outras marcas tiveram tempo, algo que Fiat e Gerdau não tiveram ao analisar a barbaridade que estavam a fazer por pressão de uma elite autoritária. Diversas marcas perceberam que o excesso e a virulência do cancelamento criou um vínculo entre o público e Mauricio Souza. Com um perfil gigantesco, ele vive de publiposts e orgulha-se de dizer que realmente vende. Não duvido nada. A adesão ao perfil é apoio, as pessoas querem ajudar, colocam-se no lugar dele.

Já pensou lutar tanto na vida, chegar ao topo, pensar numa maneira bonita de encerrar a carreira e um bando de autoritários tomar isso da sua mão no grito? Aconteceu diante dos nossos olhos, com o cinismo da justificativa democrática e a conivência de quem tinha formas de resistir ao autoritarismo. É por isso que vários partidos de direita e até de centro estão de olho em Mauricio Souza. Ele nega interesse, mas aposto que a tentação virá. Fala manso, entende o povo, tem princípios, aprendeu a circular e negociar na alta roda internacional.

Confirma que já foi procurado por partidos grandes e figurões da política nacional. Ele ainda tem bastante tempo para decidir se quer, o que quer e em que condições. Voltou o foco para um programa social que tem há 6 anos e pretende fazer contato com prefeitos de todo o Brasil. Diz que vai onde quiserem uma escolinha de vôlei Mauricio Souza. Aposto que vai ter muito prefeito na fila.

Finalizo com a versão completa do webcast afoitos para você que quer conhecer mais dessa história e tem quase duas horas a dedicar ao nosso bate-papo. Já adianto que o host, Sergio Lima, ficou ao lado do Superman nessa. Chamou o ator Zezinho Pequenino para entrar de surpresa no papo - devidamente caracterizado como o herói - e cobrar cara a cara o jogador por ter falado mal dele. Agora vão cancelar até o anão.

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