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Neste mês de setembro, quando comemoramos a Independência do Brasil, a Minha Biblioteca Católica lançou sua primeira produção “caseira”: um box esplêndido sobre santos, beatos, servos de Deus e outros brasileiros que estão no caminho para a glória dos altares. Temos os conhecidos de todos, de Santo Antônio de Sant’Ana Galvão ao padre Léo, e vários que o leitor talvez nem soubesse que existiram – só conheci a bem-aventurada Isabel Cristina Mrad, por exemplo, meses atrás, visitando a catedral de Juiz de Fora. Este colunista contribuiu para o livro com um capítulo sobre os beatos padre Manuel Gómez González e coroinha Adílio Daronch. E digo que deveríamos encomendar a eles o nosso país nesta época de disputa política.
Como recorda meu colega Ricardo Gomes, que assina uma coluna publicada às quartas-feiras aqui na Gazeta, quem diz que “o Brasil nunca esteve tão polarizado politicamente” não sabe o que foi o Rio Grande do Sul do fim do século 19 e início do século 20, quando a rivalidade política entre chimangos e maragatos degenerou em guerra civil fratricida e cruel, com direito à degola de prisioneiros que pertencessem ao grupo inimigo. Mas o fato de já termos vivido coisa muito pior não significa que seja normal isso que estamos vendo hoje.
Que a intercessão dos beatos Manuel e Adílio ajude os brasileiros a deixar para trás o ódio político que divide famílias e acaba com amizades
Outro dia, minha esposa e eu estávamos dando catequese matrimonial para oito casais de noivos e recordávamos Os quatro amores, de C.S. Lewis. O primeiro deles, traduzido como “afeição”, é aquele que sentimos pelos nossos familiares – apenas porque são nossos familiares. Nas convicções da Gazeta, afirmamos que a família é o “ambiente em que cada um é querido pelo que ele é, independentemente de sua utilidade ou de seus atributos”. No curso, dizíamos que isso vale inclusive para a prima que faz o L e para o tio que faz arminha. Isso é tão evidente que nem é preciso ser um cristão devoto para perceber. Quando, num Roda Viva em dezembro de 2019, Tati Bernardi perguntou aos entrevistados como ela poderia perdoar o pai no Natal por ter votado em Bolsonaro, Leandro Karnal respondeu que “se vocês vão se encontrar para o Natal, Bolsonaro não é o melhor tema. E, se não há outro tema, a culpa não é da política”. Lulistas e bolsonaristas podem não estar se degolando nas ruas, mas o clima de hoje, com famílias brigadas por causa de política, é doentio, sim senhor.
Mas voltemos aos beatos Manuel e Adílio, e onde eles entram nisso. Sem dar muito spoiler – a ideia é que vocês leiam o livro –, o padre Manuel entrou na mira dos chimangos, positivistas e anticlericais, que governaram a região onde ele atuava, porque tomou a iniciativa de sepultar um grupo de maragatos mortos, e que haviam sido deixados ao léu. Além disso, em seus sermões pedia insistentemente que os dois lados depusessem as armas. Durante uma viagem para dar assistência espiritual a comunidades mais distantes da sede paroquial, o padre e o coroinha foram emboscados e assassinados.

Alguém haverá de dizer que, então, os dois foram mortos por causa de uma rivalidade política, e não seriam mártires, porque esses dão a vida pela fé. Errado! Nem Manuel nem Adílio tinham posição política; e mesmo que os chimangos locais achassem que o padre tivesse tomado o lado dos maragatos ao sepultar aqueles mortos, isso também era irrelevante. Pensemos nos mártires do início do cristianismo. Eles não queriam depor o imperador ou coisa parecida; mas o seu comportamento, ditado pela fé cristã que tinham, contrariava o desejo do imperador romano, que pretendia ser adorado como um deus. Com os beatos Manuel e Adílio foi o mesmo: eles não eram maragatos nem pretendiam derrotar os chimangos, mas a fé cristã do padre Manuel mandava que desse sepultura aos mortos, e isso bastou para desagradar as autoridades locais, que ainda por cima tinham ojeriza à religião devido ao seu positivismo. Odium fidei, portanto. Os beatos Manuel e Adílio foram autênticos mártires.
Que a intercessão dos beatos Manuel e Adílio – cujo santuário está na cidade de Nonoai, na diocese de Frederico Westphalen (RS) – ajude os brasileiros a deixar para trás o ódio político que, mesmo não sendo tão brutal quanto em sua época, ainda divide famílias e acaba com amizades. A divergência política é natural e saudável; o que não faz o menor sentido é absolutizar a política e transformá-la no critério último que guia todas as nossas atitudes e afetos.

Marcio Antonio Campos é editor de Opinião da Gazeta do Povo. Autor de "A razão diante do enigma da existência" e coautor de "Bíblia e natureza: os dois livros de Deus – reflexões sobre ciência e fé", mantém a coluna quinzenal Tubo de Ensaio, sobre a relação entre ciência e religião, e uma coluna semanal sobre temas relacionados à Igreja Católica. Em 2025, cobriu em Roma o conclave que elegeu o papa Leão XIV. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.







