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Nesta terça-feira, o papa Leão XIV celebrou, no Vaticano, a missa da solenidade da Epifania do Senhor – cuja data correta é hoje mesmo; no Brasil ela é movida para o domingo mais próximo – e fechou a Porta Santa da Basílica de São Pedro, encerrando oficialmente o Jubileu de 2025; outro, agora, só daqui a 25 anos (ou em 2033, se tivermos um Ano Santo para marcar os 2 mil anos da Redenção). Mas nada de descanso para o pontífice: na quarta e na quinta-feira, ele se reunirá com todos os quase 250 cardeais (só não estarão presentes os que não puderem ir a Roma) em seu primeiro consistório extraordinário.
O termo se aplica, pois essas reuniões são de fato extraordinárias. O comum são os consistórios ordinários, ocasiões em que novos cardeais são criados ou em que o papa discute com os cardeais as causas de canonização de novos santos (neste segundo caso, costumam participar apenas os cardeais que moram em Roma). Os consistórios extraordinários são convocados pelo papa quando ele quer reunir todo o Colégio Cardinalício com o objetivo de discutir um ou mais temas específicos.
Reuniões com todos os cardeais têm sido raras
Durante os 12 anos de seu pontificado, o papa Francisco convocou apenas três consistórios extraordinários. O primeiro ocorreu em 2014, para discutir questões relacionadas à família, que seria tema de duas assembleias do Sínodo dos Bispos, em 2014 e 2015 – foi nesse consistório que o cardeal Walter Kasper lançou sua sugestão sobre a possibilidade de católicos divorciados em nova união civil poderem receber a comunhão. Os outros dois ocorreram em 2015 e 2022, ambos sobre o mesmo tema: a reforma da Cúria Romana, realizada meses antes do consistório de 2022 por meio da constituição Preadicate Evangelium. Em geral, Francisco preferia se aconselhar com um conselho mais restrito de cardeais, vindos de vários cantos do mundo, e que não foi dissolvido por Leão XIV – dom Sérgio da Rocha, cardeal-arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, é um dos integrantes.
“Poder estar junto ao Santo Padre, escutar suas perguntas e poder respondê-las fortalece a comunhão com o Colégio Cardinalício e ajuda a compreender cada vez mais a visão universal da Igreja.”
Dom Orani Tempesta, cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro.
A escassez de consistórios extraordinários no pontificado de Francisco está entre os elementos que levaram a uma situação frequentemente mencionada durante os preparativos do conclave que terminou com a eleição de Robert Prevost, em maio: muitos cardeais (inclusive alguns ouvidos pela Gazeta do Povo) disseram à época que ainda não se conheciam suficientemente bem. Algumas tentativas de sanar esse déficit, com projetos como o The College of Cardinals Report, dos vaticanistas Edward Pentin e Diane Montagna (traduzido e publicado no Brasil com exclusividade pela Gazeta), foram criticados por sites e vaticanistas do “progressismo católico” como tentativas de “interferir” no conclave, porque seus criadores teriam preferências conservadoras – uma tolice rematada, claro: os cardeais não são tuteláveis e sabiam julgar por conta própria o que seus confrades faziam ou diziam...
Isso não quer dizer, no entanto, que consistórios extraordinários fossem muito mais comuns nos pontificados anteriores: segundo a agência Fides, São João Paulo II convocou apenas seis dessas reuniões em quase 27 anos de pontificado; Bento XVI promoveu essas reuniões com mais frequência, e costumava aproveitar os consistórios ordinários, para a criação de novos cardeais (foram cinco em seus oito anos de pontificado: 2006, 2007, 2010, fevereiro de 2012 e novembro de 2012), para discutir vários assuntos com todos os cardeais.
Temas do consistório foram listados em mensagem de Natal do papa
O Vaticano só confirmou oficialmente a realização do consistório alguns dias antes do Natal, mas desde o início de dezembro a reunião já era tratada como certeza por vaticanistas. Aos poucos, foram emergindo outros detalhes, como os assuntos que Leão XIV gostaria de discutir com os cardeais: a governança da Igreja, a sinodalidade, a evangelização e a liturgia. A mensagem de Natal enviada pelo papa aos cardeais sacramentou a pauta do consistório; Leão XIV ainda pediu aos cardeais que, em preparação, lessem tanto a Praedicate Evangelium quanto a exortação Evangelii gaudium.

A inclusão da liturgia entre os assuntos do consistório tem chamado a atenção especialmente de conservadores e tradicionalistas, mas não há nenhuma indicação formal de que as controvérsias envolvendo a missa tridentina e as restrições impostas por Francisco em Traditionis custodes estejam na pauta. Leão XIV falou pouquíssimo sobre missa tridentina até agora – apenas uma resposta à jornalista Elise Ann Allen; por outro lado, já insistiu sobre a necessidade de formação litúrgica nas paróquias. Discursando aos participantes de um curso organizado pelo Pontifício Instituto Litúrgico, o papa pediu uma “liturgia digna, atenta às diferentes sensibilidades e sóbria em sua solenidade”. A preocupação com a bagunça litúrgica tem sido uma constante desde João Paulo II até Francisco, e não se pode descartar que seja isso que Leão XIV tem em mente para o consistório.
Cardeais brasileiros relatam suas expectativas
“Espero que o próximo consistório seja muito enriquecedor e esperançoso para a vida da Igreja”, afirmou à coluna dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, e decano dos cardeais brasileiros – ele foi nomeado em 2007, por Bento XVI, e portanto já participou de um punhado de consistórios extraordinários. Cardeal desde 2014, dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro, tem expectativa semelhante: “vamos colaborar e fazer a nossa parte enquanto cardeais que partilham com o Santo Padre essa responsabilidade pela vida da Igreja”.
Nenhum dos cardeais brasileiros ouvidos pela coluna adiantou quais contribuições específicas sobre algum dos temas eles pretendem levar ao consistório. Dom Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre e presente da CNBB, afirmou apenas que “não se trata de partilhar apenas as nossas necessidades, mas também as coisas boas que acontecem nas diversas realidades eclesiais”, e dom Orani disse que falará “sobre os projetos, as experiências e as situações que o papa coloca para reflexão, partindo da minha vivência no Brasil e na América Latina. A minha visão da Igreja e do mundo nasce dessa realidade latino-americana, brasileira e, de modo particular, carioca”.
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Dom Odilo ainda acredita que outros assuntos, além dos estabelecidos pelo papa, podem surgir durante as conversas. “Penso que a maior parte do tempo será dedicada a temas específicos, mas poderá haver algum momento para falas livres, sobre qualquer assunto. O consistório serve para os cardeais ouvirem o papa, suas preocupações, suas indicações sobre a vida e a missão da Igreja, e também será ocasião para o papa ouvir os cardeais sobre questões que ele poderá submeter à reflexão do Colégio Cardinalício”, explicou. Dom Jaime Spengler tem expectativa semelhante; este será seu primeiro consistório extraordinário, pois ele foi um dos últimos cardeais criados por Francisco, em dezembro de 2024, mas ele também levanta um problema prático: “imagino que no debate provavelmente possam surgir outros temas, mas temos um dia e meio, espero que se possa de alguma forma abordar todos os temas da pauta”.
Com pouco tempo e muita gente para falar, o risco de que cada um tenha pouco tempo, ou que nem todos tenham a chance de se manifestar, é razoável. Para tentar contornar esse obstáculo, segundo o jornalista Nico Spuntoni, os cardeais devem ser divididos em grupos de trabalho, em vez de haver muitas sessões plenárias com a participação de todos. Uma vantagem do modelo é a de permitir que mais cardeais tenham voz, mas a desvantagem é que as intervenções podem não chegar aos ouvidos de todos (incluindo os de quem mais importa, o papa), sendo resumidas ou suprimidas nos relatórios finais.
Fim do Jubileu encerra “pendências” do pontificado de Francisco
Para alguns vaticanistas, o fechamento da Porta Santa nesta segunda-feira seria o encerramento de uma espécie de “transição”, em que Leão XIV completa sua lista de compromissos “recebidos” de seu antecessor: documentos em elaboração já foram divulgados (a exortação Dilexi te e as notas doutrinais Mater populi fidelis e Una caro), eventos foram realizados, a viagem à Turquia para celebrar os 1,7 mil anos do Concílio de Éfeso foi feita, e o ano jubilar foi concluído com sucesso. Agora, segundo esses vaticanistas, Leão XIV estaria livre para conduzir a Igreja como acha que tem de fazer, e o consistório extraordinário seria um primeiro ato desse período.
Já comentei aqui que discordo dessa ideia de que Leão XIV esteja escondendo as cartas esse tempo todo e só agora vai mostrar a mão. Já temos oito meses de pontificado, e se é verdade que Leão quis honrar Francisco ao não interromper projetos que estavam em andamento (especialmente os relativos aos documentos), nem por isso deixou de imprimir sua marca; o perfil de Robert Prevost é esse mesmo, mais reservado, não o de alguém que vai botar o pé na porta. As nomeações estão saindo, e algumas das mais importantes foram divulgadas em dezembro: as dos novos arcebispos de Nova York e de Westminster (que cobre a parte de Londres ao norte do Rio Tâmisa). Creio que o papa vai manter o caminho que tem trilhado até agora, fazendo aos poucos as substituições e os ajustes que achar necessários.








