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Marcio Antonio Campos

Marcio Antonio Campos

Vaticano, CNBB e Igreja Católica em geral. Coluna atualizada às terças-feiras

Governança da Igreja

Leão XIV realizará consistórios extraordinários anualmente para ouvir os cardeais

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Leão XIV durante a primeira sessão do consistório extraordinário, em 7 de janeiro. (Foto: Vatican Media handout/EFE/EPA)

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Diz o Código de Direito Canônico que os cardeais têm duas grandes funções: escolher um novo papa quando a Sé Apostólica está vacante, e prestar “auxílio ao Romano Pontífice na solicitude quotidiana da Igreja universal”. Esta segunda função ganhou um impulso considerável ao fim do consistório extraordinário realizado em 7 e 8 de janeiro, pois o papa Leão XIV determinou que, a partir de agora, as reuniões com todos os cardeais para tratar de temas relevantes para a Igreja Católica ocorram anualmente – e o próximo já está marcado para junho deste ano. “O desejo do papa é consultar de maneira mais ampla e sistemática os seus cardeais”, disse à coluna dom Orani Tempesta, cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro.

De fato, esta parece a continuação natural de um processo iniciado durante o conclave, em que muitos cardeais reclamaram da falta de oportunidades para encontro, conhecimento mútuo e troca de ideias durante o pontificado de Francisco – uma falta que, justiça seja feita, não pode ser jogada toda nas costas do papa, pois tivemos anos de pandemia atrapalhando as interações, especialmente considerando que os cardeais, por sua idade, eram o grupo de risco por excelência; além disso, como comentei na semana passada, os antecessores de Francisco também foram bastante parcimoniosos na convocação de consistórios extraordinários. Leão XIV parece disposto a sanar esta lacuna e, se perceber que o compromisso anual está sobrecarregando os cardeais, nada impede que ele mude a periodicidade ou volte ao sistema anterior, de convocações esporádicas.

Muita coisa para pouco tempo

Leão XIV também já disse desejar que os próximos consistórios durem mais tempo, coisa de três a quatro dias. Também, pudera: na semana passada os cardeais tinham apenas um dia e meio para tratar de quatro temas nada triviais, e não surpreende que eles tenham reduzido o programa para os dois assuntos mais votados: a evangelização e a sinodalidade. Isso reduziu ainda mais o tempo de debate propriamente dito. “O primeiro dia foi dedicado à discussão inicial, à escuta conjunta e à reflexão, com o objetivo de escolher os temas. No dia seguinte, pela manhã, foi aprofundado um dos temas escolhidos e, à tarde, o outro tema, com suas conclusões e o respectivo resumo”, relatou dom Orani.

Qualquer papa decidirá melhor se puder ouvir todo tipo de argumento, e não apenas aquilo que ele gostaria de ouvir

A maior parte das discussões acabou ocorrendo dentro dos grupos; apenas ao fim houve uma sessão plenária em que alguns cardeais tiveram escassos três minutos para falar diante de todos os seus confrades – cerca de 170 deles estiveram no consistório; dezenas não vieram por questões de idade avançada, saúde ou dificuldades logísticas para a viagem. “A divisão em grupos foi uma experiência muito positiva, pois deu a todos a oportunidade de falar e participar. Pude dizer tudo o que queria e gostaria, dentro dos temas propostos para a nossa reflexão”, afirmou o arcebispo do Rio, acrescentando que o consistório mostrou uma certa continuidade com as congregações gerais, as reuniões pré-conclave com a participação de todos os cardeais, eleitores ou não. “O papa está levando em consideração as orientações apresentadas nas congregações gerais, que, aliás, refletem aquilo que foi mais recorrente nas opiniões manifestadas”, acrescentou dom Orani.

O porta-voz do Vaticano, Matteo Bruni, afirmou que os temas que ficaram de fora, a liturgia e a reforma da Cúria Romana, não estão escanteados e serão alvo de futuras discussões – como Bruni falou aos jornalistas na noite do dia 7, não tinha como antecipar se esses temas estariam no consistório de junho, já que o anúncio dos eventos anuais só foi feito no dia 8. Eu, particularmente, espero que a liturgia entre na pauta – e não falo só de discutir as restrições à missa tridentina, mas do cuidado litúrgico como um todo, pois a bagunça segue firme e forte a despeito dos apelos de todos os papas recentes para que o culto divino seja bem celebrado. A liturgia é, em primeiro lugar, um ato dirigido a Deus; mas também é uma potente ferramenta de evangelização e “comunica” a Igreja ao mundo de uma forma muito melhor que a conversa sem fim sobre a sinodalidade (que, cá entre nós, é uma discussão completamente autorreferencial e que, mesmo iniciada por Francisco, vai na direção contrária ao que ele pediu na Evangelii gaudium).

Debate livre é melhor que discurso controlado

“Todos tinham plena liberdade para expressar o que desejavam e pensavam”, afirmou dom Orani sobre as discussões do consistório. E talvez aqui esteja um dos maiores méritos da decisão papal de realizar consistórios anuais: dar aos cardeais a oportunidade de falar livremente, de preferência diante do papa e de todo o Colégio Cardinalício. Alguns vaticanistas afirmam que a parcimônia do papa Francisco na convocação de consistórios extraordinários foi motivada pelo que ocorreu em 2014, quando Walter Kasper apresentou sua proposta de permitir a comunhão a católicos divorciados que viviam em nova união civil, e foi contestado por Gerhard Müller, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

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Em vez de consistórios frequentes, Francisco acabou se apoiando mais no Conselho de Cardeais, o tal C9, com membros escolhidos diretamente por ele. Uma consequência (desejada ou não, pouco importa) disso foi um “escanteamento” de cardeais que contestavam as ideias e projetos do papa. Quanto mais consistórios e mais oportunidades para todos os cardeais manifestarem o que pensam (inclusive com direito a intervenções como a do cardeal Joseph Zen, forte crítico da sinodalidade), melhor. Qualquer papa decidirá melhor se puder ouvir todo tipo de argumento, e não apenas aquilo que ele gostaria de ouvir, e algo que se diz com muita frequência de Leão XIV é que ele é alguém disposto a receber e escutar a todos antes de tomar qualquer medida importante para a Igreja.

Leão XIV denuncia “curto-circuito” das liberdades em discurso a diplomatas

Leão XIV encontro diplomatasLeão XIV em meio aos diplomatas que recebeu em audiência em 9 de janeiro. (Foto: Vatican Media handout/EFE/EPA)

Em 9 de janeiro, dia seguinte ao encerramento do consistório, Leão XIV recebeu os diplomatas dos países com os quais a Santa Sé mantém relações diplomáticas, e não economizou no discurso. Depois de uma recapitulação dos acontecimentos de 2025, o papa agostiniano falou aos diplomatas sobre uma das obras mais importantes de Santo Agostinho, A Cidade de Deus, afirmando que:

[A Cidade de Deus] não propõe um programa político, mas fornece reflexões valiosas sobre questões fundamentais da vida social e política, como a busca por uma coexistência mais justa e pacífica entre os povos. Agostinho também alerta sobre os graves perigos para a vida política decorrentes de falsas representações da história, de um nacionalismo excessivo e da distorção do ideal do estadista. Embora o contexto em que hoje vivemos seja diferente do século 5.º, certas semelhanças permanecem bastante atuais.”

Se a referência ao crescente uso do poder bélico, ao enfraquecimento do multilateralismo e à migração eram esperadas, o mesmo não se pode dizer de outras denúncias feitas por Leão XIV. O papa criticou especialmente a crise da liberdade de expressão, “enquanto se desenvolve uma nova linguagem, ao estilo de Orwell, que, na tentativa de ser cada vez mais inclusiva, acaba por excluir aqueles que não se adaptam às ideologias que a animam” – uma referência clara à perseguição contra aqueles que se opõem, por exemplo, à ideologia de gênero, ou que defendem a moral sexual da Igreja Católica. Esta perseguição também se dá por meio de restrições à objeção de consciência, pela qual, por exemplo, um profissional de saúde pode se recusar a participar de um aborto; Leão XIV afirma que “a objeção de consciência não é uma rebelião, mas um ato de fidelidade a si mesmo”, e lamenta que muitos países ocidentais estejam trabalhando para fragilizá-la.

“As considerações que apresentei levam a pensar que, no contexto atual, esteja a ocorrer um verdadeiro ‘curto-circuito’ dos direitos humanos.”

Papa Leão XIV, em discurso a diplomatas

O tema foi retomado quando Leão XIV falou das restrições à liberdade religiosa em todo o mundo. O papa denunciou “uma forma sutil de discriminação religiosa contra os cristãos, que se está a difundir também em países em que eles estão em maioria, como na Europa ou nas Américas, onde às vezes, por razões políticas ou ideológicas, se veem limitados na possibilidade de anunciar as verdades evangélicas, especialmente quando defendem a dignidade dos mais frágeis, dos nascituros, dos refugiados e dos migrantes, ou promovem a família”. Um alerta providencial. Afinal, não é em todo lugar que um católico pode dizer, como disse o papa, que “a vocação ao amor e à vida (...) se manifesta de forma proeminente na união exclusiva e indissolúvel entre a mulher e o homem”; ou considerar “deplorável que recursos públicos sejam destinados à eliminação da vida, em vez de serem investidos no apoio às mães e às famílias”.

O papa encerrou essa parte do discurso falando de:

“um verdadeiro ‘curto-circuito’ dos direitos humanos. O direito à liberdade de expressão, à liberdade de consciência, à liberdade religiosa e até mesmo o direito à vida sofrem limitações em nome de outros direitos considerados novos, resultando na perda de vigor do próprio sistema de direitos humanos, o que abre caminho à força e à opressão. Isso ocorre quando cada direito se torna autorreferencial e, sobretudo, quando perde a sua conexão com a realidade das coisas, a sua natureza e a verdade.”

Realidade, natureza e verdade: tudo aquilo que foi negado e substituído por uma espécie de “ditadura do sentimento”. Ditadura não apenas porque absolutiza as percepções individuais, independentemente do quão distantes elas estejam da realidade, mas também porque proíbe, caça e pune qualquer manifestação que traga alguma sensatez ao debate. Pela veemência do discurso de Leão XIV, é até certo ponto surpreendente que ele não tenha tido uma repercussão maior na imprensa – ou, pensando bem, talvez essa pouca repercussão seja exatamente a confirmação de tudo aquilo que o papa afirma.

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Fulton Sheen, bispo ganhador do Emmy, deve ser beatificado em setembro

Fontes ligadas ao processo de beatificação do arcebispo norte-americano Fulton Sheen afirmaram ao site The Pillar que a cerimônia deve finalmente ocorrer em setembro deste ano. O milagre necessário para a beatificação já tinha sido aprovado pelo papa Francisco em 2019, e estava tudo certo para Sheen ser proclamado bem-aventurado em dezembro daquele ano, mas o bispo de Rochester (diocese que Sheen governou entre 1966 e 1969) pediu uma pausa para terminar de averiguar um possível mau gerenciamento de um caso de abuso – no fim, ficou comprovado que Sheen não havia dado nenhuma função a um padre acusado de abusar de adultos anos antes.

Pense em qualquer padre que faça ou tenha feito sucesso na televisão evangelizando e explicando a doutrina católica: ele certamente tem uma dívida enorme com Fulton Sheen. Seu programa Life is worth living ficou no ar em horário nobre entre 1952 e 1957, desbancando até mesmo um programa apresentado por Frank Sinatra. O bispo foi indicado ao Emmy, o principal prêmio da televisão norte-americana, três vezes, e ganhou uma, em 1952. Além disso, ele escreveu dezenas de livros, vários dos quais têm edição brasileira, como Três para casar. Que ele seja um grande intercessor por todos os que usam os meios de comunicação para levar Cristo às pessoas.

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