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Nesta sexta-feira, o papa Leão XIV inicia sua viagem apostólica à França, e ele passará o fim de semana no santuário mariano de Lourdes. Talvez tão interessante quanto o que o papa verá em Lourdes é aquilo que ele não verá: os mosaicos do padre Marko Ivan Rupnik que estavam no santuário estão todos cobertos por painéis muito frugalmente decorados, com motivos e frases alusivos à visita papal. Mas, enquanto um santuário mariano mundialmente famoso esconde a arte do padre acusado de abuso, um outro santuário mariano mundialmente famoso inaugura novas obras, com muito alarde.
Não é de hoje que Lourdes vem cobrindo os mosaicos do Centro Aletti, fundado por Rupnik. Esse processo começou em março de 2025, com as portas da Basílica de Nossa Senhora do Rosário; na semana passada, os últimos mosaicos que ainda estavam visíveis terminaram de ser cobertos. A decisão foi do bispo de Tarbes e Lourdes, Jean-Marc Micas, e de uma comissão criada especialmente para analisar o caso. A novidade está no fato de que as coberturas não serão removidas após a passagem de Leão XIV pelo santuário. Em uma entrevista recente, o bispo Micas contou que, em agosto do ano passado, o papa o recebeu em audiência e o encorajou a continuar cobrindo os mosaicos.
E não foi só isso: o papa ainda disse ao bispo que havia sido ele quem ordenara pessoalmente ao setor de comunicações do Vaticano que parasse de usar a arte de Rupnik – o que de fato aconteceu menos de um mês depois que Leão XIV foi eleito. Em 2024, ainda no pontificado de Francisco, o chefe do Dicastério para as Comunicações, Paolo Ruffini, chegou a defender as publicações, e não sei até que ponto isso pesou na decisão de Leão XIV de substituí-lo pela mexicana Montserrat Alvarado a partir de novembro. Certo é que o papa vem procurando se distanciar da obra de Rupnik: o tradicional retiro de Quaresma deste ano não ocorreu na capela Redemptoris Mater, como costumava acontecer desde a época de João Paulo II, mas na Capela Paulina do Palácio Apostólico – isso porque a Redemptoris Mater está coberta do chão ao teto com mosaicos do Centro Aletti, uma obra realizada no fim do século passado.
Rupnik é acusado de abuso; processo ainda está em andamento
O padre Rupnik passou décadas sendo exaltado como o grande nome da arte sacra contemporânea, e isso explica que sua arte apareça em tantos lugares que são referência no catolicismo mundial, do Vaticano a San Giovanni Rotondo (a terra do Padre Pio), Lourdes e Fátima. No entanto, no fim de 2022, a ordem jesuíta, à qual Rupnik pertencia, tornou pública uma investigação sobre abusos sexuais, psicológicos e religiosos que o sacerdote teria cometido contra dezenas de mulheres adultas, principalmente em uma comunidade que ele dirigia na sua Eslovênia natal, ao longo da década de 1990.
Leão XIV vem procurando se distanciar da obra de Rupnik, ordenando que o site do Vatican News não exiba mais seus mosaicos, e evitando capelas decoradas por ele
O caso teve inúmeras idas e vindas. Rupnik foi expulso da Companhia de Jesus em 2023, e chegou a estar temporariamente excomungado por ter absolvido em confissão uma noviça com quem ele teria tido relações sexuais. Várias restrições foram impostas ao padre, e o papa Francisco, depois do que foi visto (e criticado) como uma leniência inicial, ordenou que o Dicastério para a Doutrina da Fé retomasse o processo canônico, removendo algumas regras que poderiam levar o caso à prescrição e, consequentemente, à impunidade.
Por mais que as evidências contra o padre Marko Rupnik sejam muito fortes, ainda assim é possível que ele acabe escapando – chegou a circular, em meados deste ano, um boato de que o processo teria terminado com a absolvição do sacerdote, mas o Vaticano desmentiu as alegações. Para quem se interessa por esse tema, recomendo a análise que JD Flynn fez no site The Pillar. Flynn é canonista, já foi chanceler arquidiocesano, e explica como, apesar da decisão do papa Francisco de remover o prazo prescricional, continua havendo brechas pelas quais o processo pode terminar sem uma condenação (ainda que também sem um veredito de inocência). Quanto a isso, só nos resta rezar para que se chegue à solução mais justa possível.
Aparecida seguiu em frente com mosaicos mesmo durante controvérsia
O maior projeto do Centro Aletti está no Brasil: as fachadas do Santuário Nacional de Aparecida. Em 12 de setembro, um mês antes da festa da padroeira do Brasil, foi inaugurada a fachada Oeste, a última das quatro decoradas pelos mosaicistas. A fachada Norte foi concluída em 2022 – antes, portanto, de o escândalo estourar. A divulgação dos abusos, no entanto, não parou o trabalho: as fachadas Sul e Leste foram inauguradas, respectivamente, em 2024 e 2025.
Desde a semana passada, a coluna entrou em contato com a assessoria de imprensa do Santuário Nacional duas vezes por e-mail e uma vez por telefone, perguntando sobre a decisão de seguir adiante com os mosaicos mesmo depois que o caso do padre Rupnik veio à luz, sobre qual foi sua participação exata na concepção e na execução das cenas bíblicas que estão nas fachadas, e sobre o custo total da obra; até agora não houve resposta. Mas parece que algum tipo de “consciência” há por parte da administração, porque o leitor pode vasculhar o site da basílica e não encontrará menção ao nome de Rupnik nas seções dedicadas aos mosaicos.
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Acontece que simplesmente apagar o nome é quase um truque inócuo. Rupnik é Centro Aletti, e Centro Aletti é Rupnik. Os mosaicistas podem ser outros, podem não ter nada a ver com os abusos, mas eles estão executando a arte concebida pelo padre esloveno, no estilo que ele desenvolveu. Como se não bastasse, Rupnik continua listado no site do Centro Aletti como diretor do Ateliê de Arte Espiritual e presidente do Ateliê de Teologia. Os mosaicos gritam “Rupnik!” a quem quer que olhe para eles e tenha um mínimo de conhecimento sobre o que aconteceu. Mas, se apenas fingir que Rupnik não existe é ineficaz (e até contraproducente), vamos fazer o quê?
O problema não é só o artista, é a arte também
Eu entendo a dificuldade em destruir tudo – especialmente no caso de Aparecida, onde o dinheiro para o projeto veio da Campanha dos Devotos. Como é que vamos explicar pra senhorinha que deu seu suado dinheiro para enfeitar a Casa da Mãe, e provavelmente nunca ouviu falar de Rupnik e do que ele fez, que agora vamos desmanchar tudo o que foi feito? Eu não tenho essa resposta. Agora não lembro quem foi que sugeriu que os mosaicos fossem desfeitos e as pedras fossem vendidas para uma nova campanha que levantasse fundos para um outro artista refazer as fachadas...
Algumas respostas eu não tenho, mas outras me parecem evidentes. Acho que as vítimas de Rupnik deveriam ser ouvidas. Até onde eu sei, não há brasileiras entre elas, mas o The Pillar ouviu uma ex-noviça italiana que vive em Portugal, onde há uma controvérsia parecida com a nossa, pois o Santuário de Fátima tem um mosaico enorme de Rupnik na basílica nova (que, por mim, podia ser toda demolida). Ela narra o sentimento ruim que toma conta dela em lugares que foram decorados pelo Centro Aletti, mas aceita a possibilidade (embora não seja a sua preferida) de manter as obras com avisos a respeito das acusações contra Rupnik, levando em conta justamente fatores como a motivação de quem encomendou a obra e quem contribuiu financeiramente com ela.
Há dois argumentos que eu considero mais fortes: o de que é preciso separar o artista da obra, e o de que muita gente que trabalhou nos mosaicos não tem nada a ver com os abusos. Quanto a este último, o problema é que, como eu disse, mesmo o mosaicista mais puro de coração está executando algo que foi concebido por um abusador – se não foi desenhado diretamente por Rupnik, ao menos segue um estilo que é inequivocamente seu, e isso nos devolve ao ponto de partida, sobrando a ideia de separar a obra de seu autor. Com isso eu concordo em parte: ninguém precisa endossar o estilo de vida de um Cazuza, por exemplo, para gostar de suas músicas (e, para os mais puristas musicalmente, vários compositores clássicos eram bem libertinos).
Simplesmente apagar o nome de Rupnik é quase um truque inócuo. Os mosaicistas do Centro Aletti podem não ter nada a ver com os abusos, mas eles estão executando a arte concebida pelo padre esloveno
O problema é que o estilo de Rupnik também é problemático em si mesmo. Quem me lê há mais tempo sabe que, de início, eu até simpatizava com aquela “releitura” da arte bizantina, que eu aprecio. Mas então fui lendo, fui lendo, e mudei minha impressão. Vejam o que diz a ex-noviça entrevistada pelo The Pillar:
“A experiência de estar diante desses mosaicos me provoca uma sensação de invasão, por causa do uso insistente do dourado e de cores fortes, do tamanho das figuras, da sensação inquietante causada por seus olhos negros, sem fundo, e também, em alguns casos, pelas posturas corporais das figuras. São corpos que nos transmitem uma sensação de invasividade. Não nos sentimos acolhidos como deveríamos, e como acontece diante da autêntica arte dos ícones bizantinos, que nos permitem entrar em um espírito de profunda oração.”
A respeito especificamente dos olhos enormes e todos pretos, eu volto a recomendar o texto de Hilary White em que ela disseca esses olhos e mostra tudo o que há de errado com eles (e não só com eles). “O olhar vazio de Rupnik é a expressão de uma boneca sem vida”, diz ela. O que ela apresenta ali é mais que suficiente para fazer todo bispo ou responsável pela encomenda de arte sacra para igrejas parar imediatamente de recorrer a qualquer arte ao estilo de Rupnik, ainda que ele saia sem condenação do processo canônico. Se o Centro Aletti quiser fazer mosaicos em outro estilo, ótimo, deve haver gente muito talentosa lá. E, enquanto isso, vamos pensando no que fazer com o que já está pronto – a solução preferida do papa Leão XIV nós já sabemos.

Marcio Antonio Campos é editor de Opinião da Gazeta do Povo. Autor de "A razão diante do enigma da existência" e coautor de "Bíblia e natureza: os dois livros de Deus – reflexões sobre ciência e fé", mantém a coluna quinzenal Tubo de Ensaio, sobre a relação entre ciência e religião, e uma coluna semanal sobre temas relacionados à Igreja Católica. Em 2025, cobriu em Roma o conclave que elegeu o papa Leão XIV. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




