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Na última sexta-feira, dia 12, além de solenidade do Sagrado Coração de Jesus (ótima ocasião para reler um dos melhores textos de Francisco, a encíclica Dilexit nos), também foi Dia Mundial de Oração pela Santificação dos Sacerdotes – não é coincidência: foi São João Paulo II quem, em 1995, instituiu esse dia de oração e determinou que ele sempre fosse celebrado junto com o Sagrado Coração de Jesus. Em todas as vezes que o papa Leão XIV se dirigiu aos padres, ele sempre adotou um tom de gratidão pelo seu trabalho, encorajando-os a seguir em frente. Não foi diferente com a bela mensagem escrita por ele este ano.
O papa afirma que há um “paradoxo” na vida sacerdotal: “somos chamados a participar na própria santidade de Deus, mas (...) somos limitados e imperfeitos, muitas vezes marcados por fraquezas e cansaços e, não raro, por feridas”. Esse paradoxo se resolve ao “reavivar em nós o dom da graça através da celebração diária da Eucaristia, da oração, da meditação da Palavra de Deus e do serviço humilde aos irmãos e irmãs”, diz Leão XIV. O bom padre, “com um coração íntegro, simples e puro é contemplativo no meio da ação, misericordioso, fiel na provação, alegre na entrega de si mesmo”. O sacerdote de que o mundo precisa não é o militante social ongueiro, mas aquele que dá “testemunho vivo dum coração reconciliado, espalhando o bom perfume da santidade de Cristo”.
“Na ordenação fomos configurados a Cristo, mas é preciso sempre reavivar em nós o dom da graça através da celebração diária da Eucaristia, da oração, da meditação da Palavra de Deus e do serviço humilde aos irmãos e irmãs.”
Papa Leão XIV, em mensagem para o Dia Mundial de Oração pela Santificação dos Sacerdotes.
A mensagem ainda tem um conselho muito prático aos padres: “Zelai pela fraternidade presbiteral: procurai-vos, escutai-vos, ajudai-vos uns aos outros. O sacerdote que se isola apaga-se lentamente; o sacerdote que caminha com os irmãos cresce”. Essa recomendação não aparece ali à toa. Eu não sei se a mensagem já estava pronta antes da viagem do papa à Espanha – suponho que sim –, mas no dia 9, em Barcelona, o papa respondeu a uma jovem que enfrentou a depressão e tentou o suicídio. Infelizmente, temos visto cada vez mais casos de padres que também tiram a própria vida.
Na resposta do papa à jovem em Barcelona, há muito que podemos aplicar à vida dos sacerdotes, como a “certa ideia de crescimento que submete as pessoas a pressões, expectativas e tensões que comprometem equilíbrios fundamentais”, ou os “modelos culturais [que] querem que sejamos sempre vencedores e perfeitos e, por isso, o limite, a fragilidade e a dor devem ser eliminados ou confinados ao silêncio ensurdecedor da solidão, e mesmo da vergonha”, ou ainda o “risco de minimizar esse sofrimento, de o silenciar, de ferir as pessoas”, inclusive por meio de uma “espiritualização da dor”.
Em agosto do ano passado, escrevi, comentando o suicídio do padre italiano Matteo Balzano:
“A vida dos sacerdotes é humanamente muito desgastante. O padre médio de hoje em dia já não passa o dia todo celebrando missa e ouvindo confissões como o cura d’Ars: ele tem de ser pastor de almas, carismático, bom administrador e com tempo para uma série de outras atividades humanas (muitas das quais bem que podiam ficar a cargo dos leigos da paróquia, mas para isso precisaria haver leigos dispostos). Nem sempre o padre tem uma rede de apoio, como família e amigos; se é transferido de paróquia (como virou costume em muitas dioceses), tem de construir laços do zero.”
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Pobre daquele padre que se vê prensado entre o bispo que o enxerga como ativo transferível e o paroquiano que o enxerga como robô dispensador de sacramentos, sem que nenhum deles o veja como ele realmente é, um ser humano que também se cansa, que precisa de apoio e de companhia. Por isso Leão XIV pede que os sacerdotes sejam unidos, ajudem-se mutuamente. Poucos dias depois de ser eleito, o papa apareceu de surpresa na sede da sua congregação em Roma para celebrar missa e filar um almoço, e as imagens mostram o ambiente de alegria e descontração.
Mas só o apoio mútuo entre sacerdotes não basta; as comunidades também precisam ajudar. Primeiro, claro, com as orações, para que os padres sejam de fato santos, para que tenham força e saúde para cumprir sua missão. Mas também aliviando a carga dos padres onde for possível, já que muitos andam sobrecarregados por causa de tarefas que poderiam ser feitas por leigos de confiança. E, se e quando surgirem os casos de estafa (o nome moderninho é burnout), ou depressão, que não sejam minimizados como “falta de vida interior” ou coisa do tipo, mas sejam tratados como devem. Nós precisamos dos padres, mas não é porque eles foram ordenados e são “outros Cristos” que eles são larger than life, como dizem os americanos: eles precisam de nós, mais do que imaginamos.
Cancelar missa na hora de jogo do Brasil é absurdo sem justificativa
Na semana passada, o Tiago Bruno, do canal Católicos de Verdade, fez um alerta importante e mostrou casos em que paróquias estavam cancelando as missas de sábado à noite por causa do jogo entre Brasil e Marrocos (vai ver o futebolzinho triste daqueles primeiros 15 minutos foi castigo divino). Lamentável, muito lamentável. Mas, só para oferecer um contraste, também tivemos casos bacanas: no dia 10 fui à missa da catequese com meus dois filhos mais velhos, e a paróquia é dedicada a Santo Antônio. Pois a missa solene do padroeiro foi mantida para as 19 horas do sábado, horário exato do jogo, e o padre ainda avisou que os coroinhas que não aparecessem por causa do futebol poderiam passar no RH na segunda-feira...
Mudem a celebração para antes, ou depois da partida, façam uma noite do pastel no salão paroquial para todos torcerem juntos, mas pelo amor de Deus não cancelem a missa
Eu só discordo um pouco do Tiago na crítica que ele fez às paróquias que acharam uma solução intermediária: adiantar a missa do sábado à noite para horários como as 18 horas. Para mim, é uma tentativa válida de acomodar as necessidades de quem, por quaisquer motivos, só tem a noite de sábado para ir à missa, mas também quer assistir à partida. Melhor fazer isso que manter à missa no horário normal e ter a igreja inteira pensando apenas em como está o placar da partida. Não acho que isso seja colocar Cristo em segundo lugar, ou coisa do tipo, mas ser flexível em uma situação extraordinária (não é a final do campeonato estadual da segunda divisão, é Copa do Mundo, uma vez a cada quatro anos). Agora, cancelar é absurdo mesmo, é deixar sem missa gente que talvez só possa ir à igreja no sábado à noite.
Na fase de grupos, o Brasil não joga mais no fim de semana; mas, se ficar em primeiro no grupo e for avançando, tem oitavas-de-final num domingo e quartas-de-final no sábado seguinte; se ficar em segundo, tem oitavas-de-final num sábado. Se os jogos baterem com os horários de missa e se os padres quiserem deixar o paroquiano ver a seleção e participar da missa, mudem a celebração para antes, ou depois da partida, façam uma noite do pastel no salão paroquial para todos torcerem juntos, enfim, sejam criativos, mas pelo amor de Deus não cancelem a missa.













