Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Marcio Antonio Campos

Marcio Antonio Campos

Vaticano, CNBB e Igreja Católica em geral. Coluna atualizada às terças-feiras

Palácio Apostólico

A casa nova do papa

papa leão xiv palácio apostólico
Leão XIV reza o Angelus de uma das janelas do Palácio Apostólico: agora, edifício volta a ser a residência do pontífice. (Foto: Angelo Carconi/EFE/EPA)

Ouça este conteúdo

Neste sábado, o papa Leão XIV se mudou de vez para o Palácio Apostólico, como ele havia antecipado nos primeiros meses do seu pontificado – até então, ele estava morando no Palácio do Santo Ofício, o mesmo local onde residia na qualidade de cardeal prefeito do Dicastério para os Bispos, o cargo que ocupava antes de ser eleito papa em maio do ano passado. As reformas, necessárias após 13 anos de pouquíssimo uso dos aposentos papais que dão para a Praça de São Pedro, foram concluídas recentemente; as principais delas foram melhorias no banheiro e, principalmente, a remoção do mofo que havia tomado conta das paredes. Algumas outras mudanças foram feitas a pedido de Leão XIV, como um espaço para ele se exercitar – é algo comum quando um papa novo é eleito: as reformas feitas para Bento XVI, por exemplo, incluíram um local para as dezenas de milhares de livros de sua biblioteca pessoal e um espaço para seu piano.

E, assim que se confirmou a notícia da mudança, já começou a maldade: o Palácio Apostólico isso e aquilo, porque o papa Francisco não viveu ali, escolheu a Casa Santa Marta, e agora o papa Leão assim e assado, que retrocesso, onde já se viu, e a opulência, e a humildade, blablablá. Aquele tipo de comparação mal-intencionada que muita gente se cansou de fazer nos primeiros dias do pontificado de Francisco, com a intenção de atingir Bento XVI, e agora volta a fazer, como se a única maneira certa de fazer as coisas fosse a do pontífice falecido no ano passado, e tudo que se desviar disso é errado ou não condiz com a figura do papa. É o tipo de comparação que o próprio Francisco certamente desaprovaria, até porque, no caso da sua escolha de local para morar, ele mesmo explicou que não tinha nada a ver com um suposto luxo dos aposentos papais. Na sua famosa entrevista de 2013 ao padre Antonio Spadaro, Francisco afirmou:

“Eu não me via padre sozinho: preciso de uma comunidade. É mesmo isso que explica o fato de eu estar aqui em Santa Marta: quando fui eleito, ocupava, por sorteio, o quarto 207. Este onde estamos agora era um quarto de hóspedes. Escolhi ficar aqui, no quarto 201, porque quando tomei posse do apartamento pontifício, dentro de mim senti claramente um ‘não’. O apartamento pontifício no Palácio Apostólico não é luxuoso. É antigo, arranjado com bom gosto e grande, não luxuoso. Mas acaba por ser como um funil ao contrário. É grande e espaçoso, mas a entrada é verdadeiramente estreita. Entra-se a conta-gotas e eu não, sem gente, não posso viver. Preciso viver a minha vida junto dos outros.” (destaque meu)

“Da Praça de São Pedro não se vê a Casa Santa Marta. Mas dá para ver a luz acesa nos aposentos do papa no Palácio Apostólico. E é reconfortante passar pela praça à noite, ver aquela luz e pensar que o papa está ali, velando por nós.”

Padre Luís Fernando Alves Ferreira, sacerdote brasileiro que estuda em Roma.

Ou seja, Francisco nunca rejeitou o Palácio Apostólico por causa de um suposto luxo, que o próprio papa afirmava não existir, mas porque preferia um local onde fosse mais fácil estar em contato com mais pessoas. Aliás, quem viu as fotos publicadas em maio do ano passado, quando Leão XIV visitou pela primeira vez os aposentos papais ainda por reformar, percebeu que não havia mesmo nada de opulento ou extravagante. Como diz Francisco, são de fato aposentos grandes – até porque ali passam a morar também alguns assessores próximos do papa – e bem decorados, mas só: nada de ouro escorrendo pelo teto ou pelas paredes. Até onde eu sei, o Vaticano não divulgou fotos depois da reforma, mas duvido que tenham transformado o apartamento pontifício na versão católica do Salão Oval da Casa Branca.

E quem quiser insistir na história da “humildade” para explicar a escolha de Francisco por Santa Marta em vez do Palácio Apostólico – contra o que o próprio papa disse – terá uma informação complicada para justificar: os enormes custos de reforma e manutenção da Casa Santa Marta, que até então era apenas um hotel e não estava nem de longe preparada para ser residência papal. Todo o segundo andar precisou ser refeito para acomodar as necessidades de vida e trabalho de Francisco, sem falar do reforço na segurança, em um lugar que continuou a ser de passagem para muita gente, mas que agora tinha o mais ilustre dos hóspedes. Segundo o jornal italiano Il Tempo, os gastos chegavam a 200 mil euros por mês, o que, em mais de uma década de pontificado, soma dezenas de milhões de euros. Fora o prejuízo com a deterioração dos apartamentos papais deixados sem uso.

VEJA TAMBÉM:

Eu gosto da decisão de voltar ao Palácio Apostólico também porque há um fator “sentimental”, digamos, na falta de uma palavra melhor. Ele foi bem definido por meu amigo padre Luís Fernando Alves Ferreira, que faz seu mestrado em Roma. Almoçávamos perto do Vaticano em 10 de maio do ano passado, meu último dia na cidade após a cobertura do conclave, e ele me disse: “Da Praça de São Pedro não se vê a Casa Santa Marta. Mas dá para ver a luz acesa nos aposentos do papa no Palácio Apostólico. E é reconfortante passar pela praça à noite, ver aquela luz e pensar que o papa está ali, velando por nós”. O sentimento dele é o de muitos romanos. E tive um breve lampejo disso num distante 1998: estava em Roma para a Semana Santa com alguns amigos, e certo dia, voltávamos para o alojamento de van enquanto rezávamos o terço. Naquela época a Via della Conciliazione era aberta ao tráfego, e bem na hora de rezar na intenção do papa passamos perto da Praça de São Pedro, e lá estava a luz dos apartamentos papais acesa.

Enfim, nestes assuntos cada papa faz suas escolhas, tem seus motivos para fazê-las, e chega a ser injusto fazer um carnaval em cima delas, especialmente quando se trata de fazer comparações absurdas para exaltar um papa e criticar outro. Francisco, como vimos, tinha suas razões para escolher a Casa Santa Marta, com seus pontos positivos e negativos; Leão XIV também tem as suas para retornar ao Palácio Apostólico. Podemos preferir uma ou outra decisão, mas não se vai além disso. Melhor usar esse tempo, como sempre, para rezar pelo papa.

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.