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Marcio Antonio Campos

Marcio Antonio Campos

Vaticano, CNBB e Igreja Católica em geral. Coluna atualizada às terças-feiras

Semana Santa

Leão XIV contra os sommeliers de Tríduo Pascal

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Leão XIV lavou os pés de 12 sacerdotes da diocese de Roma na Quinta-Feira Santa. (Foto: Giuseppe Lami/EFE/EPA)

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Na Quinta-Feira Santa, o papa Leão XIV celebrou a missa da Ceia do Senhor na Basílica de São João do Latrão, e lavou os pés de 12 sacerdotes da diocese de Roma. Bastou para o mundo dito “progressista” (sempre entre aspas) vir abaixo. Por quê? Porque seu antecessor, o papa Francisco, nunca fez isso: em seus 12 anos de pontificado, ele sempre preferiu celebrar essa parte do Tríduo Pascal em prisões, centros de ressocialização de adolescentes infratores ou centros de acolhimento de refugiados, e para o lava-pés escolhia detentos, refugiados, ou funcionários dessas instalações – em 2016, o papa chegou a mudar o rito para permitir que mulheres também fizessem parte desse trecho da liturgia da Quinta-Feira Santa.

“Diferentes prioridades”, ouviu-se por aí, exatamente como se comentou diante da decisão papal de visitar o principado de Mônaco em sua primeira visita internacional dentro da Europa, comparando-a com a ida de Francisco à ilha de Lampedusa no início do seu pontificado. Nesta narrativa, Francisco é o papa que se preocupa com os vulneráveis, que vai até eles, que não os despreza, enquanto Leão – apesar de ter dedicado seu primeiro grande documento aos pobres – prefere outros tipos de ambientes e companhias, se é que vocês me entendem.

A Quinta-Feira Santa também é a festa do sacerdócio

Besteiras, besteiras sem fim. Primeiro, porque se há um costume (atenção, costume não é lei nem regra imutável) em relação ao lava-pés no Vaticano, é justamente o de se lavar os pés de 12 padres; foi Francisco quem desejou fazer diferente, e não sou eu que vou criticá-lo por isso, é uma decisão que ele tomou, e que podia tomar, por desejar passar uma determinada mensagem que condiz com o Evangelho. Mas há boas razões também para se voltar à prática anterior.

Quem critica as escolhas de Leão XIV costuma tratar o pontificado de Francisco como muitos tratam o Concílio Vaticano II, um “marco zero” da Igreja que invalida tudo o que veio antes

Costumamos lembrar da Quinta-Feira Santa como o dia da instituição da Eucaristia, mas também é o dia da instituição do sacerdócio, já que os dois são indissociáveis: só o padre, agindo in persona Christi, é quem pode nos trazer o Cristo eucarístico. Na manhã da Quinta-Feira Santa, em todas as dioceses, todo o clero se reúne para a missa crismal, ou dos Santos Óleos, que inclui a renovação das promessas feitas na ordenação sacerdotal (assim como todos nós renovamos nossas promessas batismais na Vigília Pascal), em outra recordação forte de que aquele dia é especial para os sacerdotes.

Ah, mas então a missa da manhã já não seria suficiente para a comemoração da instituição do sacerdócio? Não necessariamente. Primeiro, porque muita gente presta mais atenção à missa da noite (e ao lava-pés) que à missa crismal. Segundo, porque, como lembraram JD Flynn e Ed Condon, no The Pillar (que eu sempre recomendo), há um simbolismo muito forte quando um bispo – no caso, o bispo de Roma –, em um ato de serviço, lava os pés de seus, digamos, subordinados. E terceiro, porque, como lembrou o padre Gabriel Vila Verde, “padres do mundo inteiro estão pondo fim às suas vidas por causa de crises existenciais e doenças como a depressão. Para o mundo, isso não interessa, mas, para o papa, isso é um problema grave. É um pai preocupado com seus filhos”. E qual é mesmo a intenção de oração de Leão XIV para o mês de abril? “Rezemos pelos sacerdotes que atravessam momentos de crise na sua vocação, para que encontrem o acompanhamento necessário e para que as comunidades os apoiem com compreensão e oração”.

Não ocorre a ninguém dizer que Francisco estava desprezando os padres quando resolveu escolher outras pessoas e lugares para a missa do lava-pés, porque de fato seria uma bobagem enorme e uma acusação leviana, não seria? Então, que não se faça o mesmo com Leão XIV, acusando-o de fazer pouco dos pobres e marginalizados por causa de suas escolhas litúrgicas.

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Mais francisquistas que Francisco

Volto ao comentário de Ed Condon, do The Pillar, que apontou uma tendência muito interessante por parte de quem critica as escolhas do papa Leão XIV: tratar o pontificado de Francisco como muitos tratam o Concílio Vaticano II, um “marco zero” da Igreja que invalida tudo o que veio antes. Nessa lente, o pontificado anterior vira a medida de todas as coisas, a única forma correta de agir, de celebrar, de falar, de interagir, enfim, de tudo. É assim que um “francisquista” convicto como Austen Ivereigh chega ao ponto de criticar o papa Leão em janeiro deste ano por ter abençoado, na festa de Santa Inês, os cordeiros cuja lã seria usada para confeccionar os pálios dos novos arcebispos. “Na era da Laudato Si’, é correto tratar os animais dessa forma?”, perguntou o jornalista, como se o papa fosse, sei lá, esganar os pobres bichinhos...

Duvido muito que o próprio Francisco visse com bons olhos esse quase “culto à personalidade” que se estabeleceu em torno dele e de seu pontificado – coisa de seita messiânica, como diz Condon, para quem isso ainda revela uma eclesiologia tremendamente capenga, que desconhece a verdadeira natureza da Igreja e suas características, para considerá-la um ser em metamorfose, que para aparecer resplandecente precisa deixar para trás uma casca morta. Achar que a Igreja “começou” com o Vaticano II, ou que o papado “começou” com Francisco, é tão ilógico quanto achar que a Igreja “acabou” no Vaticano II ou que o papado “acabou” na eleição de Francisco, como fazem tradicionalistas radicais e sedevacantistas. São os famosos extremos que se encontram.

Quem é o seu (e o meu) rei?

ecce homo antonio ciseriDetalhe de "Ecce homo", de Antonio Ciseri; momentos depois dessa cena, a multidão diz não ter outro rei a não ser César. (Foto: Wikimedia Commons/Domínio público)

Há dois momentos nas leituras da Sexta-Feira Santa que me dão um frio na espinha. O primeiro é o “ele foi castigado por nossos crimes, e esmagado por nossas iniquidades”, da leitura de Isaías, sobre o Servo Sofredor (53,5). O segundo é o “não temos outro rei senão César”, uma das frases que cabem à assembleia no relato da Paixão segundo São João (19,15). O povo respondia a uma pergunta de Pilatos: “Hei de crucificar o vosso rei?”

E hoje? Hoje a resposta é a mesma, embora o César da vez sejam muitos. “Não temos outro rei senão o dinheiro.” “Não temos outro rei senão o poder.” “Não temos outro rei senão o prazer.” “Não temos outro rei senão a fama e os likes.” “Não temos outro rei senão o algoritmo.” “Não temos outro rei senão a carreira.” “Não temos outro rei senão nossa comodidade.” “Não temos outro rei senão nossa opinião.” “Não temos outro rei senão nossa ideologia.” “Não temos outro rei senão nosso político de estimação.” Sei que todos gostaríamos de não ter uma dessas respostas na ponta da língua, mas quantas vezes não nos escapa algo assim, talvez não pela nossa boca, mas pelas nossas atitudes? Eis um bom exame de consciência para fazermos.

O adeus a Vitttorio Messori

Este 2026 não está fácil para a comunidade de jornalistas que acompanham o Vaticano e a Igreja. Em janeiro, perdemos John Allen Jr.; agora, na Sexta-Feira Santa, faleceu Vittorio Messori, aos 84 anos, em sua residência – a família não informou a causa da morte. Foi um vaticanista antes que o termo se popularizasse; não o tipo de vaticanista que está sempre atrás de furos ou novidades, que conversa com fontes eclesiásticas o dia todo para entender o que está acontecendo na Igreja, mas certamente alguém que tinha a confiança de pessoas como o papa João Paulo II e o cardeal Joseph Ratzinger – os livros-entrevista Relatório sobre a Fé e Cruzando o limiar da esperança estão entre os seus mais conhecidos. No primeiro, o mundo conheceu o que pensava o recém-nomeado prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (o livro é de 1984, e Ratzinger tinha sido nomeado em 1982; Messori apanhou bastante por ter dado voz ao “Grande Inquisidor” dos anos 80...). O segundo, de 1994, marcou a primeira longa entrevista de um papa reinante a um jornalista.

Infelizmente, só li esses dois, mas sua obra é bem mais extensa, inclusive no campo da apologética. Messori nasceu em uma família ateia e anticlerical, e se converteu lendo os Evangelhos. Dedicou-se, depois disso, a investigar as razões da nossa fé, e publicou suas conclusões em vários livros. Um conhecido afirmou que Hipóteses sobre Jesus o ajudou a deixar para trás toda a lenga-lenga do “Jesus histórico” e as picaretagens de teólogos como Rudolf Bultmann, que, embora luterano, é popular em certos círculos católicos e faz um estrago com suas teorias que, por exemplo, negam a ressurreição física de Jesus. Então, que agora Messori esteja recebendo sua recompensa eterna pelo enorme bem que fez.

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