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No último dia 25, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução que descreve a escravidão forçada de africanos e o tráfico transatlântico desses escravos como “o mais grave crime contra a humanidade” já cometido. A resolução, que ainda pede reparação histórica (inclusive financeira) e devolução de artefatos africanos hoje preservados em museus fora do continente, no entanto, não é vinculativa; ela foi aprovada com 152 votos favoráveis, três contrários (EUA, Israel e Argentina), e 52 abstenções, incluindo a maioria dos países europeus.
Não vamos discutir aqui o mérito da questão, se este é ou não o maior dos crimes contra a humanidade (só digo que um dia eu espero ver a eliminação deliberada de milhões e milhões de seres humanos indefesos e inocentes pelo aborto também reconhecida como crime contra a humanidade); e me parece muito óbvio que, embora a escravidão seja um fenômeno verificado em muitas épocas e culturas, a escravidão dos africanos na América e o tráfico negreiro tiveram características especialmente cruéis que justificam esse reconhecimento diferenciado. O problema é que isso foi feito com uma distorção história que o Vaticano não quis deixar passar incólume.
“Ordenamos a todos (...) que restaurem à sua liberdade anterior todas e cada pessoa de ambos os sexos que já foram residentes das referidas Ilhas Canárias, e fizeram cativos desde o momento da sua captura e que foram sujeitos à escravidão.”
Trecho da bula Sicut dudum, do papa Eugênio IV (1435)
O rascunho da resolução, apresentado em 17 de março, mencionava, na parte dos “considerandos”, a “codificação progressiva da escravização racializada de africanos em todo o mundo, incluindo a bula papal Dum Diversas, de 18 de junho de 1452, e a Romanus Pontifex, de 8 de janeiro de 1455, que autorizou a redução de pessoas africanas à ‘escravidão perpétua’”. Na sessão em que a resolução foi votada, o arcebispo Gabriele Caccia, núncio apostólico e observador permanente da Santa Sé junto às Nações Unidas, se manifestou afirmando que o texto proposto “contém uma narrativa parcial, que infelizmente não serve à causa da verdade. A memória histórica, quando baseada em informação histórica precisa e imparcial, ao lado da educação e da conscientização, têm papel fundamental em prevenir que esses graves flagelos da humanidade se repitam”. Antes disso, ele havia mostrado o que o texto deixara de fora:
“Como disse o papa Leão XIV, ‘Desde os tempos apostólicos, a Igreja viu na libertação dos oprimidos um sinal do Reino de Deus. (...) Essa missão libertadora prolongou-se ao longo dos séculos por meio de ações concretas, especialmente quando o drama da escravidão e do cativeiro marcou sociedades inteiras”. Essas convicções foram expressas em vários documentos papais. Por exemplo, ainda em 1435, o papa Eugênio IV condenou a escravização dos habitantes das Ilhas Canárias e excomungou todos os que se recusassem a libertá-los. Mais recentemente, em 1888, o papa Leão XIII condenou a escravidão como contrária aos valores cristãos, lembrando que, de acordo com Santo Agostinho, ‘tendo criado o homem como ser racional, à Sua imagem, Deus quis que ele reinasse apenas sobre a criação bruta; que ele fosse mestre, mas não dos homens’.”
A escolha muito seletiva de documentos papais citados na declaração, intencional ou não, distorce a verdade histórica. Claro, podia ter sido pior: eu estudei com livros didáticos segundo os quais a Igreja defendia que os negros não tinham alma, uma falsificação tão, mas tão grotesca que hoje só os muito ignorantes ou os muito mal-intencionados a propagam. Mas não dá para falar de Igreja e escravidão sem mencionar, como fez o arcebispo Caccia, a Sicut dudum de Eugênio IV, ou a Sublimis Deus, de 1537, publicada por Paulo III, que, embora não se referisse à escravização de africanos, mas de indígenas das Américas, é um marco importante da posição da Igreja sobre a escravidão. Mesmo a Dum Diversas não pode ser citada sem a devida contextualização e a referência às lutas dos portugueses contra os “sarracenos e pagãos” no Norte da África.
VEJA TAMBÉM:
Felizmente, aqui na Gazeta do Povo temos gente boa disposta a restabelecer a verdade histórica. Se você só tiver tempo para ler um único texto de mais fôlego hoje, pegue esta coluna do Paulo Cruz (que nem católico é), publicada em 2020, com uma descrição bem mais detalhada a respeito da relação da Igreja com a escravidão, com as suas luzes e sombras. Anos antes, na época em que tínhamos o jornal impresso, com suas limitações de espaço, o historiador Ricardo da Costa também já havia publicado um artigo, mais curto, sobre esse tema.
Que homens da Igreja tenham, de alguma forma, contribuído para a manutenção da escravidão na América oferecendo alguma justificação teológica – como o jesuíta Jorge Benci, autor de Economia cristã dos senhores no governo dos escravos, que Paulo Cruz menciona em sua coluna –, ou mesmo que tivessem escravos, como foi o caso dos jesuítas em Angola, apesar da ordem contrária de Santo Inácio de Loyola, é vergonhoso, e a Igreja já se desculpou em mais de uma ocasião por isso. Mas usar seletivamente alguns poucos documentos pontifícios para criar uma narrativa na qual a Igreja Católica, como instituição, aprova ou encoraja a escravidão e o tráfico de escravos é torcer a realidade para fazer propaganda antirreligiosa.
Rico também é filho de Deus

A primeira viagem internacional do papa Leão XIV dentro da Europa foi para o principado de Mônaco – nunca antes na história desse planeta um pontífice havia visitado a micronação. Os maldosos, comparando a escolha com o fato de uma das primeiras viagens de Francisco ter sido para a ilha de Lampedusa, ponto de entrada de imigrantes que tentavam chegar à Europa, se perguntaram o que o papa iria fazer no meio dos super-ricos que povoam o principado. Pois foi pregar para eles e tentar chacoalhar suas consciências, oras!
Em seu primeiro compromisso oficial, no palácio do príncipe de Mônaco, Leão XIV lembrou que “não poucos [moradores de Mônaco] ocupam cargos de considerável influência nos setores econômico e financeiro”, acrescentou que “para alguns, morar aqui representa um privilégio e, para todos, um apelo específico a perguntar-se sobre o seu lugar no mundo”, e não perdeu tempo, já emendando a reflexão sobre a parábola dos talentos. O Reino de Deus, disse o papa, “abala as configurações injustas do poder, as estruturas de pecado que criam abismos entre ricos e pobres, entre privilegiados e marginalizados, entre amigos e inimigos. Cada talento, oportunidade ou bem colocado nas nossas mãos tem um destino universal, uma exigência intrínseca de não ser retido, mas redistribuído, para que a vida de todos seja melhor”. Leão XIV ainda pediu “um compromisso de todo especial no aprofundamento da Doutrina Social da Igreja”.
“Cada talento, oportunidade ou bem colocado nas nossas mãos tem um destino universal, uma exigência intrínseca de não ser retido, mas redistribuído, para que a vida de todos seja melhor.”
Papa Leão XIV, em visita ao principado de Mônaco
No encontro com a comunidade católica, na catedral da Imaculada Conceição, Leão XIV voltou a mencionar a diversidade peculiar do principado, que chamou de “um pequeno Estado cosmopolita, no qual à variedade de origens se associam também outras diferenças de natureza socioeconômica”. Em seguida, disse que “na Igreja, tal pluralidade não se torna nunca motivo de divisão em classes sociais, mas, pelo contrário, todos são acolhidos enquanto pessoas e filhos de Deus, e todos são destinatários de um dom de graça que encoraja a comunhão, a fraternidade e o amor mútuo” (destaque meu). E voltou a provocar: pediu “novos mapas de orientação capazes de conter aquelas investidas do secularismo que ameaçam reduzir o homem ao individualismo e fundar a vida social na produção de riqueza”, e disse que os monegascos precisam se questionar: “Será que o modelo econômico e social vigente é realmente justo e caracterizado pela solidariedade? Estará ele impregnado da ética da responsabilidade, que nos ajuda a ir além da ‘lógica da troca de equivalentes e do lucro como fim em si mesmo’ [uma citação da Caritas in veritate, de Bento XVI], para construir uma sociedade mais equitativa?”
E, na missa campal, comentando uma das leituras, o papa falou da idolatria, dizendo que os idólatras “olham para aquilo que fascina os seus olhos, obscurecendo-os. E assim, justamente as coisas grandes e boas desta terra tornam-se ídolos, transformando-se em formas de escravidão não para quem delas carece, mas para aqueles que as têm em abundância, deixando o próximo na miséria e na desolação”. É preciso, portanto, buscar “a libertação de um poder que se tornou domínio, da riqueza que se degenera em cobiça, da beleza maquiada de vaidade”. Sobrou até para um dos ícones de Monte Carlo, quando Leão XIV afirmou que a autêntica alegria “não se conquista com apostas, mas se partilha com a caridade”.
O Vigário de Cristo falou aos sucessores de Zaqueu, do jovem rico e de todos os personagens assemelhados dos Evangelhos; se eles ouvirão é outra história...











